Pianista João Carlos Martins conta em livro sua vida, que já virou filme

Aos 79 anos e 'interessado em deixar um legado', o maestro fala sobre sua trajetória de sucesso, as múltiplas enfermidades e a superação em 'João de A a Z'

por Gustavo Werneck 15/09/2019 04:00
Renato Parada/divulgação
Apaixonado pelo piano, João Carlos Martins fez a sala de seu apartamento nos Jardins, em São Paulo, com a forma do instrumento (foto: Renato Parada/divulgação)
São Paulo (SP) – Foi numa excursão turística às cidades coloniais de Minas, aos 15 anos, que o paulista João Carlos aprendeu uma lição importante para nortear a vida pessoal, pavimentar os caminhos pelo mundo e, principalmente, conhecer os meandros profissionais.
 
Um dia após as simpáticas apresentações do grupo, o adolescente começou a perceber momentos de tensão, comentários deselegantes, enfim, picuinhas entre os viajantes do ônibus. E, assim, viu que conviver não é fácil, “pois cada pessoa tem hábitos e manias”.

Décadas se passaram e, hoje, o maestro João Carlos Martins, de 79, se recorda da experiência para dizer que uma orquestra só funciona quando todos se respeitam. O episódio foi de tanta valia que ele decidiu incluí-lo no livro autobiográfico João de A a Z (Editora Sextante), no qual conta, por meio das 23 letras do alfabeto, a trajetória musical bem-sucedida, os períodos trágicos que levaram à perda do movimento das mãos e a superação proporcionada por seu amor à arte.

Na tarde da última terça-feira (10), em seu amplo apartamento na região dos Jardins, área nobre da capital paulista, João Carlos Martins abriu o livro da vida e as páginas do coração para falar de infância, juventude, maturidade e do trabalho à frente da Orquestra Bachiana Filarmônica Sesi-SP, fundada por ele em 2004, e do projeto social Orquestrando o Brasil.
 
De tanto amor pelo piano, que chegou aos seus dedos aos 7 anos de idade, o artista de reconhecimento internacional pediu ao arquiteto para projetar a sala do apartamento na forma de piano de cauda. E, assim, sob o teto pintado de preto, emoldurado por paredes brancas, instalou o instrumento e objetos que ajudam a contar parte de sua história. Numa mesinha de canto, como testemunha de tantos anos, fica o porta-retrato com a foto apenas das mãos do regente.

A de Amor, B de Bach, C de Concerto e por aí vai, até chegar ao Z de Zênite, que, conforme a astronomia, é o lugar mais alto da abóboda celeste, o cume de uma linha imaginária estabelecida por quem observa o céu. “O zênite é onde sinto que me situo – o ponto mais alto da minha trajetória.”
 
Na ativa e realizando mais de 200 concertos por ano, João Carlos conta que o processo de escrita do livro não fluiu, nos primeiros meses, como uma sinfonia. “Sou perfeccionista. Minha intenção não era fazer um guia de autoajuda, mas de compartilhamento, uma palavra, aliás, de que gosto muito. Em resumo, trata-se um almanaque, outra beleza que começa com alma. Meu coração está dentro do livro.”

Para chegar à forma final da obra, e certo de que não havia uma “fórmula mágica” para fazê-lo nascer, o homem aplaudido nos grandes teatros do mundo começou a escrever de próprio punho. Se a mão doía, a determinação o levava adiante. “Foram 15 dias”, contabiliza a duração dos primeiros escritos.
 
Pensou em ditar o que ia à cabeça para que a mulher, Carmen, digitasse no computador: “Não deu certo, não tinha minha voz vindo lá do fundo.” Com a ajuda do editor da Sextante Pascoal Soto, que assina o prefácio, João Carlos Martins encontrou o caminho. E ao projeto se juntou o jornalista Vicente Vilardaga.

Soto registrou no prefácio: “João passou quase um ano a escrever esta obra tão especial. Ao longo daquele período, Vilardaga foi os dedos que o maestro já não podia utilizar para escrever nem tocar nem reger. E foi além, pois ajudou-nos a estruturar este dicionário da alma de um dos maiores artistas brasileiros de todos os tempos”. Para facilitar o trabalho do autor, acrescenta o editor, o jornalista fez as perguntas certas e precisas.

A sala ensolarada tem agora a presença de Carmen, que chega acompanhada da ajudante e traz uma bandeja com dois bolos, um recheado com coco, e uma cesta de pães de queijo. “Servir pão de queijo a mineiro, em São Paulo, pode ser demais, né?”, brinca a mulher com quem o pianista está casado há 22 anos e que, prontamente, mostra um caderno com os primeiros manuscritos para o livro. Enquanto saboreia a fatia, o maestro fala dos problemas com as mãos que o levaram da glória à dor, do sofrimento extremo à superação.

