Edney Silvestre vem a BH lançar seu novo romance

Escritor e jornalista participa do 'Sempre um papo' sobre 'O último dia da inocência' Livro, no qual a trama se passa nas 24 horas do dia do histórico comício na Central do Brasil em 1964, dialoga com o Brasil atual

por José Almeida Júnior* 30/09/2019 04:00
Bárbara Lopes/ Globo
Escritor e jornalista Edney Silvestre vem a BH lançar seu novo romance histórico-policial (foto: Bárbara Lopes/ Globo)

O romance histórico-policial marcou a estreia do escritor e jornalista Edney Silvestre com Se eu fechar os olhos agora, vencedor dos prêmios Jabuti e São Paulo de Literatura, e recentemente adaptado para minissérie na TV Globo. Edney retoma ao gênero em O último dia da inocência. Passado inteiramente em 13 de março de 1964, dia do comício de João Goulart na Central do Brasil, o romance conduz o leitor num thriller que se mistura com o turbilhão político dos momentos que antecederam o golpe de 1964.

Um jovem repórter – não nominado no romance – visita o Instituto Médico-Legal para escrever a sua primeira matéria no jornal. Os outros foram designados para cobrir o comício de Jango na Central do Brasil. Amarantes, repórter fotográfico experiente, ajuda o foca – termo usado para os jornalistas iniciantes – a encontrar uma história que não caísse de pauta, num dia repleto de notícias. No meio de cadáveres de negros e prostitutas, o repórter encontra um homem comprido, loiro e de olhos azuis na gaveta 41. Seria o caso ideal para a primeira matéria do foca.

O repórter consegue localizar a mãe do falecido, que diz não ter contato com o filho desde que ele se envolveu com uma girl de shows em boates. Após tomar um suco de manga, ele passa mal e desmaia. Momentos depois, acorda nu e molhado num apartamento em Copacabana. Desesperado para sair, depara com uma mulher degolada sobre um tapete branco empapado de sangue. A partir de então, o jovem repórter se vê envolvido numa trama envolvendo homicídios e conspirações políticas.

Dosar a medida de ficção e história é a grande dificuldade para quem escreve romances históricos. O didatismo enfraquece o texto literário, mas a falta de informações históricas pode deixar o leitor perdido. O desafio é fazer com que o romance se sustente como obra de ficção, independentemente do conhecimento prévio do período.
Rubem Fonseca acertou a dose com o seu Agosto, romance histórico-policial que mostra os últimos dias de Getúlio Vargas antes do suicídio, em agosto de 1954. Mais recentemente, Eliana Alves Cruz conseguiu apresentar os horrores da escravidão no século 19, no ponto de vista de uma mulher escravizada, com o seu O crime do cais do Valongo.

O último dia da inocência também é bem-sucedido na sua proposta. O romance envolve o leitor numa trama policial bem-urdida. Ao mesmo tempo, é capaz de transmitir, sem excesso de informações, o clima de polarização política a poucos dias do golpe de 1964. Em meio à narrativa dos personagens, o autor insere trechos do discurso de João Goulart, até que ficção e história se encontram no comício da Central do Brasil.

O evento convocado por sindicatos, partidos de esquerda e movimentos populares representava a última esperança para Jango se manter na Presidência da República. A cúpula do PSD – partido com maior bancada na Câmara dos Deputados – tinha acabado de romper com o governo. Militares conspiravam para derrubar o presidente. As marchas da família com Deus pela liberdade eram convocadas pelos setores mais conservadores da sociedade. O Brasil era um caldeirão na iminência de uma guerra civil.

A literatura brasileira tem uma vasta produção de romances que se passam na ditadura militar. Muitos foram escritos a quente, durante os anos de chumbo, como As meninas, de Lygia Fagundes Teles; e Zero, de Ignácio de Loyola Brandão. Outros foram escritos em datas mais recentes, como forma de resgatar a memória do período de opressão, como K., de Bernardo Kucinski; e Ainda estou aqui, de Marcelo Rubens Paiva. No entanto, há poucos romances que representam os momentos que antecederam o golpe de 1964.

O golpe civil-militar foi gestado alguns anos antes. Começou com a tentativa frustrada de impedir a posse de Jango, após a renúncia de Jânio Quadros, em 1961. Passou por interferências externas com o financiamento de campanhas políticas e ideológicas pelos institutos IBAD e IPES. Até encontrar as condições ideais com a radicalização do comício da Central do Brasil.

O último dia da inocência dialoga com o Brasil atual, na medida em que mostra os perigos de se transigir com valores democráticos. A intolerância, o desrespeito ao Estado laico e a radicalização dos agentes políticos e da sociedade corroeram a democracia brasileira nos idos de março de 1964 e mergulharam o país numa ditadura pelos 21 anos seguintes. 

*Escritor, defensor público e autor de O homem que odiava Machado de Assis (Faro) e Última hora (Record)

O ÚLTIMO DIA DA INOCÊNCIA
Edney Silvestre
Editora Record 
196 páginas 
R$ 39,90 

Sempre um Papo
com Edney Silvestre. Nesta segunda-feira (30), às 19h30, na Sala Juvenal Dias do Palácio das Artes (Avenida Afonso Pena 1.537, Centro). Entrada franca. Informações: (31) 3261-1501 ou www.sempreumpapo.com.br.

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