Repórter fotográfico do EM lança livro inspirado na obra de Guimarães Rosa

'Ser tão gerais', de Alexandre Guzanshe, será lançado nesta segunda-feira, às 19h, no Museu Mineiro, em BH

por Gustavo Werneck 19/08/2019 08:00
ALEXANDRE GUZANSHE
(foto: ALEXANDRE GUZANSHE)

Sertão gerais ou Ser tão gerais – eis a questão, quando a alma mineira fala sobre os vastos interiores e a mente fica na dúvida se tudo isso é apenas geografia ou um estado de espírito. Conhecedor dos cerrados, com olhar atento e jornalístico sobre paisagens, habitantes, fauna e flora, o repórter fotográfico Alexandre Guzanshe, de 43 anos, tem intimidade suficiente para dar sua versão e resposta: “O sertão está dentro de nós, como escreveu Guimarães Rosa (1908-1967) no antológico Grande Sertão: veredas”. Sempre encantado com a obra de seu autor preferido, Guzanshe lança nesta segunda-feira (19), às 19h, no Museu Mineiro, em Belo Horizonte, o livro de fotografias Ser Tão gerais, que remete aos grotões e confins percorridos por Riobaldo e Diadorim. A data escolhida não poderia ser mais apropriada, pois 19 de agosto é o Dia Internacional da Fotografia.

Com mais de 100 fotos das suas andanças pelos cerradões mineiros, todas com identificação dos lugares, o livro teve como razão de existir a obra de Rosa, cujo legado literário sempre motivou Alexandre Guzanshe. “Comecei a pensar nesse trabalho há sete anos, no momento de imersão no universo roseano, em 'travessias' que incluem meu trabalho como fotógrafo do Estado de Minas, passeios ou simples passagem em direção a outras paragens.”

Foi assim, portanto, que o repórter fotográfico esteve na Barra do Rio de Janeiro, no município de Três Marias, onde ocorreu o primeiro encontro do jagunço Riobaldo com Diadorim; o Rio do Sono, com seu Paredão e cenário da batalha final de Grande sertão: veredas; a Fazenda Sirga, de onde Guimarães Rosa partiu da histórica viagem pelos sertões levando o gado; Andrequicé, Paracatu, Buritizeiro e outras. “Como 90% da saga dos jagunços se passa em Minas, preferi ficar por aqui mesmo, chegando no máximo até as divisas com os estados de Goiás e Bahia”, explica.

As viagens deixaram marcas nas memórias, aguçaram os sentidos, deixaram a sensibilidade aflorada.“Em cada caminho, deixei que a terra entranhasse em meu sangue, entrasse pelos poros. E, para esquentar o clima, nadei no Rio Urucuia, provei das comidas típicas, dormi ao relento, conversei muito com as pessoas, senti a poeira no rosto, enfim, mergulhei na cartografia roseana”, diz Guzanshe, que, pelo EM, foi o fotógrafo do caderno especial Travessia, em 2016, comemorativo dos 60 anos de publicação da obra-prima de Rosa e ganhador do Prêmio Petrobras de Jornalismo. No ano anterior, atuou em Sertão S/A, sobre a viagem do médico e escritor partindo de Cordisburgo. “A história dessa expedição sempre povoou meu imaginário e, de certa forma, foi o motor desse meu livro.”

ALEXANDRE GUZANSHE
(foto: ALEXANDRE GUZANSHE)
TRAVESSIAS
O caderno Travessia, acompanhado por um documentário disponível na internet e já apresentado na tevê, nunca abandonou as emoções de Guzanshe. “Sempre choro quando o vejo”, confessa. Outra expedição importante para a obra foi acompanhar a caminhada de dezenas de voluntários sertão adentro, tendo como guia as linhas, frases e sentimentos do livro de Rosa.

Quando o leitor abrir o livro, o primeiro de Guzanshe, vai sentir o cheiro da terra, fazer parte dessas trilhas mineiras e se imaginar em outros tempos – e nesses novos dias também. “Não se trata apenas de um livro de fotografias. Há uma narrativa, uma história, uma construção. A primeira foto tem uma legenda autoexplicativa – ‘O sertão começa aqui’ –, que estava escrita num armazém. E há outra bem emblemática:’Todo mundo corre perigo’”. Para trazer o sertão mais para perto do leitor, o fotógrafo coletou pequenas porções de terra nas cores branco, amarelo, roxo e vermelho, e, por “sugestão e criação” da mulher, Bia Mom, foi feita uma pintura artesanal. Assim, na sobrecapa, o título está impresso com esses pigmentos, destaca o autor, lembrando que o livro também já foi lançado em 8 de julho, na abertura da 31ª Semana Roseana, em Cordisburgo, na Região Central.

AMOR TOTAL Mais do que uma saga pelos sertões, o livro de Guimarães Rosa é uma história de amor. “Amor pela terra, pelas pessoas, pela vida e, principalmente, pelas palavras. Assim, procurei me inspirar, me nortear e apontar minhas lentes na busca dessa essência. Ficarei feliz se o leitor me acompanhar nessa minha travessia”, afirma Guzanshe. O livro tem dois textos, que ajudam a compreensão do universo roseano: um escrito por Matuturana, “um filósofo do sertão”, e outro por Flávio Valle, professor e pesquisador da Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop).

Com a palavra, o autor:
‘Ser Tão é dentro da gente’

 “Venho mergulhando no universo literário de João Guimarães Rosa há alguns anos. A inspiração vem de sua maior obra, Grande sertão: veredas. O ensaio fotográfico foi realizado entre 2012 e 2018, nas muitas viagens que fiz ao sertão mineiro. A ideia do livro começou a tomar forma no meio do processo, no meio dessa minha 'travessia'. Os registros foram feitos com câmeras de celular, diversos modelos, diferentes aplicativos e inúmeros filtros. Sempre documentando o povo encantador, a luz maravilhosa e os lugares inesquecíveis. São grandes distâncias, muitas vezes difíceis de ser alcançadas. Mas o Ser Tão é o sem lugar. O Ser Tão é dentro da gente.”
 

Ser Tão gerais
de Alexandre Guzanshe
Editora: A Mascote 
Preço no lançamento: R$ 80
Páginas: 164
Lançamento nesta segunda-feira (19), 
às 19h, no Museu Mineiro (Avenida João Pinheiro, 342, Lourdes)

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