Trinta anos depois de sua morte, Leminski segue como referência para o Brasil contemporâneo

Labirinto Leminski: escritor e poeta curitibano teve uma vida intensa, com sentido de urgência

por Fabrício Marques* 05/04/2019 10:06

Janey
Caricatura de Leminski (foto: Janey)
Parece que foi ontem, mas o próximo dia 7 de junho marca os 30 anos da morte do escritor, tradutor, compositor, ensaísta e, sobretudo, poeta Paulo Leminski, o personagem principal do terceiro volume da Coleção Roteiro Literário, iniciativa da Biblioteca Pública do Paraná, lançado recentemente.

 

Nestas três décadas, Curitiba (a terra natal de Leminski), o Brasil e o mundo mudaram muito, mas permanece, entre nós, o interesse em sua obra, avaliada acertadamente pelo autor do livro, o jornalista e poeta Rodrigo Garcia Lopes, como “vigorosa, atual, múltipla e relevante”.

 

Não se faz nada de bom sem entusiasmo. E isso Paulo Leminski tinha de sobra, bem como doses fartas de excesso e intensidade. Um defensor da ligação da poesia e da vida num grau máximo. Alguém com um sentido de urgência, “uma pressa de viver como quem morre”, como definiu Alice Ruiz, presença fundamental na vida do poeta. Com ele, não havia meio-termo: era poeta 24 horas por dia, sem pausas. A poesia era seu tesouro, uma das fontes de seu prazer. Por ela e para ela, poderia assinar aquele verso de Drummond: “É toda a minha vida que joguei”.

 

Como destacado no ensaio, Leminski tem sido referência importante para muitos poetas, escritores e artistas brasileiros contemporâneos, das mais diversas tendências. Sem dizer de seu impacto nos leitores. É um tipo especial de artista que, quando o lemos, sentimos um súbito estímulo para também escrever. Assim, ele nos impulsiona a fazer coisas, nos impele a criar.

 

Um clássico contemporâneo, Habitante da linguagem e A Besta dos Pinheirais são as três partes que compõem o ensaio. Seguindo a linha editorial da coleção, é reservado um espaço para relatar o convívio do próprio Rodrigo com o autor de Caprichos e relaxos, e Geografia literária, uma seção com fotos que dão acesso aos deslocamentos de Leminski pela Curitiba de seu tempo: a maternidade onde nasceu, casas onde morou, ruas em que andou, espaços culturais e artísticos que frequentou, bares de sua predileção.

 

Essa seção é um bônus afetivo que permite perceber, nas palavras da professora Melânia Silva de Aguiar, que “certos locais, certos espaços definidos da cidade são ilhas de significados plenos, em contraste com locais menos intensos, quase grau zero de significado, tão vivas e atuantes na memória de seus escritores, quanto envolvidas em atmosfera de intensa nostalgia. São lugares sobretudo de troca, de convívio social, de aprendizagem mútua, de crescimento”.

 

Nesse sentido, é significativo que se reserve um momento para comentar a relação de Leminski com a cidade onde viveu boa parte de sua vida, a Curitiba que, nas palavras do poeta, “produzia o melhor silêncio do Brasil”. A cidade de paisagem urbana dominada pela araucária aparece em muitos de seus textos em verso e em prosa, direta ou indiretamente.

 

O ensaio destaca dois conceitos desenvolvidos por Leminski e que caracterizavam a capital paranaense: a “mística imigrante do trabalho”, que acabava por reprimir as atividades culturais, e a “autofagia araucariense”, ou seja, a ideia de que a cidade acaba matando ou sufocando seus artistas mais brilhantes. O ensaio lembra que Leminski foi um legítimo flâneur curitibano, uma pessoa que anda pela cidade para experimentá-la, e criticava Curitiba severamente, de um modo que só quem tem muito afeto por algo critica.

