Valter Hugo Mãe é homenageado no Fliaraxá

Escritor português, apaixonado pela cultura brasileira, também criou ilustrações que fazem parte do projeto visual do Festival Literário de Araxá. Evento será realizado de 19 a 23 de junho

por Ana Clara Brant 10/06/2019 08:55
Daniel Bianchini/divulgação
Escritor, que declara fascínio pelo Brasil e seus artistas, diz que adoraria 'tentar beijar a mão de Adélia Prado' (foto: Daniel Bianchini/divulgação)
Um dos escritores mais aclamados da língua portuguesa contemporânea, Valter Hugo Mãe nasceu há 47 anos na cidade angolana de Henrique de Carvalho, hoje conhecida por Saurimo, mas ainda criança se mudou para Portugal e acabou adotando a cidadania lusitana. No entanto, não esconde seu amor e admiração pelo Brasil, e, principalmente, por seus artistas. “Não há um instante que possa referir como espoletando uma relação com o Brasil. Foi só nascer. Havia Caetano e Chico, Bethânia e Elza em todo lado, em toda a vida. Havia a novela de cada dia. Quando era menino, assistia religiosamente e hoje começo a pensar que seria mais feliz se tivesse condições de voltar a acompanhar uma novela. Você já viu Alexandre Nero numa novela? Vale um Sílvio Abreu só pensando nele. Como Caio Blat. O Brasil maturou muito sua arte”, reflete Valter, que se considera “meio brasileiro” pelo fascínio com sua cultura. “E, quanto mais me aproximo, mais tudo se inscreve em mim. Hoje, minha bandeira brasileira diz Elza Soares. A sua carne é a mais cara do meu mercado. Ela podia ser Deus. Rodrigo Amarante também. Os dois deviam fazer um filho”, comenta.


O autor de livros como 'A máquina de fazer espanhóis' e 'O filho de mil homens' nunca morou no país, mas revela que adoraria viver em São Paulo para ir a apresentações de livros ou assistir a algumas aulas na USP. “Gosto muito da cidade. E sempre poderia voar de vez em quando para encontrar outros amigos em outros lugares. Ir tentar ver Dalton Trevisan passar na rua. Tentar beijar a mão de Adélia Prado. Assistir aos shows de Mônica Salmaso. Aos shows de tanta gente”, enfatiza. Enquanto o desejo de ter o Brasil como residência fixa não vira realidade, Valter Hugo vai se contentando com as temporadas em solo brasileiro, como a que começa na próxima quinta (13), no Rio de Janeiro, e se encerra em 26 de junho, em Santo André (SP).

Nesse meio tempo, o escritor faz uma parada no Alto Paranaíba mineiro, onde será o grande homenageado da oitava edição do Fliaraxá – Festival Literário de Araxá, que será realizado de 19 a 23 de junho. “Já temos uma tradição de vocação lusófona. Daí essa homenagem mais do que merecida. Assim como ocorreu com Mia Couto e Gonçalo Tavares, agora chegou a vez de Valter Hugo Mãe, que é um dos mais destacados autores portugueses da atualidade. E sempre pegamos uma efeméride para escolher o patrono. Em 2019, vamos lembrar Machado de Assis, que completaria 180 anos em 21 de junho”, ressalta o jornalista e gestor cultural Afonso Borges, idealizador do Fliaraxá.

É a primeira vez que o escritor português será reverenciado em um evento literário brasileiro. Valter Hugo Mãe se diz honrado e espera poder encontrar muitos leitores durante o período na terra de Dona Beja. “E contribuir para que se gere uma verdadeira festa e se distribua alegria e vontade de ler e seguir aprendendo. Um encontro com esse grande Brasil que me fascina desde menino. É uma dimensão desse fascínio. Uma dimensão para sempre grata e que não esquecerei”, celebra. Além de participar de mesas e bate-papos durante toda a programação do evento – que tem como tema Literatura, leitura e imaginação –, o escritor lançará três livros.

