Jornalista conta em livro trajetória do Secos & Molhados

Miguel De Almeida reconstitui os dois anos em que o grupo teve um êxito estrondoso e se dissolveu no auge

por Mariana Peixoto 09/07/2019 08:00
FERNANDO SEIXAS/O CRUZEIRO/ARQUIVO EM
(foto: FERNANDO SEIXAS/O CRUZEIRO/ARQUIVO EM)

O paulistano Miguel De Almeida tinha 14 anos em 1973, quando se atreveu a ir ao Teatro Itália, sozinho, já que nenhum amigo topou quis acompanhá-lo. Assistiu, no inverno daquele ano, a um show da curta temporada que os Secos & Molhados faziam no teatro para 300 lugares. “Nem sei como meus pais me deixaram ir, tampouco como consegui entrar, já que era menor de idade”, comenta o jornalista, hoje com 61. O impacto foi deveras brutal.

“Estávamos acostumados a assistir música num cantinho com um violão. Eles inventaram o teatro na música, nos ofereceram um espetáculo que ia além da música. Era uma viagem onírica aqueles personagens que entravam, não falavam nada, cantavam e tocavam e iam embora. Até então, o máximo que havia eram Gil, Caetano, os maravilhosos Mutantes. Eles se fantasiavam. Mas isto o Chacrinha também fazia. Para um moleque como eu, foi uma grande revelação ver aquele envolvimento dramático, quando um show foi para outro patamar.”
 
É a partir deste ponto que Miguel De Almeida dá início à Primavera nos dentes: a história do Secos & Molhados (Três Estrelas), que chega nesta semana às livrarias. Nas quase 400 páginas da obra (sendo 32 de imagens), ele conta uma história que marcou definitivamente a música brasileira e o comportamento do jovem que vivia à sombra da ditadura militar.
Mas que efetivamente só durou dois anos. A formação clássica do grupo, com Ney Matogrosso, João Ricardo e Gérson Conrad, foi entre 1973 e 1974. Gerou dois álbuns, homônimos – o primeiro deles, o da icônica capa com as imagens das cabeças dos integrantes sob uma mesa.
 
“É fantástico como uma história desse tamanho só durou dois anos”, afirma Miguel. Impressionante também é que, passados 45 anos, ninguém havia se debruçado seriamente sobre a narrativa. “Acho que essa história nunca chegou a ser escrita por várias razões. Há, por parte da chamada elite da música brasileira, um silêncio sobre os Secos & Molhados”, diz o autor.
 
Grupo que uniu a poesia de Oswald de Andrade com a de Vinicius de Moraes, obteve um sucesso fenomenal com destaque à performance de Ney e interferiu no comportamento da sociedade daquele momento. “A Tropicália foi um fenômeno universitário. Na época (anos 1960), quem tinha impacto popular era Elis Regina e Jair Rodrigues.

CABELUDO Já o impacto do Secos & Molhados começa com as mulheres. Mas as donas de casa, a mulher comportada, e depois as crianças. Eles pegaram o seio da família brasileira no momento mais pesado da ditadura. Não podemos esquecer o contexto: a Guerrilha do Araguaia, uma repressão forte nas ruas, com cabeludo apanhando (por ser cabeludo).”
E a música de João Ricardo mais a androginia de Ney Matogrosso tomaram de assalto o país. O primeiro álbum do Secos & Molhados (com as canções Sangue latino, O vira, O patrão nosso de cada dia, Amor, Rosa de Hiroshima, Fala) vendeu 1 milhão de cópias – naquele 1973, o Brasil tinha uma população de 90 milhões de pessoas.
 
“A questão comportamental foi tangenciada pela grande elite. Os Secos & Molhados colocaram na mesa brasileira a questão do gênero. Não podemos nos esquecer de que, na época, a esquerda brasileira também era tradicional. A androginia não era um motivo de discussão”, afirma o autor. Primavera nos dentes registra com riqueza de detalhes o período da formação clássica da banda – sem Ney e Conrad, João Ricardo levaria adiante Secos & Molhados por alguns poucos anos, sem o sucesso anterior.
 
Para o livro, o autor conversou com jornalistas, músicos, produtores, além do trio central. Os três não se falam há muitos anos, mas, de acordo com Miguel De Almeida, todos o receberam de peito aberto para o livro. No próximo sábado (13), o autor e Ney Matogrosso dividirão na Festa Literária de Paraty (Flip) uma mesa sobre androginia, rock e censura.
 
“Os três foram muito gentis o tempo todo. Acho que o processo os ajudou a pensar a juventude deles. Pois, mesmo que o Ney tivesse 31 anos na época, os outros tinham 20 e poucos. Eram todos muito novos e fizeram sucesso num período muito curto, quando não havia estrutura. Todas as casas tinham um disco de Secos & Molhados. Você os ouvia no rádio o tempo inteiro”, diz Miguel, lembrando-se de que as gravadoras estrangeiras da época tentaram “dinamitar o grupo”, que era da Continental, uma gravadora brasileira. Em 1974, um show histórico no Maracanãzinho bateu todos os recordes de público – e deixou milhares de pessoas do lado de fora do ginásio carioca por falta de ingressos.
 
Sobre o fim abrupto do Secos & Molhados (Ney e Conrad deixaram o grupo e João Ricardo ficou sabendo da saída deles, em agosto de 1974, pelos jornais) Miguel se lembra de uma conversa que teve, durante a confecção do livro, com o produtor André Midani, morto no último dia 14. “Ele me disse que havia faltado uma espécie de Colonel Parker (que foi agente de Elvis Presley) para dizer que cada um deles parasse um mês, ficasse cada um em seu canto, namorasse. Eles faziam de dois a três shows por dia, corriam o Brasil para cima e para baixo, dormiam em carros. Ninguém aguenta isto. O sucesso os devorou”, avalia Miguel De Almeida.
 
Primavera nos dentes: 
a história do Secos & Molhados
Miguel De Almeida
Editora Três Estrelas (376 págs.)
R$ 69,90. 




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