Ensaios filosóficos sobre era digital encontram um lugar na internet

Textos de filósofos brasileiros e estrangeiros produzidos para o ciclo 'Mutações'" são publicados no site Artepensamento. 'A gente tem de ser coerente com o que está discutindo', diz Adauto Novaes, coordenador do projeto

por Severino Francisco 23/04/2019 08:40

As revoluções biotecnológica, científica e digital nos empurraram para mutações vertiginosas, que tendem a eliminar o pensamento e nos tornar reféns do que o poeta Paul Valéry chamou de “barbárie dos fatos”. Há 13 anos, Adauto Novaes coordena ciclos sobre múltiplos aspectos das mutações, com a participação de alguns dos mais brilhantes intelectuais brasileiros e estrangeiros. Ele publicou seis volumes de ensaios, que tocam nos temas da violência, da velocidade, da preguiça produtiva, da destruição do pensamento, da revolução digital, do vácuo dos valores e da necessidade de cultivar “as coisas vagas” (a arte, o pensamento, o ócio criativo e a crítica).

Mas, agora, o ciclo inicia nova etapa, com a entrada na plataforma digital. Uma leva de 313 ensaios e 24 filmes está disponível, gratuitamente, no site Artepensamento. Em breve, serão acrescidos mais 345 ensaios, perfazendo quase 900. O alvo são principalmente os estudantes universitários. Lá, eles poderão ler textos de François Hartog, José Miguel Wisnik, Jacques Ranciére, Marilena Chauí, Nicole Loraux, Gérard Lebrum, Benedito Coutinho e José Américo Pessanha, entre outros.

Nos ensaios, os autores travam um corpo a corpo dramático com os temas urgentes do nosso tempo: “É quase uma enciclopédia”, comenta Adauto Novaes. O professor Antonio Candido escreveu que o ciclo das “Mutações” constitui um dos feitos mais importantes do nosso tempo no país. Na entrevista a seguir, Adauto Novaes fala sobre o percurso dos 13 anos de “Mutações”, a perspectiva de interação digital, o diálogo com as novas gerações e os desafios de um tempo sem passado e sem futuro, refém de um eterno presente.

As plataformas digitais foram temas de reflexões e críticas nos ciclos promovidos por você. O que elas propiciam na difusão do projeto das “Mutações”?
Na realidade, a gente tem de ser coerente com o que está discutindo há 13 anos: as mutações produzidas pelas revoluções biotecnológica, científica e digital. Seria incoerência não usarmos a plataforma digital. É algo incontornável para quem deseja se comunicar e interagir com as novas gerações. Os livros são muito importantes, fizeram história, como disse Antonio Candido. Mas as novas gerações buscam o conhecimento dos textos pelos novos meios. Em pouco tempo de lançamento, temos mais de 130 mil acessos. Mas o mesmo Antonio Candido escreveu que os ciclos da mutação constituem um dos feitos mais importantes do nosso tempo no Brasil. Traça os rumos da civilização contemporânea. Por todas essas razões, é importante que cheguem às novas gerações.

Como avalia o trajeto do ciclo das “Mutações”?
Começamos com os sentidos da paixão, o desejo, temas que mesmo o pensamento de esquerda não levava em conta. Diziam que eram coisas ilusórias. Mas definem a atividade humana. Chegou um momento em que a ideia de crise não dava mais conta do que acontecia no mundo. Então, começamos com a ideia das mutações.

O que caracteriza, essencialmente, o tempo de mutações?
Diferentemente do iluminismo, é uma era feita no vazio do pensamento, como dizia Hanna Arendt. A contribuição que damos é essa. Incluiremos os seis primeiros livros sobre as mutações. É uma coisa muito séria. Se a política está assim, se os valores tendem a desaparecer, temos de refletir. Gostaria de ressaltar que grandes pensadores do Brasil e do exterior, na atualidade, participaram do ciclo. Poderia citar François Hartog, Frédéric Gros, Nicole Loraux, Jacques Ranciére. E também do Brasil: José Américo Pessanha, Marilena Chauí, José Miguel Wisnik, Gerard Lebrun. Se a gente não tivesse criado a plataforma, as novas gerações não saberiam. Os ensaios foram publicados em livro, mas, quase sempre, só acessíveis às pessoas de algumas capitais. No Nordeste, por exemplo, muitas pessoas não têm acesso a esses livros. Preparamos, cuidadosamente, a apresentação. Cada ensaio é precedido de síntese. Trabalho com uma equipe há dois anos.

