Autobiografia de Angela Davis ganha edição em português

Exemplar conta a história do ícone do ativismo pelos direitos civis nos EUA na década de 1970 e chega ao mercado em abril

por Márcia Maria Cruz 22/03/2019 09:52

 

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Angela Davis figura entre os grandes nomes mundiais do século 20. Ao lado de Martin Luther King (1929-1968), Malcolm X (1925-1965), Maya Angelou (1928-2014) e Rosa Parks (1913-2005), ela se tornou a voz e o rosto da luta pelos direitos civis nos Estados Unidos. Aos 75 anos, Angela não é apenas um símbolo aprisionado no passado, mas uma ativista atuante na luta por equidade em todo o mundo. Poucas figuras públicas tiveram participação tão efetiva como ela tem e teve em momentos emblemáticos da história contemporânea. Angela despersonaliza a discussão sobre os direitos civis em Angela Davis – Uma autobiografia. O livro, que é um clássico, foi traduzido pela primeira vez para o português pela cientista social e jornalista Heci Regina Candiani e chega ao mercado brasileiro em 5 de abril.


Ao falar de Angela é impossível não acessar as imagens icônicas do século 20. A altivez com que encarava o júri ao qual foi submetida em 1970, nos Estados Unidos, quando foi acusada de conspiração, sequestro e homicídio, tornou-se conhecida mundialmente. Intelectual, professora universitária, ativista do grupo Pantera Negra, integrante do Partido Comunista no país símbolo mundial do capitalismo, ela foi içada ao centro dos holofotes ainda muito jovem. Aos 26 anos foi incluída na lista das 10 pessoas mais procuradas pelo FBI, o Departamento Federal de Investigação dos Estados Unidos, quando foi, literalmente caçada pelos agentes repressivos. Teve a vida devassada. Sua imagem e história ocuparam as manchetes dos jornais pelo mundo.

Apesar de ser personagem central no debate público mundial, no século 20 e ainda hoje, Angela retira o foco de sua história pessoal, procurando demarcar que não se pode sobrepor a dimensão pessoal à causa coletiva, mesmo quando a vida de uma pessoa é colocada de ponta-cabeça em decorrência da causa que defende. Na década de 1970, ela integrava o movimento de libertação de pessoas presas por razões políticas e essa segue como sua bandeira, quando denuncia como o racismo estrutural faz que parte significativa da população carcerária seja formada por negros.

Na introdução à autobiografia, Angela se opôs ao lema de pares feministas que dizia que “o pessoal é político”. À primeira vista essa posição de Angela pode parecer contraditória à causa feminista da qual ela é um dos mais importantes nomes mundiais. Um dos principais lemas do movimento é “o pessoal é político”, uma posição que procura demonstrar que o que ocorre na vida privada de sujeitos de grupos minorizados precisa ser tematizado publicamente, em especial a violência e a dominação sofrida pelas mulheres no ambiente doméstico. Angela é feminista, mas, ao escrever a autobiografia faz o esforço de não personalizar a reivindicação pela igualdade de direitos.

A primeira edição da autobiografia foi publicada originalmente em 1974, e escrita quando Angela tinha 28 anos. Ela não havia passado nem por um terço de sua vida pública, mas já havia protagonizado a luta por justiça que influenciou jovens em todo o mundo. Expõe a ponderação que fez à época se deveria escrever uma autobiografia, sendo ainda tão jovem. A edição em português traz a introdução à segunda edição norte-americana, publicada em 1988. No texto, ela lembra que a autobiografia é “um importante documento de descrição histórica e de análise do fim dos anos 1960 e 1970.”

A autobiografia nos transporta para o momento em que Angela é presa, a perspectiva de quem  lutava pela libertação dos Irmãos Soledad (George Jackson, Fleeta Drumgo e John Clutchette), “que enfrentavam uma acusação fraudulenta de assassinato no interior da prisão de Soledad”, quando ela própria passa a ser caçada pelo FBI. De maneira minuciosa, ela conta as condições a que ela e outras mulheres eram submetidas na prisão e demonstra como foi construída a linha de defesa.

O livro foi editado pela professora e escritora norte-americana Toni Morrison, ganhadora do prêmio Nobel de Literatura em 1993. A própria Angela define a obra como “autobiografia política”. A narrativa não é linear. Angela retoma as lembranças na infância em Birminghan, Alabama (estado apontado pelos movimentos negros americanos como um dos mais racistas). “Aos 4 anos de idade, eu tinha consciência de que as pessoas do outro lado da rua eram diferentes, sem ser capaz ainda de associar essa natureza estranha à cor de sua pele.” Ela relata a tensão racial que existia entre os vizinhos, que mal cumprimentavam sua família. Angela relembra a história de seus antepassados, de sua avó, que nasceu pouco tempo depois da declaração de emancipação, lei assinada pelo presidente Abraham Lincoln, que abolia a escravidão, em 1863.

IGUALDADE DE RAÇA, 
CLASSE E GÊNERO


       Na autobiografia, Angela demonstra como foi sua formação intelectual na Universidade de Brandeis, com influência de nomes como James Baldwin (1924-1987), romancista e ensaísta negro, e o filósofo alemão naturalizado norte-americano Herbert Marcuse (1898-1979), importante nome da Escola de Frankfurt. Marxista de formação, Angela propõe abordagem das igualdades interseccionando raça, classe e gênero. O pensamento progressista de Angela pode ser entendido nos seus livros. A editora Boitempo publicou Mulheres, raça e classe (2016), que trata da escravidão e seus efeitos, principalmente na vida das mulheres negras, que foram desumanizadas. Outra obra é Mulheres, cultura e política, com compilação de discursos e artigos da ativista; e A liberdade é uma luta constante (2018), que reúne seleção de artigos, discursos e entrevistas realizados em vários países entre 2013 e 2015, organizados pelo militante dos direitos humanos Frank Barat.

Angela segue como voz das lutas das mulheres, negros e população carcerária. Foi uma das articuladoras da marcha das mulheres contra Donald Trump em 2017, que levou milhares de ativistas às ruas de Washington, e reverberou no movimento #Metoo. “Esta é uma Marcha das Mulheres e ela representa a promessa de um feminismo contra o pernicioso poder da violência do Estado. E um feminismo inclusivo e interseccional que convoca todos nós à resistência contra o racismo, a islamofobia, o antissemitismo, a misoginia e a exploração capitalista”, discursou na época.


TRECHO DO LIVRO

“No fim de setembro, os sinais indicavam uma perseguição mortífera e sem trégua. A mãe de David, que morava perto de Miami, contou a ele que dois homens estiveram na casa dela indagando sobre seu paradeiro. Os antigos medos ressurgiram e comecei a duvidar seriamente de que seria possível escapar da polícia sem deixar os Estados Unidos. Mas, cada vez que eu considerava ir para fora, a ideia de ficar exilada em outro país por tempo indefinido era ainda mais terrível do que a de ser trancada na prisão. Ao menos ali eu estaria perto da minha gente, perto do movimento.”



• ANGELA DAVIS – UMA AUTOBIOGRAFIA
• De Angela Davis
• Editora Boitempo
• 368 páginas
• R$ 89 (capa dura)
• R$ 58 (brochura) 
• R$ 39,90 (digital)

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