Na letra S de Saúde, o maestro escreveu: “Nenhuma medicina no mundo foi capaz de me livrar definitivamente da dor. Aqui vou contar um segredo: já fiz 24 operações e confesso que gosto da anestesia”. Mais adiante, complementa: “Problemas de saúde atormentaram minha vida – fora a distonia, a lesão por esforço repetitivo (LER) e a lesão cerebral que afetaram as mãos por causa da queda num jogo com a Portuguesa e um assalto. Por incrível que pareça, sofri vários acidentes e eles sempre me atingiram onde eu era mais sensível: as mãos”.

No segundo caso, João Carlos Martins se refere ao dia 20 de maio de 1995, quando foi assaltado em Sófia, na Bulgária, onde concluía uma gravação da obra de Bach. “Quando saía do estúdio, já de madrugada e ia em direção ao hotel, dois indivíduos me abordaram, querendo me assaltar. Levei um golpe com uma barra de ferro na cabeça e acabei ficando com uma lesão cerebral que afetou o lado direito do meu corpo, especialmente a mão. Fora todos os outros problemas que eu tinha, como a lesão no nervo ulnar, distonia e LER, passei também a ter dificuldade no comando da mão”.

Há 16 anos, quando estava com 64, o pianista saiu de cena para dar lugar ao regente. “A função de maestro virou a dominante. Descobri que a regência me sacia musicalmente e realiza a minha necessidade de palco. Se houvesse um índice de satisfação com o trabalho, o meu seria 10.” Bom de conversa e bem-humorado, o maestro diz acreditar que recebeu um “dom divino”, embora ciente de que obstinação e determinação fazem parte da sua jornada.

Num momento especial, ele se levanta do sofá, acomoda-se ao piano e toca, com os dois polegares, uma música norte-americana chamada Thank you (Obrigado). Nem precisa dizer que, junto do sol que entra pela janela, a emoção domina o ambiente.

Na sequência, João Carlos Martins convida o repórter para ir a outra sala e apresenta um documentário com alguns momentos marcantes da vida: filmagem das apresentações em palcos dos Estados Unidos, recortes de jornais da Alemanha e de outros países e cenas do filme João, o maestro, dirigido por Mauro Lima.
 
Diante da TV, não move um músculo. Mas é impressionante e fascinante vê-lo ao vivo e na tela, assistindo a momentos de empolgação das plateias ou solitário, como no instante em que se machuca numa partida de futebol – uma de suas grandes paixões –, no Central Park, em Nova York (EUA).

Olhando para o maestro, dá para sentir que ele é daquele tipo que enverga, mas não quebra. E jamais se curva às adversidades. Declarando-se sentimental, que chora à toa, cita a tragédia ocorrida em Brumadinho, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, em 25 de janeiro deste ano e a atuação dos bombeiros.
 
Os olhos brilham ao lembrar que o Concerto da Gratidão, que ele realizou em Brumadinho no mês passado, serviu também para homenagear a instituição militar que completava 108 anos. Com entusiasmo, João Carlos Martins diz que voltará a Minas no início de outubro para um concerto-palestra.

Se alguém pedir para o paulista de 79 anos dividir sua trajetória profissional, ele vai responder: pianista, regente e, agora, um homem interessado em deixar um legado. Além da Orquestra Bachiana Filarmônica Sesi-SP, seus olhos se voltam para o projeto Orquestrando o Brasil, que já reúne quase 500 orquestras parceiras país afora.
 
“Temos descoberto muitos talentos. Recentemente, tivemos aqui em São Paulo os jovens da Paraíba e foi bárbaro”, afirma. Na despedida, vem a pergunta inevitável: E qual dessas palavras, de A a Z, o senhor destacaria? Sem titubear, responde: “Esperança”. Por quê?, indaga o repórter. “Sou feliz. É a esperança que não nos deixa parar de sonhar.”

* O repórter viajou a convite da editora Sextante

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TRECHOS

“Os últimos tempos têm sido desafiadores e estimulantes, pois a pior coisa que aconteceu na minha vida foi perder as mãos para o piano, e a melhor coisa que aconteceu na minha vida foi perder as mãos para o piano. Sobraram dois polegares, mas garanto que são dois polegares atrevidos. Sobraram também os olhos, os braços e o corpo para desenvolver a atividade de maestro do meu jeito, sempre procurando transmitir emoção através da música. Em outras palavras, vão-se as mãos, mas ficam os braços, o coração, os olhos, o cérebro, a fé” 

“Nasci nos trópicos, sou um artista do Brasil, trago um toque apaixonado e até transgressor para a sua obra (de Bach), mas absolutamente respeitoso. Rendo-me incondicionalmente ao seu talento e à sua criação. Em alguns sonhos, acho que nasci para tocar suas músicas – gravei suas obras completas para teclado”

“Nosso país precisa voltar a ter esperanças em um futuro melhor. É triste imaginar que uma grande parte da população não consiga se apoiar nessa palavra mágica. Continuamos tendo tudo para nos desenvolver. Basta pôr a mão na massa. Não podemos nos amedrontar diante da primeira dificuldade. Devemos funcionar como uma orquestra”


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