Quatro novos livros têm o nazismo como tema

Eles destacam os efeitos nocivos para a humanidade das ideias nazistas, como intolerância e o ódio

Nahima Maciel 04/11/2019 08:51
 Kleber Sales/CB/D.A Press
(foto: Kleber Sales/CB/D.A Press)
Ao final de O desaparecimento de Josef Mengele, o escritor francês Olivier Guez adverte: “A cada duas ou três gerações, quando a memória se estiola e as últimas testemunhas dos massacres anteriores morrem, a razão se retrai e homens voltam a propagar o mal.” Ganhador do prêmio Renaudot, um dos três mais importantes da França, pelo livro que investiga a fuga do médico nazista Josef Mengele para a América do Sul, Guez ainda lembra que o homem “é uma criatura maleável” e que é prudente, sempre, desconfiar da humanidade.

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Dronfield: "Me assusta muito ver que a extrema direita está ascendendo novamente no mundo" (foto: Twitter/Reprodução)
O mesmo alerta faz o autor britânico Jeremy Dronfield, autor do recém-lançado O garoto que seguiu o pai para Auschwitz. “Assusta-me muito ver que a extrema direita está ascendendo novamente no mundo. O humor é o mesmo, o ódio e a intolerância são os mesmos, a retórica da extrema direita hoje é idêntica àquela dos anos 1930. Os Estados Unidos já estão providenciando campos de concentração para imigrantes”, diz Dronfield, historiador, arqueólogo e especialista em nazismo.
 Escrito a partir do diário de Gustav Kleinmann, O garoto que seguiu o pai para Auschwitz narra a história do estofador judeu Gustav e seu filho, Fritz, durante a invasão nazista da Áustria e a deportação para dois campos de concentração. O país resiste a Adolf Hitler quando o livro começa, mas o cenário improvável de aceitar a invasão estrangeira e bater continência para o invasor acaba por tomar a sociedade austríaca, que aceita, sem muita resistência, a perda da soberania. A consequente perseguição dos judeus atinge a família Kleinmann, formada por trabalhadores que acreditavam ser, antes de tudo, austríacos.

Quando se dá conta do perigo da perseguição nazista, a mãe consegue mandar dois filhos para o exterior, mas boa parte da família acaba vítima do horror cotidiano imposto pela extrema direita alemã, sob o comando de Adolf Hitler. Fritz e Gustav foram capturados pelos nazistas logo no início da guerra, em 1939. Durante os seis anos que durou o conflito, Fritz concentrou todos os esforços em nunca se separar do pai. Quando soube que ele seria transferido de Buchenwald para Auschwitz, implorou por um lugar no trem da morte para não deixar Gustav sozinho.
O relato de Dronfield foi baseado no diário escrito por Gustav, um texto denso e cheio de códigos para proteger as pessoas citadas. “O diário é um material difícil. Gustav o escreveu como uma maneira de preservar a própria sanidade, não com a intenção de que fosse lido. No entanto, é escrito de maneira bem esquemática, com muitas referências criptografadas sobre pessoas, incidentes e situações”, conta o pesquisador. “Quando entendi a força incrível da decisão de Fritz de ir voluntariamente com o pai para Auschwitz, percebi que era uma história que precisava ser contada para uma audiência mais vasta e de uma maneira acessível para todos.”

Compreender como o nazismo se instalou e como uma sociedade inteira endossou um discurso de ódio a uma camada da sociedade, a ponto de aprovar sua exterminação, Dronfield acredita, é muito útil para evitar os perigos que batem à porta do século 21. “O mundo precisa, urgentemente, aprender que o Holocausto não foi um evento único e que algo como isso pode acontecer novamente. E nós já estamos nesse caminho”, garante.

Dronfield lembra que Dachau, o primeiro campo de concentração, foi criado em 1933 em uma fábrica desativada perto de Munique. Foi usado, no início, para encarcerar pessoas vistas como uma ameaça ao estado nazista — principalmente socialistas, comunistas, sindicalistas e outros oponentes políticos de Hitler. Alguns eram judeus, mas nem todos. Em 1937, os nazistas começaram a prender os judeus em larga escala simplesmente por causa de suas origens étnicas e religiosas. “Quando o próximo holocausto começar — se o permitirmos — vai começar da mesma forma, com o encarceramento de pessoas vistas como ameaças imediatas”, aponta o escritor.