O conto As mais belas coisas do mundo ganhou publicação exclusiva e inédita no Brasil. A história recebeu edição com projeto gráfico e acabamento especiais. O segundo lançamento é uma nova edição de Contos de cães e maus lobos. A publicação traz 11 narrativas que permeiam o universo infantil, entre a descoberta e o assombro. Outro livro que ganhou nova edição é O nosso reino, seu romance de estreia. Em meio ao regime salazarista, que vigorou em Portugal por quatro décadas, o livro narra a história de um menino de 8 anos e sua vida em uma pequena aldeia de pescadores em Portugal, nos anos 1970.

DIFERENÇAS

“É uma coincidência que saiam num só gesto. São muito distintos e pertencem a tempos diferentes. O meu primeiro romance, O nosso reino, estava começando a explorar o gênero, medindo a poesia na prosa. Um texto para aprender a perda que pode ser lido aos mais jovens”, analisa. Já As mais belas coisas do mundo, de acordo com seu criador, é muito usado em Portugal para trabalhar em inevitáveis processos de luto. “Sempre pensei que faltam discursos não místicos que auxiliem as crianças e os jovens a enfrentar casos de ausência ou morte. Procurei escrever um texto que seja ao mesmo tempo belo e útil para lidar com essa fractura. O volume Contos de cães e maus lobos é um híbrido. Está longe de ser literatura para crianças e não é a típica literatura de adulto. É um espaço de compromisso entre a responsabilidade e o encanto. Julgo que tenho essa característica em mim. Não viro definitivamente adulto. Não sou, de todo modo, uma criança. Tento responsabilizar-me com encanto”, reflete.

Fliaraxá – Festival Literário de Araxá
De 19 a 23 de junho, no Tauá Grande Hotel Termas de Araxá. Programação gratuita. Informações: (34) 3691 7146 ou pelo www.fliaraxa.com.br

Mulheres na pauta do festival

A Fliaraxá terá algumas novidades nesta edição, como o projeto Mulheres extraordinárias, que tem curadoria da filósofa e escritora Márcia Tiburi e terá um espaço dedicado a rodas de conversas com mulheres sobre assuntos que permeiam as vivências e o imaginário feminino. Além de todos as atividades literárias, inclusive, com uma livraria exclusiva, o evento tem uma programação voltada para a música e a gastronomia. “São vários festivais dentro de um festival”, pontua Afonso Borges, idealizador do Fliaraxá.

Borges acrescenta que um dos principais objetivos desde que o festival foi criado é o estimulo à leitura, principalmente entre as crianças e os jovens. “É visível o crescimento do interesse pelo livro nessa faixa etária. A gente tem retorno das escolas, dos professores. Um dos pontos mais importantes do Fliaraxá é seu envolvimento com a comunidade. Não faz sentido estarmos ali e não fazer alguma diferença para a cidade e a região”, enfatiza.

Apesar de oficialmente começar no dia 19, há toda uma agenda antes e depois. “O Festival não se resume aos cinco dias. Temos uma intensa programação antes, no Pré-Fliaraxá, que promoverá um “esquenta” nas escolas públicas e particulares da cidade, entre 10 e 18 de junho, em uma forma ativa de envolver a população e democratizar ainda mais o acesso à cultura. E também temos atividades no Pós-Fliaraxá”, ressalta.

Toda a programação tem entrada gratuita, graças à Lei Federal de Incentivo à Cultura, por intermédio do patrocínio da Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração (CBMM), apoio cultural do Itaú e parceria do Sesc SP. (ACB)

 

 


Quatro perguntas para Valter Hugo Mãe

1 - Vira e mexe o Brasil aparece em seu Instagram. Seja festejando nossa cultura, nossos artistas ou até dando uma alfinetada no governo. Qual a função e a importância que as redes sociais têm na sua vida?

