Skatista mineiro de 19 anos vence concurso nacional de literatura

João Gabriel Paulsen ganhou o Prêmio Sesc de Literatura com o livro de contos "O doce e o amargo", cujas histórias são baseadas em sua rotina. Ele estuda filosofia em Juiz de Fora0

por Mariana Peixoto 15/06/2019 09:00
André Magalhães/Divulgação
(foto: André Magalhães/Divulgação)
“Não sou escritor, eu escrevo. Não sou skatista, eu ando de skate.” O juiz-forano João Gabriel Paulsen tem apenas 19 anos, mas já sabe algumas coisas da vida. Sabe, por exemplo, que a literatura e o esporte são essenciais para ele. “Essas são meio que as coisas que me sustentam no dia a dia, pois é como lubrifico a cabeça e me coloco para funcionar.”

João Gabriel está com a cabeça a mil. O estudante do terceiro período do curso de filosofia da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) foi o vencedor na categoria conto do Prêmio Sesc de Literatura de 2019 com o livro O doce e o amargo. O anúncio dos vencedores foi feito na última quarta-feira (12). Ele é o mais jovem mineiro a ganhar a premiação, criada em 2003 e dedicada a escritores estreantes nas categorias conto e romance – o cearense criado no Mato Grosso Felipe Holloway, de 30 anos, venceu com o romance O legado de nossa miséria.

Esta edição do prêmio teve um recorde de inscrições – 1.969 participantes, sendo 1.043 romances e 926 livros de contos. Os dois vencedores terão seus livros publicados pela Record. O lançamento está previsto para novembro, quando será a cerimônia de premiação. Além disso, a dupla participa da próxima edição da Festa Literária de Paraty (Flip), em julho, e, ao longo de um ano, integrará a programação de literatura do Sesc por todo o país.

João Gabriel divide com a gaúcha Luísa Geisler (vencedora em 2011, também na categoria conto) o título de mais jovem vencedor do prêmio. “Na verdade, eu não sabia o que faria com o que estava guardando em casa. Escrevo meio que para mim, mas ninguém escreve para si mesmo, mas para ser lido. Então, achava que não ia dar muito certo. De repente, vem o prêmio, e vou entrar no mercado editorial no Brasil, o que é uma tarefa heroica. Agora não sei o que vou fazer da vida, mas pretendo continuar estudando”, diz ele, ainda sob o impacto da notícia.

SEGUNDA REALIDADE O doce e o amargo compila nove contos escritos no último ano e meio. “Embora a gente consiga perceber um ponto de convergência entre as histórias, é principalmente a minha vida o material que coloco no papel. Tenho necessidade de colocar as coisas para fora, dar uma forma para aquilo que não tem forma. É engraçado, mas quase não trato (os contos) como ficção. Para mim, são quase uma segunda realidade.”

Cultivando o hábito da leitura desde criança, João Gabriel começou a escrever aos 15. No início, era poesia. Depois, migrou para a prosa. “Um professor de literatura com quem conversei me disse que, na prosa, era mais complicado ser original”, lembra ele, que começou a publicar suas histórias curtas há dois anos, na plataforma Pergaminho Virtual e na revista Oblívio, de Juiz de Fora. “Foi a partir dali que passei a ter um retorno crítico e a interagir com o círculo literário”, afirma.

Entre um livro e outro, pratica downhill, a modalidade do skate de descer ladeiras. “Já participei de competições pelo Brasil, mas nunca tive muito sucesso. Mesmo que não trate do skate nos meus contos, ele é muito importante para mim”, o estudante, que descobriu mais recentemente o mountain bike. “É com uma galera mais velha, fazemos muita trilha”.

João Gabriel lê tudo que lhe cai nas mãos. Durante dois anos, dos 12 aos 14, num período meio revoltado, ficou sem ler muito. Foi o bestseller O código da Vinci, de Dan Brown, que o levou de volta à literatura. “Depois disso, eu me perdi.” Ou melhor, acabou se encontrando nas leituras de Tolstói, Dostoiévski, James Joyce – “Foi meio desafiador, tanto que gosto de me vangloriar, pois mesmo passando alguns apertos, terminei Ulisses” –, Caio Fernando Abreu, Fernando Sabino, Jorge Amado, Clarice Lispector, Augusto dos Anjos e Fernando Pessoa, seus autores favoritos. “Também leio temas contemporâneos, mas minha estante é um cemitério”, conclui.

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