 

Hoje, a produção leminskiana pode ser apreciada em 30 livros: oito de poemas, dois romances, uma novela infantojuvenil, um de contos, três de ensaios, quatro biografias (Bashô, Cruz e Souza, Jesus e Trótski), um de cartas, nove traduções (de John Fante, Lawrence Ferlinghetti, Alfred Jarry, Petrônio, Yukio Mishima, John Lennon, Samuel Beckett, James Joyce e poesia egípica antiga) e o híbrido de ensaio, ficção e poesia Metaformose: uma aventura pelo imaginário grego. E sem contar, ainda, centenas de artigos, crônicas e poemas inéditos.

 

FENÔMENO LITERÁRIO

 

Em 2013, sua obra poética foi reunida em Toda Poesia, fenômeno literário que vendeu nos quatro anos seguintes mais de 140 mil exemplares, colocando em suspeição a tese de que “poesia não vende”.

 

O cancionista está no Songbook Paulo Leminski, com centenas das canções que fez sozinho e em parceria. Mas a maior parte é de poemas musicados, o que denota o parentesco desses poemas com os ritmos e as melodias da palavra cantada. Um compositor, diga-se de passagem, que aprendeu e praticou canto gregoriano aos 12 anos.

 

Sua obra, vista em conjunto, permite compreender um poeta além de rótulos, ocupando uma fronteira movediça, aberta a todas as referências. Entre tantas características do poeta, Rodrigo não deixa de observar que ele foi um poeta-crítico que pensou muito a poesia e a linguagem. Deixou fartas pistas para o estabelecimento de uma poética (os valores e os princípios que orientaram seu trabalho com a linguagem).

 

Uma dessas pistas pode ser verificada nessa resposta a uma entrevista, reproduzida no livro: “Poesia é sempre política, num sentido erótico-ecológico, porque é o NÃO aos discursos correntes e vigentes. Ela nada contra a corrente. Não precisa de conteúdos revolucionários para ser revolucionária. Já é subversão. Sub-versão. Toda essa geração de poetas que proliferam por aí (e nunca se fez tanta poesia neste país) é uma geração de subversivos. Pena que a maior parte desses subversivos só faça sub-versinhos. Tem que fazer subversões”.

 

Rodrigo coloca em evidência os traços marcantes do mestiço polaco que tinha prazer em mergulhar no sentido profundo das coisas. Como a percepção de que vivemos, em termos de arte, a “agoridade absoluta”, a contemporaneidade absoluta que inclui, simultâneos, passado, presente e futuro. As lições apreendidas do poeta norte-americano Ezra Pound e do linguista russo Roman Jakobson. O gosto por uma boa polêmica para “tonificar os músculos e as ideias”. O impacto do discurso exato e preciso da publicidade e da propaganda.

 

Ao mesmo tempo, o ensaio não se exime de mostrar que Leminski está longe da unanimidade. O próprio poeta reconhecia que era dono de uma obra desigual (“Produzo muito, desovo, erro muito”, escreveu certa vez). Rodrigo Garcia Lopes abastece o ensaio com insights preciosos, como quando comenta um dos livros mais celebrados de Leminski, o romance-ideia Catatau (1975), e observa que, nesse livro, Leminski rompe com a linearidade da leitura, de modo que o leitor nunca sabe direito o que esperar da próxima frase, ou mesmo da próxima palavra. Rodrigo chama esse procedimento de “zapping des-narrativo”, em alusão à mudança rápida e repetidamente de canais pelo telespectador ou ouvinte.

 

O ensaio inclui novas informações biográficas e poemas inéditos em livro, caso de “Um sentímetro”. Um dos belos momentos do livro é o relato dos bastidores de criação de um de seus poemas mais representativos, aquele sem título que começa com o verso “apagar-me”. Roteiro Literário: Paulo Leminski soma-se, assim, a um já vasto repertório que permite compreender melhor o labirinto Leminski. Este ano, a tese de doutorado “Quatro clics em Paulo Leminski”, de Rafael Fava Belúzio, foi defendida na Faculdade de Letras da UFMG. E a 10ª edição da exposição Múltiplo Leminski entrou em cartaz em Londrina (PR), há poucos dias. Sinal de que o poeta continua a ser lido. E amado.

 

* Fabrício Marques é autor de Aço em flor: a poesia de Paulo Leminski (Autêntica, 2001) 

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