Escritor diz que leveza da crônica é um 'ato político' neste Brasil polarizado

Para Antônio Prata, o futuro desse gênero literário está ligado à sobrevivência da imprensa

por Pedro Galvão 23/06/2019 10:00
Renato Parada/divulgação
(foto: Renato Parada/divulgação)


“A crônica é o gênero de entretenimento. Ela nasce no jornal para refrescar o leitor e quebrar a seriedade das notícias. A arte da crônica é ocupar aquele espaço com alguma coisa que agrade ao leitor.” Assim Antonio Prata resume o tema sobre o qual foi convidado a falar no 8º Fliaraxá, festival literário que será encerrado neste domingo (23), na estância hidromineral mineira. Apesar da objetividade do argumento, o próprio escritor esclarece: no contexto atual de muita tensão em torno do noticiário, pela natureza dos fatos e pelo comportamento de quem os consome, o ofício desempenhado por ele há duas décadas se torna um tanto mais complexo.



Filho de Mário Prata e Marta Góes, que também dedicaram a vida às letras, Antonio se faz presente na grande mídia há pelo menos 18 anos. Já publicou na revista Capricho, n’O Estado de São Paulo e na Folha de S. Paulo. Com 13 livros lançados, tornou-se referência para toda uma geração, que cresceu lendo suas crônicas.


Prata, de 41 anos, alegra-se ao imaginar que adolescentes que o liam na Capricho, há quase duas décadas, hoje são possíveis consumidoras, enquanto as fãs que se tornaram mães leem A menina que morava no chuveiro (Ubu Editora), destinado ao público infantil. Trata-se de uma espécie de conto que ele criou a partir da relação com os filhos Olivia, de 5, e Daniel, de 4.


“Era uma situação clássica aqui de casa, eles não quererem sair do banho. Certo dia, perguntei se iam morar no chuveiro e disseram que sim. Então, imaginei uma criança que morasse assim, recebesse visitas no box, aprendesse a escrever no vapor da água quente no vidro. Quando contei para eles, ficaram aterrorizados com a situação da personagem, pois ela nunca iria à casa da vovó, à festa junina... Então, reescrevi como se fosse o diálogo dos pais com a menina que não quer sair do banho.”

SÉRIE As incursões de Prata por outros estilos incluem textos para a TV. Como roteirista da Globo, colaborou em novelas e séries. Como autor principal, lançou Pais de primeira, em 2018, também inspirada em sua própria experiência,
e já prepara a segunda temporada da atração, prevista para 2020.
Porém, as crônicas continuam como sua atividade mais importante, em publicações semanais. Nelas, explica, é possível transitar “pelo humor, como o Verissimo; pelo lirismo, como o Rubem Braga; ou pelo comentário de uma notícia, como o Nelson Rodrigues”.


No entanto, o escritor reconhece: a leveza vem perdendo espaço, sobretudo neste Brasil dominado pela polarização política. “Desde a eleição do Lula, temos esse Fla-Flu. O leitor deve entender que uma crônica, um conto, ou mesmo um filme não são uma tese de mestrado defendendo uma ideia. São comentários que nem sempre podem ser defendidos numa banca acadêmica”, argumenta.


Nesse contexto, Prata cita a crônica Bar ruim é lindo, bicho. Publicada em 2008, falava a persona “meio intelectual, meio de esquerda” e suas preferências de consumo. “Naquela época, teve gente que achou que era uma crítica à esquerda. Outros me xingaram, dizendo que eu era um playboy babaca. Já houve muitas leituras contraditórias. Se o texto fosse publicado hoje, seria pior ainda”, acredita.


Em suas crônicas, Prata não se furta a comentar aspectos polêmicos da política. Já criticou com ironia a ascensão da extrema-direita e, em alguns textos, aborda de forma direta o governo Jair Bolsonaro. A crônica Nós capota mas não breca, publicada há 15 dias, fala sobre propostas de afrouxamento das leis de trânsito.


Apesar de complexidade do momento, ele acredita que a leveza dada pela crônica aos fatos é também “um ato político”. Nesta entrevista ao Estado de Minas, diz que o fortalecimento da imprensa é fundamental para esse gênero perseverar.

 

 

Você diz que a crônica é um respiro em meio ao noticiário, no sentido de que não necessariamente precisa falar sobre o assunto do momento, mas do cotidiano. Disse isso também em épocas em que talvez se precisasse até de menos de respiro do que hoje. A crônica segue como um respiro? Ou deve abarcar assuntos mais pesados?
As duas hipóteses são verdadeiras. A crônica pode e deve dialogar com o cenário político, econômico e social brasileiro. O cronista pode e deve meter a colher nesses temas. Mas a tarefa dele é o contrário. O mundo está pegando fogo e ele pode dar lirismo, graça. Trazer graça também é um serviço. Às vezes, a temperatura dos fatos é tão alta que a pessoa precisa de um respiro. Tenho dificuldade de fazer esse balanço. Em alguns momentos, quero fazer como Rubem Braga, mas me sinto obrigado a criticar algum absurdo. Me sinto como um alienado se não falar, mas aí lembro-me novamente do Rubem Braga e de que ao cronista também cabe o ato político de trazer alguma alegria.

Hoje, há uma patrulha muito forte em termos ideológicos. Mesmo em assuntos mais leves surge espaço para pequenas guerras. Como é para o cronista lidar com o comportamento tão acalorado do leitor?
Também é complexo. Muito amplo. Temos de discernir reclamações legítimas de parcelas da sociedade. Não me parece que ser machista, racista, homofóbico, seja da ordem da “patrulha”. É uma questão de civilização. Por outro lado, se você fala do gafanhoto, podem aparecer defensores do grilo se sentindo injustiçados. Pode virar uma gritaria desenfreada. É difícil. Escrevemos pisando em ovos, e tem que pisar mesmo, mas também tem ovos que devem ser quebrados. E nisso as pessoas tomam partido. De um lado, os “o mundo tá chato”, de outro, os “não se pode ofender ninguém, o humor deve ser inócuo”. Devemos entender cada caso. Isso dá trabalho e as pessoas não querem trabalho.

Qual é o futuro da crônica? Há a ideia de que não se lê mais, de que o fluxo de informações nas redes sociais alterou totalmente o consumo de literatura, embora autores sigam publicando. Nessa complexidade que atravessamos, qual será o caminho da crônica?

A crônica é um gênero ligado à imprensa. Nasceu na imprensa, fica na imprensa. É muito raro alguém publicar um livro de crônicas que não saiu antes em nenhum lugar. Nas últimas três décadas, vemos a decadência da imprensa. Revistas sumindo, editoras fechando. O risco maior não está na crônica, mas no seu suporte. Porém, aos poucos, acho que a imprensa se reencontra. A gente não pode viver sem imprensa. Fora do Brasil, ela está se encontrando, vejo o interesse das pessoas. Faço isso há 20 anos e minha presença no Fliaraxá é para discutir isso.

 

 

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