Mostra traz obras de Paulo Nazareth criadas especialmente para BH

Orelhas de porco, que remetem ao processo de colonização de Minas, dialogam com o museu de Niemeyer

por Mariana Peixoto 23/12/2018 09:34
ALEXANDRE GUZANSHE/EM/D.APRESS
'Varal' de orelhas de porco se estende pelo salão do Museu de Arte da Pampulha (foto: ALEXANDRE GUZANSHE/EM/D.APRESS )

“Há um mundo em cada esquina”, diz Paulo Nazareth. Na semana passada, quando fez essa afirmativa ao Estado de Minas, em entrevista realizada por uma série de mensagens via Facebook, o artista mineiro, de 41 anos, estava numa esquina “de África”, como ele se refere ao continente do lado de lá do Atlântico. Mais especificamente, entre a fronteira da África do Sul com o Zimbabwe.

“Estou aqui, vendo este lado do mundo, e há um mundo acontecendo aí no Palmital. Mundo que não terei, pois ao regressar já será outro. Assim, o importante é viajar a cada instante”, afirma Nazareth.

Nascido na região de Governador Valadares e radicado no Bairro Palmital, em Santa Luzia, ele viaja como poucos. Sua incursão mais conhecida ocorreu no início desta década. Paulo foi a pé do conjunto habitacional, na periferia de BH, até os Estados Unidos. A viagem durou um ano e, entre tantos frutos, gerou a instalação Mercado de bananas/Mercado de arte – uma Kombi abarrotada de bananas –, que causou sensação na feira Art Basel Miami, em 2011. Isso projetou o nome do mineiro no circuito internacional das artes.

A atual viagem pela África – ele já passou pelo Oeste e Sul do continente; agora planeja ir até o Norte e a região central – impediu-o de acompanhar a abertura da exposição Faca cega. Em cartaz no Museu de Arte da Pampulha (MAP) até 31 de março, ela acompanha boa parte da trajetória de Nazareth nas esquinas do mundo. É também um reencontro do artista com a instituição pública municipal.

ALEXANDRE GUZANSHE/EM/D.APRESS
Instalação de Faca cega (foto: ALEXANDRE GUZANSHE/EM/D.APRESS )

Em 2005, recém-graduado na Escola de Belas-Artes da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Nazareth foi um dos selecionados da Bolsa Pampulha, programa de residência e exposição que lançou uma série de artistas.

“É muito gratificante, depois de uma longa caminhada, voltar à cidade e mostrar o que tenho carregado nesses 12 anos. Muita coisa não mudou, pois o museu continua enfrentando dificuldades financeiras – e é bom que se esteja atento a isso. Mas foi bom chegar ao prédio e ver mulheres, homens e crianças que passeiam no entorno do museu e da lagoa, cada qual à sua maneira. Os trabalhos apresentados pensam um pouco nisso, na relação da gente com o espaço, como abraçamos o lugar”, continuou.

A exposição, que ocupa todo o MAP, começou a ser pensada em abril. A curadoria é de Janaína Melo, que tem relação próxima com o artista desde a época da Bolsa Pampulha. “A proposta do museu é retomar as grandes discussões que tiveram relevância no início dos anos 2000. O processo do Paulo é sempre com muitas camadas, cuja complexidade sempre retoma o processo desenvolvido no decorrer de sua trajetória. Foram apresentadas quase 60 possibilidades de desenvolvimento de trabalhos. A partir delas, negociamos com a instituição até chegar às propostas que vão ganhando concretude no contexto da mostra”, explica Janaína.

De acordo com Nazareth, Faca cega é como um presente para Belo Horizonte. “Não queria mostrar um trabalho que esteve em Nova York, Paris, Berlim ou Tóquio. Meu desejo era fazer algo pensado a partir de BH, que fosse apresentado primeiro na cidade. Meu desejo é que Tóquio e Nova York queiram um trabalho produzido em Belo Horizonte.”

O público encontra trabalhos já concluídos, outros em processo e ainda um terceiro grupo de propostas – apresentadas nos chamados panfletos, algo com que Paulo Nazareth trabalha há muitos anos. Há desenhos, vídeos, instalações e fotografias, muitos deles criados para o contexto do MAP.

VARAL Escuta é uma instalação pensada para o MAP. Grosso modo, entrelaça, nas colunas de inox do prédio (o antigo Cassino da Pampulha projetado por Oscar Niemeyer), um emaranhado de fios com dezenas de orelhas de porco defumadas.

“É uma metáfora sobre o escutar das pessoas. As orelhas remetem a um lugar do passado, mas a algo que ainda acontece: o hábito de criar porcos no fundo de casa. Esse animal foi muito importante na colonização de Minas Gerais”, explica Nazareth.

FACA CEGA
Exposição de Paulo Nazareth. Até 31 de março. Museu da Arte da Pampulha. Av. Otacílio Negrão de Lima, 16.585, Pampulha, (31) 3277-7996. De terça a domingo, das 9h às 18h. O MAP vai abrir em 25 de dezembro e fechar em 1º de janeiro. Entrada franca.

MODERNIDADE E DECADÊNCIA
Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press
Objeto de desejo de colecionadores, Brasília está carregada de joguinhos eletrônicos (foto: Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press)

No espaço externo do Museu de Arte da Pampulha (MAP), Paulo Nazareth exibe Brasília – Jogos de azar. No automóvel amarelo, modelo que virou símbolo do “milagre econômico” brasileiro, há máquinas de jogos eletrônicos que podem e devem ser usadas pelos visitantes.

“A ideia veio da citação de um projeto que Paulo realizou no próprio MAP, em 2005. Ele desejava criar um trabalho, mas, na época, a conversa não avançou e aconteceu como uma performance informal. Agora o trabalho está lá”, diz Janaína Melo, curadora de Faca cega.

Paulo Nazareth diz que Jogos de azar “remete a esse tempo passado, ao desejo de ser moderno. Remete também ao carro feito em homenagem à cidade de Brasília, modelo que passou por um período de decadência e aos poucos se tornou carro de desejo dos colecionistas, como uma antiguidade.”
Todos os projetos que o artista desenhou estão presentes em panfletos. “Alguns vão permanecer como possibilidade artística”, diz a curadora. Entre aqueles só factíveis no papel está a ideia de construir um muro caiado, circundando o prédio do MAP, com a participação de mestres xakriabás (grupo indígena que vive em Minas). Ou, então, o panfleto que prevê levar as capivaras da Lagoa da Pampulha “para casa”, no Norte do estado.

Como a exposição ficará em cartaz por mais três meses, algumas propostas dos panfletos poderão ser executadas. Anexo, por exemplo, sugere construir um barracão em cima do prédio do MAP. “Seria um puxadinho, um barraco de tijolo como os que existem nos morros, que ficaria sobre a arquitetura de Niemeyer. Um trabalho que gera atrito, desconforto”, afirma Nazareth. Janaína informa que há negociações com a prefeitura para viabilizar a intervenção.

CASÓRIO Outro projeto é Casamento de Antônio. Trata-se do casamento, no próprio MAP, de afrobrasileiros residentes no Bairro Palmital. Na celebração, serão servidos tropeiro, feijoada e uma bebida produzida a partir do milho.

O casório está previsto para o encerramento da exposição. “Ainda precisamos negociar com os potenciais noivos”, comenta a curadora. No fim de fevereiro, Paulo Nazareth volta a Minas, justamente para celebrar essa união.

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