Livro de Ayobami Adebayo revela dilemas da África contemporânea

Fique comigo, romance de estreia da escritora nigeriana publicado agora no Brasil, ficou entre os melhores de 2017 nas listas do New York Times e do The Guardian

por Estadão Conteúdo 20/02/2019 07:50
Harper Collins Brasil/divulgação
Ayobami Adebayo é uma das vozes mais potentes da literatura africana contemporânea (foto: Harper Collins Brasil/divulgação)
A relação central de 'Fique comigo' – o primeiro romance de Ayobami Adebayo, jovem escritora nigeriana aluna de Margaret Atwood e premiada no Reino Unido – é um paralelo entre casamento e política. Situado na Nigéria dos anos 1980, época de golpes militares, eleições fraudulentas e disputas sociais, o livro inter-relaciona a situação instável da política com a trama potente de um casamento prestes a se despedaçar.

A protagonista é Yejide, que, depois de passar um período na universidade, decide abrir um salão de beleza – traço que aparece recorrentemente na literatura nigeriana, como os livros de Chimamanda Ngozi Adichie.

Akin, o outro personagem, narra alguns capítulos. Os dois se conheceram na faculdade e se casam. A condição de Yejide de que a relação seja monogâmica, aceita por Akin, dá o teor da união. As dissensões surgem quando eles não conseguem gerar filhos, e a família do rapaz o pressiona para que arranje outra mulher – o casamento poligâmico para o homem era norma em comunidades iorubás.

A chegada da segunda esposa e os ressentimentos que o episódio desperta são apenas alguns dos bordados que o romance passa a tecer, sempre sob o signo da mentira e, mais tarde, tragicamente, da morte.

O debate sobre o amor é a primeira camada do livro: “Então, o amor é uma prova: mas em que sentido? Com que finalidade? E quem se submete à prova? Mas acho que eu realmente acreditava que o amor tinha o imenso poder de trazer à luz tudo o que havia de bom em nós, de nos aprimorar e nos revelar a melhor versão de nós mesmos”, questiona-se Yejide.

GOLPE

Outra camada aparece na forma de Ibrahim Babangida, militar que assume o governo nigeriano em 1985, depois de um golpe de Estado, e manda executar inimigos políticos. O episódio é lembrado no livro, e a narradora cita um encontro prévio dos escritores Chinua Achebe e Wole Soyinka com o ditador, pedindo por clemência. A solicitação não foi atendida.

“Levaria anos para que outros militares questionassem as evidências com base nas quais (os adversários) tinham sido condenados. Na época, a Nigéria estava em plena lua de mel com Babangida, e, como a maioria das novas esposas, não fazia interrogatórios ainda”, revela a narradora Yejide.

O terceiro movimento do livro se faz no tempo: ao longo do romance, os personagens estão no futuro, em 2008, cerca de 20 anos depois dos acontecimentos, portanto.

A habilidade da escritora em prender todos esses fios é notável. O livro foi selecionado pelo The New York Times e pelo The Guardian como um dos melhores de 2017, ano em que foi lançado em inglês.    Em entrevista por e-mail, Adebayo se diz interessada em encontrar correspondências fora da narrativa primária. “A trajetória do casamento, definitivamente, está em paralelo com a ditadura em nível nacional. Os pontos altos e de quebra para ambos frequentemente coincidem, de propósito”, explica.

POLIGAMIA

Ayobami, de 31 anos, diz que seu país se mantém “profundamente patriarcal” – até hoje a poligamia para homens é aceita, “embora não esteja tão na moda quanto antes. Na Nigéria, as mulheres são frequentemente tratadas como apêndices, até pela lei”, lamenta a escritora. De acordo com ela, as coisas estão mudando, porém, a passos mais lentos do que o necessário.

“A literatura pode cristalizar uma experiência particular com tanta força e clareza a ponto de instigar mudanças ou pelo menos compelir uma comunidade a considerá-las. Além disso, a intimidade peculiar a que um texto convida o leitor, por várias horas ou dias vendo o mundo pelos olhos de outra pessoa, pode desafiar os preconceitos que temos sobre os outros”, afirma Ayobami Adebayo. 


FIQUE COMIGO

. De Ayobami Adebayo
. Harper Collins Brasil
. 240 páginas
. R$ 39,90
. R$ 29,90 (digital)

MAIS SOBRE ARTES-E-LIVROS