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Olivier Guez: homem "é uma criatura maleável" e que é prudente, sempre, desconfiar da humanidade (foto: Jf Paga/Grasset)
Para Olivier Guez, os eventos que levaram ao nazismo e ao genocídio se tornaram uma obsessão, assim como a reorganização da sociedade no pós-guerra. A Alemanha demorou para engatar numa política de desnazificação e, mesmo assim, o escritor e jornalista acredita que isso nunca foi realmente efetivo. Em O desaparecimento de Josef Mengele, ele conta que uma das coisas que dificultou a prisão do médico responsável por implantar embriões de cavalos em mulheres e matar bebês de fome, para ver quanto tempo um recém-nascido consegue sobreviver sem comida, foi o fato de muitos nazistas terem sido reincorporados à sociedade no pós-guerra.

A rede de proteção a Mengele foi tamanha, em termos políticos e financeiros, que ele conseguiu escapar dos tribunais internacionais. O assassino nazista morreu afogado em Bertioga, em São Paulo, depois de ser recebido, com muita simpatia, pelo governo de Juan Domingo Perón, na Argentina, e de Alfredo Stroessner, no Paraguai.

A humanidade pode normalizar e incorporar horrores como os realizados por Mengele com uma facilidade que assusta o autor. “Ela não só pode, como o faz”, repara Guez. “Se a Alemanha houvesse realmente tido a vontade de levar adiante uma desnazificação, o Estado alemão teria sido desmontado. Oitenta por cento dos alemães colaboraram de maneira direta ou indireta com o regime. A perversão desse tipo de regime, de uma maneira ou de outra, salpica em todo mundo, todo mundo participa, dos operários aos os industriais.

A desnazificação era impossível, se ela tivesse acontecido não teria mais Estado alemão. Então sim, a humanidade faz isso e foi assim na Europa inteira. As cabeças que mais incomodavam foram cortadas, outras se exilaram. E isso é válido para os vichizistas na França, os fascistas na Itália a para outros países que os acolheram, como a Argentina, o Brasil e os Estados Unidos.”

Outros lançamentos

Dois outros títulos que tratam do nazismo chegam às prateleiras, sendo um romance e um ensaio. Em Tornando-se Hitler — A construção de um nazista, o historiador alemão Thomas Weber procura compreender as razões que levaram à radicalização de Adolf Hitler quando ainda era soldado. Na introdução, o autor descreve o cenário social alemão à época em que o ditador serviu ao exército e surpreende ao narrar situações muito parecidas com os cenários de radicalização à direita do mundo contemporâneo.

Hitler, segundo o autor, não era admirado entre seus pares militares e nunca atingiu altas patentes nem grandes feitos militares. Era, resumindo, uma figura militarmente e politicamente inexpressiva. Entre o rol de ideias radicais que carregava estavam a oposição ao socialismo e às sociedades multiétnicas. Além disso, exibia pouco talento para a articulação política. “A categórica indisposição e a incapacidade de Hitler para as concessões não se expressavam apenas em seu comportamento pessoal, mas também se tornaram um mantra de seus discursos”, escreve Weber, em uma análise que encontra eco na descrição de figuras políticas em ascensão dos dias de hoje. “Assim, na arena política, ele só poderia funcionar como líder de um grupo sectário funcionando fora do processo político constitucional ou como um ditador dentro de uma estrutura formal”, continua.

A intérprete é uma ficção sobre uma tradutora convocada para trabalhar no julgamento de crimes de guerra na Alemanha do pós-guerra. Eva era criança quando o conflito devastou a Europa. Tem apenas lembranças confusas, mas quando aceita o trabalho como tradutora, passa a ter contato com relato das vítimas dos campos de concentração, narrativas que, para muitos, até então, eram descritas como fantasiosas.

Aos poucos, a moça se depara com o que realmente aconteceu durante o Holocausto e descobre que a oposição de sua família ao envolvimento no julgamento tem uma razão sórdida. No livro de Hess, a incredulidade diante do massacre promovido pelo nazismo também encontra eco no mundo contemporâneo. Muitos acreditavam que o Hitler não chegaria ao ponto de massacrar os judeus. E muitos, embalados pelo discurso, acreditaram, aos poucos, que o líder do Terceiro Reich podia até ter certa razão. Como alerta Olivier Guez, o homem é, de fato, uma criatura maleável.

O garoto que seguiu o pai para Auschwitz – Uma história real
De Jeremy Dronfield. Tradução: Cássio de Arantes Leite. Objetiva, 354 páginas. R$ 59,90

Olivier Guez
O desaparecimento de Josef Mengele De Olivier Guez. Tradução: André Telles. Intrínseca, 224 páginas. R$ 39,90
 
A intérprete
De Annette Hess. tradução: Ivo Korytowski. Arqueiro, 270 páginas. R$ 44,90 
 
Tornando-se Hitler — A construção de um nazista
De Thomas Weber. Tradução: Heloísa Cardoso Mourão. Record, 474 páginas. R$ 59