Mostra tecnológica em BH tem feto artificial que reage ao visitante

Obras em exposição no Museu MM Gerdau se situam na fronteira da tecnologia com a arte e tratam da interação do homem com a máquina e sua ação destrutiva no planeta

Ana Clara Brant 17/12/2019 06:00
Fotos: Juarez Rodrigues/EM/D.A Press
Código das minúcias, de Jack Holmer, é constituída de esculturas que simulam o crescimento de um feto humano e suas reações ao ambiente externo, ou seja, aos visitantes da exposição (foto: Fotos: Juarez Rodrigues/EM/D.A Press )

Um fungo que tuíta e procura textos na internet, uma “ilha” que emite sons e um bebê robô que reage à presença humana, podendo ficar tranquilo ou temeroso. Essas são algumas das atrações da exposição CoMciência, que estará em cartaz até março, no MM GerdauMuseu das Minas e do Metal, na Praça da Liberdade.

A reportagem do Estado de Minas visitou e interagiu com as seis obras escolhidas dentre 252 de 26 países que dialogam com a arte, a ciência e a tecnologia. “A curadoria foi toda feita às cegas. A gente não sabia origem, gênero, nada dos artistas. Mas foi interessante perceber que, nesse universo, tivemos duas propostas de Belo Horizonte e três mulheres participantes”, afirma Alexandre Milagres, que assina a curadoria da mostra ao lado de Tadeus Mucelli.
A artista belo-horizontina Thatiane Mendes foi uma das selecionadas e trouxe para a CoMciência uma experiência táctil inovadora. A obra Futura pele é, segundo sua criadora, um trabalho de arte e também uma especulação científica baseada na aproximação das tecnologias ao corpo humano e à roupa. “Além dessa aproximação física, esses tipos de tecnologias têm agenciado muitas de nossas informações coti- dianas. Relógios inteligentes e smartphones, por exemplo, podem analisar, registrar e nos informar quantos passos demos, para onde fomos, por quanto tempo estivemos, nossos batimentos cardíacos, quanto tempo dormimos, entre outras informações que considero de intimidade sobre nosso corpo. Deste modo, esses objetos técnicos já estão criando narrativas sobre nós, mudando a nossa forma de nos relacionar conosco mesmos e com o mundo. É necessário pensarmos o que esses seres técnicos podem dizer sobre nos”, diz.

Para demonstrar essa relação da pele com as tecnologias, Thatiane apresenta na exposição três peças: um cinto de computação vestível chamado Bússola tátil, que grava a orientação espacial e é capaz de reproduzir essa orientação através de microvibrações no cinto. Outra peça é a “joia digital” Empalidecer (construída em parceria com o Centro de Estudos e Design de Gemas e Joias (Cedgem), da Escola de Design da UEMG, que capta batimentos cardíacos e os apresenta em forma de movimento em uma joia e na mudança de cor de uma pele, que vai do empalidecer ao ruborizar.

“Além disso, apresento o cultivo de bactérias junto a elementos de microeletrônica usados para criação de peles-roupas reativas, eletrônicas e sensíveis”, comenta a artista, que celebra a participação em CoMciência. “Está sendo um estímulo para continuar a pesquisar e produzir no campo da arte, da ciência e da tecnologia. No Brasil, há poucos eventos de artes digitais. Participar da primeira versão da CoMciência e saber que haverá outras versões em Belo Horizonte é muito gratificante, porque sei que poderá haver futuras trocas de experiências e fomento de produção e pesquisa nesta área, que começa a ganhar espaço”, afirma.

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Na instalação Campos elíseos, de Henrique Roscoe, seres autômatos são alimentados por luz. O caminhar do visitante pela mostra interfere na disposição da obra


SOM 

Ilha sonora, da gaúcha Camila Proto, abre a mostra e não deixa de ser um contraponto a ela, como observa o curador. A artista, que trabalha há algum tempo a questão das poéticas sonoras, decidiu promover uma reflexão sobre de que maneira o som impacta nosso entendimento em relação ao ambiente e ao espaço. “Essa ilha sonora é uma ficção sobre a possibilidade de o som criar territórios além daqueles visíveis e percebidos pela sociedade. Temos três instalações que dão uma certa ideia de que existe uma influência material e tátil do som no ambiente”, comenta Alexandre Milagres.

Um dos trabalhos que têm chamado a atenção dos visitantes, sobretudo os mais jovens, é Códigos das minúcias, do curitibano Jack Holmer. O projeto apresenta cinco esculturas eletronicamente autônomas dotadas de memória, sensores e rede neural que leem o ambiente e respondem aos estímulos sensoriais conforme seu aprendizado diário. As esculturas simulam o crescimento de um feto humano em quatro estágios pré-natais e um pós-natal.

A evolução do sistema pode ser vista externamente ao corpo em um monitor que apresenta os dados internos de processamento da rede neural em gráficos fáceis de entender. O comportamento nervoso do robô muda de acordo com quem se apresenta diante dele. “Ele tem um processo de aprendizado a partir dessa leitura de traços faciais. Cada pessoa que aparece ali ele tenta entender e reconhecer esse rosto. É um pouco como a gente. Se eu te conheço, tenho uma empatia, caso contrário, não”, explica o curador.

