Luiz Costa Lima lança Limite em BH

Em seu novo livro, teórico da literatura volta a abordar a questão das mimeses. Ele autografa a obra hoje na Savassi e faz conferência amanhã, na UFMG, na abertura de seminário dedicado à sua obra

por Mariana Peixoto 18/06/2019 08:00
Tiago Lermen/Divulgação
(foto: Tiago Lermen/Divulgação)
Um dos mais importantes teóricos da literatura no país, bem como um dos mais prolíficos acadêmicos brasileiros, o maranhense radicado no Rio de Janeiro Luiz Costa Lima, de 82 anos, está nesta semana em Belo Horizonte para dois eventos. Nesta terça (18), participa na livraria Quixote do lançamento do livro Limite (Relicário/PUC-Rio). O volume vem se somar às mais de 30 obras que ele já publicou sobre teoria e crítica literária, filosofia e história. Na quarta (19), ele é tema do encontro “Jornadas teóricas”, na Faculdade de Letras da UFMG.

É com um “profundo desencanto com o que se passa no Brasil” que Costa Lima chegou ao novo livro, que retorna à questão da mimese (conceito grego relacionado à obra de arte) para pensar a ideia da ficção e a da representação e criação na literatura e nas artes visuais. Afirmando não saber se ainda terá ânimo para escrever sobre um tema ao qual se dedica desde os anos 1980, o autor, na entrevista a seguir, fala também sobre a crise institucional da educação no país.

Em que momento a questão da mimese passou a interessá-lo? É um tema que não se esgota?

Eu mesmo não sei precisar. Talvez o fato de ser, desde muito jovem, um leitor de literatura e interessado em sociologia me tenha mostrado que entre uma e outra havia uma profunda contradição. Talvez essa tenha sido a razão de, afinal, me dizer: como pensar que a natureza ou a sociedade explique a ficção que, tanto em prosa quanto em poesia, a ficção reitere o que a natureza ou a sociedade já mostra em si? À medida, contudo, que a formulei explicitamente pela primeira vez, em Mímesis e modernidade (1980), e a resposta que dei não me satisfez, fui tentando aproximações melhores. É, portanto, minha insatisfação que tem alimentado minha própria produção.

Qual o status da crítica literária hoje na formação de escritores e leitores? 

A crítica literária deveria ter um papel relevante na formação de leitores e escritores. Entre nós, as coisas se complicam, porque os meios de sua divulgação, com a extinção dos suplementos, se tornam bastante raros. Não adianta dizer que seu desaparecimento decorre de uma lei de mercado. O mercado é igualmente de cunho capitalista nos EUA, na Espanha, na França, na Alemanha etc., e nem por isso seus suplementos desapareceram. Contudo, ainda antes, nos anos de 1960-70, a situação não era muito melhor. Desde que nos tornamos independentes, houve na intelectualidade brasileira um veto à teorização. Isso afetava o próprio status da crítica literária e interferia na formação dos currículos dos cursos universitários de letras. Essas são questões de extrema gravidade, mas tocadas sempre de passagem. Por que assim? Responde-se com frequência: porque não há público interessado. Fico sem saber se não há público de fato ou se os promotores dos média preferem que o público se contente com as banalidades que eles lhe oferecem.

O senhor vê algum caminho para a sobrevivência da nossa universidade diante da crise educacional brasileira?

Chegamos ao ponto em que um ministro da Educação considera que, em atenção ao público nacional, os recursos devem ser concentrados nos cursos elementares. Mas, mesmo sem a afirmação ridícula, o fato é que nossa universidade permanece extremamente pobre. A começar pela carência de bibliotecas. Muitas vezes, mandam-se pós-graduandos para o estrangeiro para que possam pesquisar a bibliografia de suas teses. Não seria mais eficaz que se dispusessem bibliotecas com um acervo suficiente? Já não falo no domínio de línguas ou mesmo da língua do país. Isso tudo então significa que não há sobrevivência para nossa universidade? Em termos estritamente lógicos, talvez sim. Mas a lógica estrita é uma falácia. A vida depende de aporias. Cada um de nós pode não amanhecer vivo, mas, apesar disso, cada um de nós supõe que amanhã continuará vivo. É uma aporia semelhante que nos faz pensar que, apesar de ministros et caterva, continuaremos a lutar pela melhora de nossas universidades.

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