Como vê as possibilidades de uso desse material pelas novas gerações e pelos cursos universitários?
Isso é fundamental. E está sendo usado. Não é que o livro vá desaparecer. Mas a tendência é que as novas gerações procurem o conhecimento nos novos meios. Encontro com os professores e eles dizem que está sendo muito útil. Se você quer discutir filosofia, história, tecnologia, biociência ou ética, está tudo ali. É um pouco uma enciclopédia.

Que balanço faz das séries, que vão do silêncio dos intelectuais ao desejo, às paixões, às novas tecnologias e à barbárie?
A gente sempre se preocupou muito com isso. Vai sair um novo livro do ciclo “Dissonâncias do progresso”. É uma crítica contra o progresso, que se tornou extremamente atual. Há uma negação muito grande em relação às humanidades. Veja o que está acontecendo com as grandes empresas de mineração em Minas Gerais. São resultantes de uma ideia de progresso e não estão nem aí para o que acontece. A questão da bomba atômica e a possibilidade apocalíptica rondam o tempo todo.

Essas linhas de pensamento ajudam a pensar ou a repensar o Brasil e o mundo?
Esse é o grande problema. O próprio Claude Lefort me disse uma vez: “Temos de repensar todos os conceitos, até o de luta de classe. A própria classe operária tende a desaparecer. Existe a classe de trabalhadores”. Ajuda a repensar os conceitos da política.

A globalização criou um estado de desespero para os indivíduos. O pensador polonês Zigmunt Bauman disse que, antes da globalização, existia a luta de classes. Mas, hoje, existe a luta do indivíduo contra o restante do mundo. O que acha dessa afirmação?
É que, na globalização, existe uma tendência ao egoísmo organizado, a ideia de comunidade tende a desaparecer da história. Robert Musil dizia que o capitalismo é o egoísmo organizado. Tem um problema muito maior aí: a própria política tende a desaparecer. Quem manda são os conglomerados e os técnicos. Em uma sociedade tecnicizada, a política também tende a ser tecnicizada.

É preciso muita velocidade de pensamento para acompanhar as mutações do mundo globalizado?
Fizemos um ciclo muito importante, “O elogio da preguiça”. Sem o tempo do ócio, você não cria nem obra de arte nem pensamento. Vivemos um momento em que não se vive o tempo do pensamento. As pessoas se submetem a esse tempo veloz da vida. E isso é terrível.

E como esse estado de coisas está afetando a escalada da violência?

As pessoas acabam interiorizando muito a violência e o ódio. Albert Camus fez conferências nos Estados Unidos depois da Segunda Guerra Mundial. Muitos acreditam que o monstro morreu, mas o veneno não morreu: o nazismo e o nazifascismo. A civilização criou muitas coisas importantes e corretas, mas também acumulou muito ódio. Só é possível superar esse estado de coisas com um trabalho cuidadoso da educação e da sociedade. Temos de pensar mais profundamente sobre a constituição do ódio e da violência.

O que cria um clima favorável aos valores do nazismo e do fascismo nos dias atuais?
O neofascismo adquiriu uma nova forma. Não é a mesma coisa de 1940. E estamos vendo como essas coisas estão acontecendo. O domínio da tecnociência distrai o pensamento, ninguém pensa mais. A sociedade não tem forma mais, porque não tem ideia. Qualquer coisa que se apresenta tem chances de ter adesão. Não é só no Brasil, mas também na Holanda, na Áustria e na Alemanha. Paul Valéry tem uma ideia interessante, ele diz que a barbárie é o império dos fatos. E que precisaríamos das coisas vagas, que são a arte, as ideias políticas e as utopias. A ausência de pensamento é um prato feito para os aventureiros se estabelecerem. Valéry dizia, também, que estamos vivendo um tempo em que desapareceram as duas maiores invenções da humanidade: o passado e o futuro. Não sabem o que aconteceu há 10 anos ou há 50 anos. As revoluções anteriores permitiam dar um salto. Mas, se o passado desaparece, não temos futuro. Ficamos reféns do presente e da barbárie dos fatos.

”Fizemos um ciclo sobre as ‘Dissonâncias do progresso’. Veja o que está acontecendo com as grandes empresas de mineração em Minas Gerais. São resultantes de uma ideia de progresso e não estão nem aí para o que acontece”

  Adauto Novaes, filósofo

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