Procuro que sejam apenas modos de estar com os leitores. Não tenho intenção de que substituam nada e, desde logo, não substituam o encontro com as pessoas, o encontro com amigos. Fico muito grato que me acompanhem. É verdade que me empenho sobretudo no Instagram, ou seja, é a rede que mais uso. O Facebook destruiu-se com suas regras mudando, regras que considero ofensivas, impondo pagamento para que os seguidores efetivamente recebam as publicações de quem decidiram seguir. Creio que há uma urgência no aparecimento de outras plataformas onde se favoreça o diálogo pacífico. O Facebook optou por ser um espaço de conflito. Enquanto não houver redes sociais com a mesma disciplina ética e legal que por tantos séculos amadurecemos na sociedade, as redes serão impunes lugares de agressão. É como você julgar que se alistou numa casa de massagem e dar-se conta de se ter alistado para uma luta livre sem árbitro.


2 - E como analisa esse atual momento do Brasil, especialmente com relação à cultura?


As notícias que recebo são invariavelmente más. Tem como fazer uma boa análise para a cultura? Não sei. Estou ansioso por chegar e conversar com meus amigos de sempre e ouvir suas sensibilidades.


3 - O que mais gosta no Brasil e o que menos gosta?

O que menos gosto é a propensão para ser um país usurpado, à Esquerda e à Direita. Se não fosse um país tão rico talvez tivesse melhor sorte. O que mais gosto é da criatividade que resulta do constante desafio. Respeito muito a criatividade de quem precisa de sobreviver e inventa coisas maravilhosas para vender ou arrumar trabalho. Admiro o esforço. Compadeço-me com as pessoas que passam horas em transportes públicos para manterem empregos de salários baixos, sofrendo mas lutando sem desistir. É isso, os brasileiros não são desistentes. Numa próxima encarnação quero saber não desistir. Sim, ser ainda mais brasileiro do que posso, por paixão, ser.

4 - Afinal, quem é Valter Hugo Mãe?


Um homem em perigo, porque meus sonhos são tudo ao contrário do mundo que se começou a desenhar em 2012 ou 2013.

 

Reprodução/Valter Hugo Mãe
O escritor Valter Hugo Mãe criou ilustrações exclusivas para a Fliaraxá (foto: Reprodução/Valter Hugo Mãe)

 

 


Traços de Machado de Assis

Valter Hugo Mãe estará presente de outras formas no Festival em Araxá. O escritor – que também flerta com as artes plásticas – criou ilustrações que fazem parte do projeto visual do evento. Ele conta que Afonso Borges ficou entusiasmado com alguns desenhos que tinha feito e pediu para que pensasse em algo especial para o Fliaraxá. “Disse que sim num susto. Tive de desenhar mil folhas para aprender a fazer alguns traços. Não sou artista plástico (gostaria), e qualquer coisa implica treino e muita sorte. Um dia, imitei meu rosto. Depois, tentei imitar o de Machado (de Assis). Pensei que seria engraçado que fizesse algo simplesmente terno e divertido. Espero que seja divertido para quem vê”, anseia. Aliás, não só com as artes visuais o escritor dialoga. Vez por outra, seu lado músico aflora. “Tudo puxa tudo. A arte é um sentimento. Não se impede perante gênero algum. Apenas se dedica. Mas, enquanto amante, ou amador, arte é um lugar inteiro. Não faz questão de discriminar. Ela só junta. Nos meus livros há desenhos feitos nas palavras, nos meus desenhos há mais poesia do que talento plástico”, expõe.



Não há um instante que possa referir como espoletando uma relação com o Brasil. Foi só nascer. Havia Caetano e Chico, Bethânia e Elza em todo lado, em toda a vida. Havia a novela de cada dia”

Hoje, minha bandeira brasileira diz Elza Soares. A sua carne é a mais cara do meu mercado. Ela podia ser Deus. Rodrigo Amarante também. Os dois deviam fazer um filho”

E sempre poderia voar de vez em quando para encontrar outros amigos em outros lugares. Ir tentar ver Dalton Trevisan passar na rua. Tentar beijar a mão de Adélia Prado. Assistir aos shows de Mônica Salmaso”

Valter Hugo Mãe,  escritor

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