Nesta segunda, Milton Hatoum lança o livro 'Pontos de fuga' em BH

Novo romance, cuja trama se passa na ditadura militar, dialoga com o Brasil contemporâneo. O governo Bolsonaro 'exerce a censura', adverte o escritor amazonense

Augusto Pio 02/12/2019 06:00
Renato Parada/divulgação
(foto: Renato Parada/divulgação)

Impasses do Brasil alinhavam a trama do romance Pontos de fuga, que Milton Hatoum vem lançar nesta segunda-feira (2), em BH, a convite do projeto Sempre um Papo. A trama entrelaça o período da ditadura militar com os anos de formação de jovens que sonham com a liberdade. O livro faz parte da trilogia O lugar mais sombrio, iniciada com A noite da espera (2017).

Protagonizada pelo estudante Martim, a história se desenrola nos anos 1960. No segundo livro, ele deixa Brasília rumo a São Paulo para estudar na Faculdade de Arquitetura da USP e vai morar numa república na Vila Madalena.
Distante do pai opressor, dos amigos de Brasília e em crise com a namorada, a atriz Dinah, o jovem assiste à escalada do governo militar, enquanto experimenta os desafios da vida adulta, atormentado pelo sumiço de sua mãe, Lina. “Como no primeiro volume, a narrativa é composta de várias vozes, alternando anotações de Martim e de seus amigos, bilhetes, cartas e memórias que ele revisita mais tarde, já exilado em Paris”, explica Hatoum.

Martim vai deixando para trás a ingenuidade e as ilusões. A maturidade traz novos questionamentos pessoais, crises em relação à profissão e ao trabalho, a dúvida sobre permanecer ou deixar o Brasil. “Quis criar um microcosmo dessa triste república que, de alguma forma, refletisse o mal-estar do país naquela época”, afirma Hatoum.

De acordo com o autor, trata-se de ficção, mas há ali suas próprias vivências. “É uma experiência filtrada de coisas que aconteceram comigo e com amigos. Há um personagem muito próximo de um amigo meu, um jovem liberal”, comenta.  “Há um ambiente de ameaça, delação e medo muito fortes nesse segundo livro.”

DIREITA

Pontos de fuga dialoga com o Brasil contemporâneo. “Um personagem, expulso da república de estudantes, é um desses caras de direita que ri de assassinatos, zomba da humilhação, da perseguição política. Há personagens que estão aí hoje em dia, vamos assim dizer”, afirma Hatom. “Mesmo à minha revelia, a história está bem atual. Porém, não havia pensado nisso. Como a escrevi há muito tempo, não tinha ainda esta decepção de que o Brasil entraria nesta viagem ao fundo da noite, à obscuridade.”

Hatoum se preocupa com o momento político do país. “Hoje, não estamos vivendo uma ditadura, isso é claro. Caso contrário, a situação seria outra. Mas o presidente é antidemocrático. Aliás, essa é uma contradição, pois ele passou 28 anos no Congresso e elogia a ditadura e a tortura como se fossem a coisa mais natural numa democracia. Vejo nesse governo um traço muito forte de autoritarismo e arbítrio, medidas arbitrárias e perigosas. O filho do presidente elogia o AI-5, o ministro da Economia também evocou esse Ato Institucional.”

O autor de Pontos de fuga alerta para “o discurso perigoso, ameaçador, antidemocrático” que tem se disseminado no país. “Isso não contribui para nada. Ao contrário, tensiona ainda mais a polarização que aí está. Ele (Jair Bolsonaro) não governa ainda, parece estar no velho comício. Só que agora pelas redes sociais. Do ponto de vista da cultura, é um governo que exerce a censura, quer censurar direta ou indiretamente. Há filtros, pois roteiristas agora já não podem abordar certos temas. O mais perigoso neste momento é a autocensura. Não devemos cair nessa armadilha.”

O terceiro volume de O lugar sombrio está quase pronto. “Nele, há um outro deslocamento, pois é mais ambientado na França. É a história de uma amiga franco-brasileira de Martim, que já aparece no segundo volume. O Brasil sempre volta na fala dela, em suas lembranças. É mais a história dela, que conta uma outra história, que também é de amor. Uma espécie de amor inimigo.”
Companhia das Letras/reprodução
(foto: Companhia das Letras/reprodução)

PONTOS DE FUGA
• De Milton Hatoum
• Companhia das Letras
• 310 páginas
• R$ 49,90
• Lançamento nesta segunda-feira (2), às 19h30. Projeto Sempre um Papo. Sala Juvenal Dias do Palácio das Artes – Av. Afonso Pena, 1.537, Centro. Entrada franca. Informações: (31) 3261-1501.

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