Patrícia Melo lança em BH 'Mulheres empilhadas', sobre feminicídio

Obra tem protagonista advogada cujo pai matou a mãe. Trama transcorre no Acre e inclui tribo de mulheres que se vingam por si mesmas. Autora participa do Sempre um Papo nesta quinta (7)

Ana Clara Brant 06/11/2019 06:00
Kyrhian Balmelli/Divulgação
(foto: Kyrhian Balmelli/Divulgação)
 Empilhar é o ato de amontoar ou ajuntar coisas. A pilha, por si só, é algo desvalorizado. Durante o processo de pesquisa e produção de seu livro mais recente, que tem como eixo central o feminicídio, a escritora paulista Patrícia Melo, uma das autoras mais premiadas da literatura contemporânea brasileira, ficou impressionada em como praticamente todas as histórias eram similares.
 
“Parece que a gente está lendo o mesmo caso o tempo todo. Começa em casa e sempre está ligado a alguém em quem você confia ou confiou em determinado momento. A relação começa a ficar violenta, inicialmente verbalmente e, depois, fisicamente, até que, de repente, a mulher é morta. E é uma história atrás da outra, um volume tão grande de vítimas. Por isso veio a imagem da pilha de cadáveres na minha cabeça. A matança é grande, parece uma epidemia”, afirma.
Daí nasceu o título Mulheres empilhadas (Editora Leya), que Patrícia Melo lança nesta semana no Brasil (a escritora vive na Suíça, ao lado do marido, o maestro John Neschling). Nesta quinta-feira (7), ela autografa o livro e comenta o tema com o público no projeto Sempre um Papo, no Palácio das Artes, em Belo Horizonte.
 
Envolvente e bem-escrito, o livro é o primeiro da autora com protagonismo feminino. Ela conta que achava importante falar de um assunto tão duro e assustador, mas também urgente. “É algo que temos que falar. No Brasil, matam-se 11 mulheres por dia. São números que assombram, que nos incomodam, nos intimidam. É uma estatística inaceitável. Dentro desta sociedade violenta em que vivemos, o feminicídio é a ponta do iceberg. Mas,  quanto mais a gente debater isso com profundidade, mais vamos tentar encontrar um mecanismo para erradicá-lo”, diz.
 
Por abordar uma triste realidade, Patrícia quis mesclar a trama com um pouco de fábula. Mulheres empilhadas é uma ficção que pincela casos reais. No enredo, uma jovem advogada paulistana, tentando fazer as pazes com seu próprio passado, larga tudo e vai ao Acre acompanhar um mutirão de julgamentos de casos de mulheres assassinadas, na maioria das vezes, por homens conhecidos seus – pais, tios, avôs, maridos, namorados, ex-maridos. Enquanto vê passar diante dos seus olhos os mais diversos casos de violência contra a mulher, a protagonista descobre um país onde a impunidade se impõe quase como uma lei.

FLORESTA

A opção pelo Acre como cenário da trama se deve não só ao fato de ser o estado com o maior índice de feminicídios do país, mas também por estar imerso na floresta. “Li uma matéria de jornal sobre esses mutirões de feminicídio não resolvidos e vi que o Acre estava tendo o melhor desempenho, apesar de ter esses números alarmantes. E, como eu ainda desejava trazer algo mais fantasioso, onírico, para dar uma quebrada na dureza da realidade, queria que a história se passasse na floresta”, explica.
 
A obra se divide em três partes. O índice numérico (de 1 a 11) apresenta casos reais retirados das páginas dos jornais; o índice alfabético (de A a Z) traz a trama central com a advogada e seus dilemas e descobertas, enquanto o índice de alfabeto grego (de alfa a etá) se dedica aos encontros da protagonista com as icamiabas, tribo de guerreiras amazônicas. Junto delas, acaba formando uma sociedade de mulheres que perseguem, julgam e matam os criminosos que escapam da Justiça na vida real.
 
“Através desse rituais de bebidas alucinógenas, a personagem principal acaba mergulhando na sua própria história e descobre questões que estavam bem escondidas ou de que não se lembrava mais, como os detalhes do assassinato da própria mãe pelo pai, quando ela era criança. Ela tem uma trajetória marcada pelo silêncio – dela mesma e da família. Aliás, o silêncio é a linguagem desse mundo de violência. Tem um dito suriname de que gosto muito que afirma: 'A floresta tem respostas para perguntas que a gente nem sabe fazer ou nem fez ainda'”, comenta Patrícia.
 
A advogada, aliás, é a única do livro que não tem nome, uma forma escolhida pela autora para que a personagem represente todas as mulheres. “Você olha o perfil das vítimas e tem de tudo – negras, brancas, magras, gordas, ricas, pobres. O feminicídio é democrático. E também quis que o leitor se colocasse no lugar da protagonista. Por isso a ideia de não nominá-la”, pontua.
 
Patrícia Melo não chegou a ir pessoalmente ao Acre. Sua pesquisa foi toda feita pela internet, em livros e  entrevistas com pessoas ligadas ao tema. Mas ela contou com uma colaboração especial, da amiga e jornalista Emily Sasson Cohen, que foi seus olhos e seus ouvidos na floresta. Quando Emily retornou do Acre, a autora já estava redigindo os capítulos finais. “Pesquisei muito, inclusive imagens de rua, da floresta, da cidade de Cruzeiro do Sul, onde se passa a história, para poder descrever aquele lugar. A grande parte do Acre que está ali nas páginas é sob o meu ponto de vista. Isso é literatura. Transportar e transcender o leitor para um outro local”, afirma.
 
Reprodução
(foto: Reprodução)
 
 
Mulheres empilhadas
Patrícia Melo
LeYa Brasil (240 págs.)
R$ 39,90
A autora participa do Sempre um Papo nesta quinta (7), às 19h30, na Sala Juvenal Dias do Palácio das Artes – Avenida Afonso Pena 1.537, Centro. 
(31) 3261-1501.