Livro de Roberto Corrêa conta a história da viola caipira no Brasil

Pesquisador e violeiro diz que o país assiste a um movimento cultural em torno do instrumento. Duzentas orquestras de viola brasileiras estão em atividade

por Augusto Pio 16/06/2019 12:00
Diego Bresani/Divulgação
"De fato, houve um avivamento, um momento histórico para a viola" - Roberto Corrêa, músico (foto: Diego Bresani/Divulgação)
Retratar os percursos e a retomada do uso da viola no Brasil é o propósito de Roberto Corrêa, que está lançando o livro Viola caipira: das práticas populares à escritura da arte. O músico e pesquisador mineiro, nascido em Campina Verde, no Triângulo, apresenta a trajetória do instrumento, dando ênfase ao que chama de "avivamento" ocorrido nos últimos anos.

Instrumentista respeitado – dedicou mais de 40 anos ao instrumento e gravou cerca de 19 discos –, Corrêa traz a público sua pesquisa de doutoramento na área de musicologia defendida em 2014 na Universidade de São Paulo (USP).

A paixão começou quando Roberto era criança. Primeiro, ele tocou violão, trocado mais tarde pela viola.“Quando ainda morava em Campina Verde, tive aulas com o mestre Zé da Conceição. Saí de minha cidade aos 17 e morei um ano em BH. Posteriormente, radiquei-me em Brasília, onde estou até hoje me apresentando em diversos palcos", conta.

Certo dia, ele deparou com uma oferta no supermercado. “Vi a viola à venda, o preço era bem baratinho. Acabei comprando. Em casa, embora não soubesse tocar, fiquei dedilhando e tirando alguns sons. Foi amor à primeira vista, acredito. A partir dali, nunca mais peguei o violão”, relembra.

EXPANSÃO O livro mostra que a viola, em suas diferentes facetas, continua dinâmica e bem viva. A tese de doutorado de Corrêa ganhou o título Viola caipira: das práticas populares à escritura da arte. “Entre muitas coisas, falo da expansão do instrumento no Brasil a partir da década de 1960, em diferentes cenários musicais, camadas sociais e gerações. Mostro que, de fato, houve um avivamento, um momento histórico para a viola. Falo também de acontecimentos como a criação do pagode-de-viola, o primeiro LP de viola instrumental e a escrita musical pioneira", diz.

A retomada do instrumento em grandes centros urbanos e as orquestras de viola foram duas razões para do "avivamento". No livro, ele explica como se deu a difusão das duplas Tonico & Tinoco e Tião Carreiro & Pardinho, além de revelar detalhes sobre a escritura musical.

“A primeira notação musical dedicada à viola foi feita por Theodoro Nogueira, em 1962, o que contribuiu para a formação de repertório, além de registrar o que antigamente era somente passado de geração em geração pela tradição oral”, ressalta.

Roberto Corrêa identifica ações norteadoras da difusão da viola como movimento cultural. Esse processo teve início na capital paulista e se alastrou pelo país. “Apresentamos uma série de acontecimentos que movimentaram artistas, produtores, plateias, pesquisadores, mídia e luthiers, desenhando uma nova cena para a viola, sobretudo a partir da década de 1960", relata. "Também discorro sobre temas que sempre estiveram presentes em minha prática."

Outro aspecto do livro é o histórico do instrumento no Brasil, desde os tempos coloniais. "Faço relatos históricos de instrumentos designados, como a viola, além de abordar a trajetória da palavra caipira, com preconceitos e novas representações”.

Roberto Corrêa se diz um "caipira contemporâneo". Como tal, explica tanto as características da viola na região caipira quanto relata histórias sobre esse personagem interiorano. Ganham destaque práticas musicais tradicionais, sobretudo a folia de reis, "a função devocional mais disseminada na região caipira", reassalta.

O autor também refaz a trajetória da música caipira na indústria fonográfica. A primeira gravação foi feita em 1929, por Cornélio Pires. A expansão da viola ocorreu a partir de 1960, quando o instrumento ganhou novos públicos e intérpretes.

Hoje em dia, há mais de 200 orquestras de viola distribuídas pelo Brasil. Uma espécie de movimento cultural está ocorrendo no país inteiro. Estão utilizando o instrumento de várias formas, estamos assistindo a um crescendo”, garante.

Novo disco 


Entre trabalhos autorais e parcerias, Roberto Corrêa gravou 19 discos. “Estou voltando a compor. Já tenho músicas prontas para o próximo CD. Também desenvolvo um projeto dirigido pelo João Antônio, uma espécie de aula-espetáculo que faz parte do estudo Pesquisa e arte na intervenção da viola caipira contemporânea",conta. O projeto – com música, texto, poesia e dança – tem cenografia assinada por Rômulo Andrade e repertório de Climério Ferreira.
"A proposta é mostrar o impacto que a viola caipira causa na comunidade”, afirma Roberto.

VIOLA CAIPIRA: DAS PRÁTICAS POPULARES À ESCRITURA DA ARTE
De Roberto Corrêa
Editora Viola Corrêa
206 páginas
R$ 59,90

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