O Brasil visto por Antônio Poteiro é tema de mostra no CCBB-BH

Nascido em Portugal, pintor e ceramista franciscano chegou ao país com 2 anos de idade e produziu até os 83

Mariana Peixoto 15/01/2020 06:00
 Doizum Comunicações/Divulgação
Tela As três raças integra a mostra que fica aberta à visitação até o dia 30 de março, em Belo Horizonte (foto: Doizum Comunicações/Divulgação)

Não foram poucas as vezes em que o escultor, ceramista e pintor Antônio Poteiro pensou em desistir. As telas eram muito grandes; ele, pequeno. Havia o problema na perna, a idade. Mas seu filho, Américo, insistiu. “Ele subia na escada, virava a tela de cabeça para baixo, de lado”, conta Américo sobre o manuseio das gigantescas telas de 2,10 x 1,90. Três delas – com a chegada das caravelas portuguesas ao Brasil, a fauna e a flora do país e as duas primeiras missas aqui realizadas – são a porta de entrada para a exposição Poteiro, o popular e o público, que será aberta nesta quarta (15), no Centro Cultural Banco do Brasil, em Belo Horizonte.

Português de uma aldeia próxima a Braga, chegou ao Brasil com a família aos 2 anos de idade. Nascido Antônio Batista de Sousa (1925-2010), tornou-se Poteiro por sugestão da folclorista Regina Lacerda, que o orientou a assinar os bonecos de barro que fazia. Até se estabelecer definitivamente em Goiânia, nos fim dos anos 1950, passou por outros lugares. Viveu no Triângulo Mineiro e na Ilha do Bananal (antes Goiás, atual Tocantins), onde conviveu com os índios carajás. Franciscano, exibia uma longa barba e os pés sempre descalços. Durante a construção de Brasília, sustentou-se vendendo moringas que ele mesmo confeccionava – o ofício aprendeu com o pai, também ceramista. Enchia a boleia de um caminhão delas e rumava para a futura capital federal para ganhar os seus quinhões.

Esta e outras histórias são descritas na impressionante série Brasil 500 anos, que compõe a maior parte da exposição. Ao longo de dois anos e meio – entre 1998 e 2000 – Poteiro pintou os 22 óleos sobre tela da série, que foram expostos pela primeira vez em 2000, em Brasília, nas comemorações dos cinco séculos do descobrimento. As telas são repletas de pequenas figuras de pessoas, casas, animais, flores, árvores, sempre simétricos, com detalhes e apuro. E muita, muita cor.

“Chama muito a atenção a presença do azul, que muitos chamam de 'Azul Poteiro'. Em toda a produção dele,  sempre vamos encontrar uma grande massa desses tons azuis. Ele viveu no cerrado, e Goiás é conhecido pelo céu panorâmico”, destaca Rafael Abdala, que colaborou com a curadoria e a cenografia da exposição. O curador responsável pela mostra é o pesquisador Leno Veras.

Numerados, os quadros obedecem a uma cronologia da história do Brasil. Poteiro, à sua maneira, vai apresentando os Brasis dentro do Brasil. Tem a chegada dos navios negreiros, a Inconfidência Mineira, o bumba meu boi do folclore, o frevo de Pernambuco, o sonho de Juscelino Kubitschek de fazer uma nova capital, a mudança da colônia para a república, o carnaval, os povos que constituíram o país. Ele se coloca em algumas telas, seja dormindo embaixo do caminhão das moringas, seja em meio à vegetação do cerrado.

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A república é uma das telas de Poteiro em exibição. Artista trabalhava com telas de grandes dimensões (foto: Doizum Comunicações/Divulgação)


CERÂMICA

“Poteiro iniciou sua trajetória como ceramista fazendo utilitários. Depois experimentou outras coisas na cerâmica. Mas, na pintura, quando o trabalho aconteceu de maneira exponencial, houve uma relação de amizade e também conflito com artistas que o estimularam, como Siron Franco. Ele não estava alheio às construções da pintura. Há uma elaboração temática nos quadros que não são simplesmente naïf, ingênuos. Vemos elementos simbólicos, até críticos, nas telas”, afirma Abdala. Hoje, seus trabalhos estão em instituições e coleções privadas de pelo menos 40 países.

A mostra Poteiro, o popular e o público reúne 29 telas, todas pertencentes ao Instituto Antônio Poteiro, criado por Américo (o único dos três filhos que se dedicou à cerâmica e à pintura), pouco após a morte do artista. Com sede em Goiânia e mantido pela própria família, sem nenhum tipo de patrocínio, o Instituto Antônio Poteiro mantém ativa uma oficina para crianças. Além das 22 telas da série Brasil 500 anos, a exposição traz quadros mais antigos, que exploram outros aspectos de sua obra.

De acordo com Américo, Poteiro levou uma década concebendo a série Brasil 500 anos. “Ele não esboçava, pintava direto na tela. Quando fazia uma série, pintava devagarinho (e simultaneamente). Uma tela dessas ele ia e voltava quatro, cinco vezes, até terminar”, conta o herdeiro do artista.

A exposição que chega ao CCBB é apenas um recorte do previsto. Originalmente, seria uma grande retrospectiva, com uma centena de trabalhos. Teve que ser readequada por causa do local da mostra – três salas contíguas na entrada do centro cultural, todas tombadas, o que impede que haja qualquer tipo de mudança, inclusive na iluminação. Como as telas da série são de grande e médio portes, ficaram um tanto apertadas nas salas.

A última parte da mostra revela fotografias de Poteiro em seu ateliê e ao lado de Jorge Amado e Zélia Gattai, Roberto Burle Marx e Raul Cortez. As telas que estão no CCBB são apenas uma parte do acervo do artista que está no instituto – Américo contabiliza aos menos uma centena de quadros, além das cerâmicas. “Ele trabalhou até dois anos antes de sua morte (aos 85 anos). Estão no instituto os últimos cinco quadros que ele não conseguiu terminar”, diz o filho.

JAIR AMARAL/EM/D.APRESS
Américo e Antônio Poteiro Neto, respectivamente filho e neto do artista, conferem montagem da exposição no CCBB-BH (foto: JAIR AMARAL/EM/D.APRESS)
 

POTEIRO, O POPULAR E O PÚBLICO
Exposição de Antônio Poteiro. Abertura para o público nesta quarta (15), às 10h, no CCBB, Praça da Liberdade, 450, Funcionários, (31) 3431-9400. De quarta a segunda, das 10h às 22h, até 30 de março.

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