Drama de pequenos imigrantes inspira o novo livro de Valeria Luiselli

Em Arquivo das crianças perdidas, a escritora leva seus personagens à fronteira dos EUA com o México para falar de solidão, complicidade e laços de família

24/06/2019 11:05

divulgação
(foto: divulgação)
Uma família prestes a se desintegrar entra no carro em Nova York para cruzar os Estados Unidos até o Arizona, na fronteira com o México. O trabalho do casal – registrar o som de todas as línguas faladas na cidade – chegou ao fim e ele decide investir em um projeto pessoal: estar onde os últimos povos livres em todo o continente americano viveram antes de se render e gravar os ecos de sua passagem por ali.


Ao lado do homem, sua mulher nos últimos quatro anos – a primeira narradora dessa história. No banco de trás, o filho dele, de 10 anos, e a filha dela, de 5. No porta-malas, sete caixas de arquivo: quatro do pai, já cheias; uma da mãe, com alguns materiais para a pesquisa que fará no caminho sobre os menores que tentam atravessar a fronteira do México para os Estados Unidos e desaparecem; e outra para cada criança, que ao longo da viagem decidirão como usá-las. No ar, o silêncio que cresce entre o casal, as histórias que os pais contam sobre apaches e crianças imigrantes, além do som dos meninos brincando.


Esse é, basicamente, o enredo de Arquivo das crianças perdidas, romance de Valeria Luiselli recém-lançado no Brasil. O livro tem sido visto como uma obra sobre imigração, mas, embora esse seja um assunto importante na ficção, e tema caro para a autora que nasceu no México, cresceu pelo mundo (o pai é diplomata) e vive em Nova York, Arquivo das crianças perdidas é uma história sensível e comovente sobre família, vínculo e cumplicidade, sobre estar junto e sozinho ao mesmo tempo, sobre querer estar só e sobre encontrar sentidono outro. E é, além de tudo, sobre encontrar a forma exata de contar uma história e registrá-la.


Valeria Luiselli, de 35 anos, tem pensado muito na narrativa como uma troca intergeracional de diferentes versões do mundo. “Queria escrever um romance tentando pensar como a próxima geração vai começar a articular esse tempo político muito difícil em que estamos entrando. E como ela, em oposição às gerações mais antigas, pode dar novos elementos às histórias para a geração seguinte e como essa geração vai recombinar e devolver essa história ao mundo”, diz.


O livro é aberto pela voz da mãe, mulher às voltas com dúvidas e dores. Uma das passagens mais delicadas, que demonstra essa preocupação da autora com a transmissão de uma história, é quando ela e o menino (ninguém tem nome) testemunham a partida do pequeno avião cheio de crianças capturadas na fronteira e seu desaparecimento no céu. O que ela faz é se certificar de que o menino saiba que não estava sozinho naquele momento desolador.


O menino, aliás, é o outro narrador da história. Seu relato, oral e visual, com a Polaroid que ganhou, foi a forma que encontrou de garantir que a irmã que lhe foi dada, e em breve partirá com a mãe, saiba tudo o que viram e viveram naquelas semanas na estrada e pelo deserto, e tudo o que ouviram sobre indígenas e outras crianças. Isso porque ele ouviu do pediatra que as crianças só passam a ter memórias a partir dos 6 anos. É comovente a preocupação do garoto com a fixação da história dos dois e o vínculo entre eles.


São todos personagens fortes. Exceto, provavelmente de propósito, o homem. E a autora sente falta deles. “Ainda estou de luto pelos personagens, especialmente as crianças. Realmente, vivi com essas pessoas nos cinco anos em que escrevi o livro. Sinto falta da companhia do menino e da menina. Foi um romance que dominou minha cabeça e minha alma por muito tempo”, conta.


Outra narrativa que permeia a obra é Elegia das crianças perdidas, livro escrito por Valeria para ser incluído no romance e creditado a uma autora fictícia – uma espécie de A cruzada das crianças –, que acompanha a família em sua jornada pelo país que vai se revelando deserto e mais hostil.
Arquivo das crianças perdidas não é sobre pequenos refugiados presos ao conseguir ultrapassar a fronteira, desaparecidos depois de chegar aos Estados Unidos ou mortos pelo caminho, mas essa questão está lá – bem como críticas às políticas migratórias dos Estados Unidos.
Há tensão política, que só não é maior porque a autora decidiu fazer uma pausa na escrita quando percebeu que sua frustração, raiva e revolta estavam entrando equivocadamente no romance. À época, ela traduzia a história de crianças em situação legal complicada e as ajudava a encontrar um advogado.


“Estava, ao mesmo tempo, bagunçando o romance e não tratando a questão como deveria. Parei e escrevi um ensaio, Tell me how it ends. Então pude voltar ao romance e pensar nele com mais liberdade. O romance é um gênero híbrido, com múltiplas camadas, que me permite pensar em coisas que não cabem na forma da não ficção de pensar esse tipo de assunto”, explica. “Pude dar um passo para trás e refletir sobre o valor da arte na hora de escrever sobre violência política. E nos meios com que podemos abordar questões políticas na ficção. Mas, sim, este é um livro sobre contar história, léxico familiar e conexões familiares. E sobre a nossa recusa e tentativa inconsciente de chegar ao outro por meio de uma história.” (Estadão Conteúdo)

 

 

 

CIDADÃ DO MUNDO

Valeria Luiselli (foto) escreveu Arquivo das crianças perdidas em inglês. Lançou Rostos na multidão (2012) em espanhol. Como os personagens de seu novo romance, cruzou fronteiras a vida inteira. Nasceu na Cidade do México, em 1983, mudou-se pequenina para os Estados Unidos. Filha de diplomata, morou na Coreia do Sul, Costa Rica, África do Sul e Índia. Estudou na Espanha, França e EUA. Atualmente, mora em Nova York, onde trabalhou voluntariamente como tradutora de pequenos imigrantes latino-americanos interrogados em tribunais. Há dois anos, lançou Tell me how it ends, sobre sua experiência com as crianças expatriadas. Em 2016, Valeria participou da Flip, em Paraty (RJ), onde lançou A história dos meus dentes, escrito com a ajuda de operários de uma fábrica de sucos mexicana.

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