Em entrevista, Ana Miranda conta como equilibrou o talento de desenhista e escritora

'Sou uma escritora que pinta romances, e uma pintora que escreve desenhos', relata Ana Miranda, que revela ainda por que precisa de ambas as formas de expressão

por Severino Francisco 12/02/2019 08:00
ANA MIRANDA/REPRODUÇÃO
'Fest' é um dos desenhos de Ana Miranda, quem estudou a técnica na UnB, em Brasília, e no Paruqe Lage, no Rio (foto: ANA MIRANDA/REPRODUÇÃO)
Quando tinha 4 anos, Ana Miranda escreveu uma frase profética em um caderno de desenhos da escola: “Eu tenho duas mãos”. Parece uma informação óbvia, trivial e banal. Mas não é, encerra múltiplos significados na trajetória de Ana. Ela nasceu com o duplo dom de desenhar e escrever. Mas reconheceu primeiro o talento para rabiscar figuras.

No entanto, mesmo depois se tornar uma das mais importantes escritoras brasileiras modernas, autora de clássicos premiados, ela sempre desenhou. Do seu traço escorre o lirismo de bailarinas aladas, bailarinas penduradas na Lua, mulheres com flores entrelaçadas nos cabelos, figuras femininas angelicais,  eróticas, movimentos de dança, grafismos e seres nascidos do inconsciente diretamente para a mão desenhante. São figuras delicadas, sensuais, oníricas, transcendentes, poéticas e carregadas de simbolismo. Elas são híbridas, entrelaçam o humano, o animal, o vegetal e o divino. E nos levam à sensação de ser tocados pelo mistério.

Certo dia, o atilado Luiz Schwarcz, editor da Companhia das Letras, visitou a casa de Ana e divisou um desenho na parede. Não teve dúvida: pediu a ela que passasse a fazer as capas de seus livros. E o resultado foi tão bom que, em seguida, passou a ilustrar também a parte interna das obras.

A intuição do editor era certeira. Ana estava plenamente preparada para a tarefa. O talento da escritora só foi revelado mais tarde, pelos lances do acaso. Mas, muito antes, Ana estudou artes plásticas na Universidade de Brasília (UnB) dos tempos heroicos da fundação, sob a liderança de Darcy Ribeiro.

Era vizinha de Athos Bulcão, fonte permanente de inspiração. Além disso, na UnB, teve como professores Luiz Áquila e Fábio Magalhães, entre outros. Quando se mudou para o Rio, estudou com Rubens Gerschman e Ivan Serpa, dois grandes artistas brasileiros modernos.

Portanto, estava perfeitamente habilitada para encarar o desafio de elaborar capas e ilustrações dos livros. Na entrevista a seguir, Ana Miranda conta como desenvolveu e lapidou o talento da sua mão de desenhista, que extrai, de uma paisagem de sonho, lindas e poéticas figuras, muito próximas de sua ficção lírica, dramática e metafísica.

“O desenho gratifica mais; tem as cores, as formas,
é lúdico, quase terapêutico. Em meus desenhos, reconheço sentimentos inesperados, expresso minhas atmosferas interiores”

“Quando mostrei meus desenhos ao meu professor Roberto Magalhães, ele me disse que meus desenhos eram muito literários. Queria dizer, contavam uma história, ou uma situação. E sempre ouvi me dizerem que meus romances são muito visuais”

 Ana Miranda, escritora e desenhista


Vários livros seus têm desenhos de sua autoria. De que maneira você percebeu que tem talento para desenhar?
A partir do Desmundo, meus livros começaram a ter desenhos meus na capa, e as novas edições também. Um dia, meu editor, Luiz Schwarcz, que é sensível e criativo, entrou em meu escritório, viu um desenho na parede e sugeriu que fizéssemos as minhas capas com desenhos meus. E passei a fazer desenhos também para as páginas. Desenho desde pequena, tenho um desenho em que eu estaria com uns 4 anos, ou menos. É um rosto de menina com o cabelo feito de flores espetadas, tema que me acompanha toda a vida. Eu desenhava o tempo todo. Crianças, minha irmã Marlui Miranda e eu fazíamos livros artesanais com nossos poemas, cidades de papel, desenhávamos, pintávamos, e ela tocava violão, compunha, cantávamos. Vivíamos num quarto mágico, em Brasília.

Você estudou desenho na UnB com que professores?
Na UnB, estudei com o Luiz Áquila desenho de observação e desenho cego; com o Gastão Manoel Henrique estudei maquete, módulos; com o Fábio Magalhães, teoria e desenho; com o Edgard Duvivier fiz um curso de design; com o Flavio Motta, um curso de signos e sinais; e outros. Mas comecei a aprender antes disso. Athos Bulcão morava nas vizinhanças da nossa quadra, eu ia à sua casa e o via pintar e recortar papel, e queria fazer o mesmo. Na Escola Parque, fiz cursos de cerâmica, xilogravura e outros que eu escolhia. Mas fazia também biblioteca e escrevia versos, diários e cadernos ilustrados. No Rio, estudei no Parque Lage com o Roberto Magalhães e com o Rubens Gershman; e numa escola de artes, em Ipanema, com o Ivan Serpa e o Bruno Tausz. Minha formação foi toda para o desenho, porque a minha escrita era silenciosa, invisível. Diários com chave, cadernos de sonhos debaixo do travesseiro... A primeira frase que escrevi na vida foi num caderno de escola, quando tinha 4 anos: “Eu tenho duas mãos”. Uma frase profética. Sempre tive duas mãos, a mão do desenho e a mão da escrita.

Que relação existe entre desenhar e escrever em seu processo de criação?
Tenho, muitas vezes, a sensação de que estou pintando uma cena com palavras, ou, ao contrário, de que estou escrevendo um desenho. Quando mostrei meus desenhos ao meu professor Roberto Magalhães, ele me disse que meus desenhos eram muito literários. Queria dizer, contavam uma história, ou uma situação. E sempre ouvi me dizerem que meus romances são muito visuais. Li estes dias um livro do escritor Orhan Pamuk, que pintava na juventude, em que ele diz que os escritores sentem inveja dos pintores.

Como lida com a dualidade escrever e desenhar. O que a gratifica mais?
Não é muito fácil, se a cabeça está no registro da escrita eu não consigo desenhar, e quando entro numa fase de desenhar, não quero saber de escrever. Nos últimos dois anos, tenho sentido vontade apenas de desenhar. O desenho gratifica mais; tem as cores, as formas, é lúdico, quase terapêutico. Em meus desenhos, reconheço sentimentos inesperados, expresso minhas atmosferas interiores. O desenho termina logo, em dois ou três dias. Trabalhando só à noite, consigo executar um desenho elaborado, enquanto preciso de uns três anos de trabalho diário para escrever um romance. Eu consigo desenhar, mesmo cansada. A comunicação do desenho é imediata quando alguém o vê. É uma atividade que não exige racionalidade e permite a distração, o acaso. Mas o desenho não me satisfaz plenamente, preciso do desafio das palavras. A literatura é um trabalho árduo, de concentração, racional, embora dotado de magia e sacralidade. Sou uma escritora que pinta romances, e uma pintora que escreve desenhos.

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