Para Jack, a interação do robô antropomórfico tem um apelo afetivo pelo fato de sua forma se assemelhar à humana. “As pessoas entram sem se questionar se é um robô, assim como não questionam (dar carinho e atenção)  um filhote de animal ou um infante humano. A interação humano-máquina, apesar de ser bem notada nessa obra, é um objetivo secundário. O objetivo principal é pensar a lógica cognitiva do 'cérebro' do robô, mas isso fica de certo modo oculto do público, pois está no código de programação, somente é notado nas reações do robô”, afirma o artista, que está satisfeito com as reações que sua obra tem despertado no público.

“As reações são sempre bem-vindas e, geralmente, demonstram uma ligação afetiva entre o público e os robôs, mas não há uma preocupação prévia de minha parte em pensar essas reações. O que realmente estou ansioso é em como o robô reagirá ao público, como irá formar sua memória das pessoas, como irá se lembrar delas e como o código da inteligência artificial irá evoluir no período da exposição”, conta.

O curador Alexandre Milagres ressalta que, assim como Códigos das minúcias, as demais obras são frutos de anos de pesquisas e encontraram no edital da CoMciência – que já tem uma segunda edição programada para 2020 – uma oportunidade para se viabilizar. Em comum há também o fato de serem projetos que estão em um contínuo processo de modificação. “É uma exposição viva, que muda ao longo do tempo. A exposição de hoje é diferente da de amanhã e certamente será diferente quando se encerrar, em março. Isso é muito interessante”, frisa.

RESPIRAÇÃO 

Uma das obras que refletem essa evolução é acrossTime, do equatoriano Paul Contreras, que criou “uma estrutura respiratória” baseada em um estromatólito (os fósseis mais antigos do planeta). A obra tem uma parte morta, formada por carbonato de cálcio, areias e outros sedimentos, e uma viva,  formada por cianobactérias (tipo de bactérias fotossintéticas). “Ao longo dos dias, essa estrutura vai se modificando. Além de nos levar à reflexão sobre a questão do tempo, ela nos faz questionar sobre como é possível ter algo que seja ao mesmo tempo morto e vivo”, diz o curador.

Ao lado de acrossTIME está Culturas degenerativas, do paulista Cesar Baio e da norte-americana Lucy HG Solomon, obra interativa em que organismos, redes sociais e inteligência artificial trabalham juntos para corromper o impulso humano de dominar a natureza. No projeto, há dois tipos de fungo. Microorganismos vivos crescem sobre textos que falam sobre o ideal humano de controlar e explorar a natureza, tuitando o que “leem” enquanto um fungo digital (baseado em algoritmos) procura textos na internet (pela conta @HelloFungus) que contenham a mesma ideia expressa no livro.

“Ambos estão conectados por um sistema digital-orgânico baseado na análise de crescimento do organismo vivo. Essas inteligências pré-humana e pós-humana (dos micro-organismos e da inteligência artificial) trabalham juntas para corromper simbolicamente a ideia de que o ser humano é superior aos outros seres do planeta, que deve dominá-los e espoliá-los. Ao criar uma interação entre natureza e tecnologia, este projeto enfatiza o papel do antropocentrismo como raiz principal das mudanças climáticas. O projeto é uma provocação sobre como nossos sistemas poderiam ser”, explica Lucy.

Cesar afirma que um dos objetivos do trabalho é dialogar com o momento presente. “A arte oferece um espaço para introduzir novas utopias. Com Culturas degenerativas, nós vislumbramos uma sociedade futura que equilibra sistemas humanos e não humanos, naturais e tecnológicos. Em um contexto nacional e internacional marcado por discursos que negam o conhecimento científico, as mudanças climáticas e que estabelecem políticas que colocam em risco a vida no planeta, é de extrema importância iniciativas como o programa CoMciência, que oferece oportunidade para levantarmos discussões importantes e, por meio da arte, imaginar outros futuros possíveis.”.

Outro trabalho que questiona os impactos da devastação do meio ambiente e a relação entre humanos e natureza é Campos elíseos, do belo-horizontino Henrique Roscoe. A obra remete a um futuro distópico e faz lembrar um jardim desértico. É composta por seres artificiais com autonomia e vida própria, que se comunicam através da emissão de sons particulares. Esses seres são autômatos que vivem de luz, seja ela solar ou artificial, e estão dispostos no espaço de forma irregular, preferencialmente misturados à natureza.

A obra funciona a partir da interatividade com o próprio caminhar do visitante, que, alterando sua posição no espaço, muda a relação de escuta com os seres que estão vivendo nele. “2019 foi um ano com acontecimentos impactantes sobre o meio ambiente, sejam as queimadas na Amazônia, o rompimento da barragem em Brumadinho. Henrique decidiu trazer essa aridez para refletir sobre o momento que estamos vivendo. É algo que conversa bastante com o público e dá mais força ainda ao trabalho dele”, analisa Alexandre Milagres.

CoMciência

Exposição de arte, ciência e tecnologia. No MM Gerdau – Museu das Minas e do Metal (Praça da Liberdade s/nº, Prédio Rosa. (31) 3516-7200). Até 6/1. Horário estendido de funcionamento, de terça a sábado, das 12h às 21h, e domingos, das 12h às 20h. A partir de 7/1, de terça a domingo, das 12h às 18h, e às quintas, das 12h às 22h. Entrada franca. Até 15 de março. 

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