Centro de Arte Popular abre a exposição Artur Pereira com 50 esculturas

Mostra Fauna e fé celebra a relação com a natureza e sua tradução em formas singulares

por Pablo Pires Fernandes 05/12/2018 08:00
Pedro Motta/Esp. para o EM/D.A.Press %u2013 26/6/00
(foto: Pedro Motta/Esp. para o EM/D.A.Press %u2013 26/6/00)

Antes de se tornar artista, Artur Pereira (1920-2003) trabalhou na lavoura, foi lenhador, carvoeiro, pedreiro e carpinteiro. Passava dias no mato e, certa vez, dormindo em uma cabana improvisada, uma onça caiu do telhado sobre ele. Os dois se assustaram e o animal fugiu para o mato. É possível especular que a experiência lhe marcou e, provavelmente, foi determinante para que a figura do felino se tornasse recorrente nas esculturas que passou a criar.


Artur Pereira nasceu e morreu em Cachoeira do Brumado, pequeno distrito de Mariana (MG), e foi lá que ele se descobriu artista, entalhando animais, presépios e cenas cotidianas em cedro. A vitalidade e a potência das esculturas de seu Artur o tornaram admirado por diversos colecionadores e artistas até que seu trabalho ganhou dimensão e reconhecimento nacional.


A grandeza da obra desse artista poderá ser apreciada pelo público em Belo Horizonte na exposição Fauna e fé, que tem abertura amanhã, às 19h, no Centro de Arte Popular Cemig. A mostra reúne 50 trabalhos, todos de colecionadores mineiros, e teve curadoria de Antônio Carlos Figueiredo e Tadeu Bandeira. A preciosa seleção tem esculturas de um vasto período, da década de 1970 até o fim dos anos 1990, o que permite ao espectador observar diversos elementos que caracterizam a obra do artista.

BARROCO
A síntese formal e o uso constante de um único bloco de madeira no qual entalhava suas formas é aspecto singular do trabalho de Artur Pereira. As peças isoladas se contrapõem a colunas, presépios e galhadas (algumas delas representando caçadas). De um lado, a clareza formal nas peças de inteireza “inviolável”, apontada pelo crítico Rodrigo Naves, que constitui uma “dimensão interna da forma escultórica”. De outro, os trabalhos em colunas, que remetem diretamente ao Barroco, cultura na qual o artista está inserido pela proximidade e contato com a rica herança em Mariana e Ouro Preto.

O artista Ricardo Homem, responsável pela curadoria da retrospectiva de 2009-2010 no Instituto Moreira Salles, destaca essa presença do Barroco nas peças de Artur Pereira. “A vida inteira ele viu as colunas das igrejas, as coisas da movimentação do Barroco e traduziu isso nas composições com os bichos”, observa. O curador aponta também a forma curva e contorcida dos animais, em que rabos e galhos formam volutas típicas da composição barroca.

O movimento dos animais, a circularidade das colunas, que estabelecem ritmos de presença e ausência nos vazados da madeira, a expressividade dos bichos, que demonstram altivez e certa nobreza, refletem a capacidade única de Artur Pereira lidar com o que o cercava e traduzir em formas. O vigor das esculturas desse artista causou espanto em Tunga e fez Amilcar de Castro afirmar que o homem de Cachoeira do Brumado era um artista muito melhor do que ele. Pela capacidade de inventar um universo telúrico próprio, como assinala José Alberto Nemer, a obra de Artur Pereira é de uma potência artística digna dos grandes escultores brasileiros. De sua pequena Cachoeira do Brumado, mostrou sua aldeia e se tornou universal.

ENTREVISTA// JOSÉ ALBERTO NEMER
Artista, professor e crítico de arte

“É uma celebração da natureza”

Natural de Ouro Preto, o professor e artista José Alberto Nemer foi, provavelmente, o maior responsável pela divulgação da obra de Artur Pereira. Com olhar atento à cultura do povo, suas tradições e reconstruções simbólicas, Nemer se encantou com uma escultura de seu Artur à primeira vista. O encanto se traduziu em uma amizade de vida toda e lhe inspirou aprofundar a pesquisa que resultou, entre outros trabalhos, na tese de doutoramento Artes plásticas em Minas Gerais: seis artistas e suas fronteiras estéticas, defendida na Universidade de Paris 8, em 1979. Nesta entrevista ao EM, Nemer fala sobre a obra do mestre de Cachoeira do Brumado.

O senhor foi um dos primeiros a ter contato com a obra de Artur Pereira, ainda na década de 1960. Como foi essa descoberta?
Em fins da década de 1960, numa loja de artesanato de Ouro Preto, eu e minha amiga Lilli Correa de Araújo vimos duas aves com as asas abertas, esculpidas em madeira. Eram diferentes de tudo que aparecia por ali. Compramos as peças e fiquei sabendo que eram de um “artesão” (como o tratavam na época) de Cachoeira do Brumado. Fui até lá e conheci o Artur Pereira. Fiz encomendas de outras esculturas. Quando vi os bichos que ele passou a criar, não tive dúvida de que era um artista nato. Ele não tinha muito tempo para criar, pois ganhava a vida fazendo gamelas e embocando telhados. Não dava para deixar dormir aquele talento. Fizemos então um pacto: eu lhe garantiria a renda correspondente às suas outras atividades, desde que ele se dedicasse só às esculturas. Por puro entusiasmo, acabei fazendo um trato impensado, pois era jovem e também dava duro para me manter. Mas acabou dando certo, ele produzia, eu comprava e levava amigos que compravam. Com isso, cheguei a ter dezenas de esculturas de Artur, com que presenteava  os amigos, aqui e no exterior. Um dia, o Artur fez a escultura de um presépio. Peguei o autor com sua obra, entramos num velho fusca que eu tinha, e fomos de Cachoeira do Brumado até a Fundação de Arte de Ouro Preto (Faop) para inscrevê-lo no primeiro concurso que a Faop promoveu. Ganhou o primeiro prêmio. Mari’Stella Tristão, crítica de arte do Estado de Minas e que tinha participado do júri, dedicou-lhe uma matéria. Começava aí a visibilidade de seu trabalho.

Sua tese de doutoramento aborda a arte popular brasileira. Como artista e professor, como o senhor vê as singularidades e especificidades desta produção no Brasil?
Principalmente a partir do Modernismo, assistimos no Brasil a uma busca por identidade cultural. Muitos artistas, digamos, intelectualizados, passaram a incorporar em suas pesquisas uma preocupação com nossas raízes, tanto na música como no cinema, no teatro, na literatura, nas artes plásticas. A essa questão que inquieta os intelectuais, a arte popular já responde espontaneamente. Seu aspecto genuíno e sua qualidade estética garantem à produção popular uma cara brasileira. Vivo mergulhado na arte popular desde sempre, não só por essas razões, mas pela surpresa que costuma trazer. O interesse do circuito mais amplo de arte pela produção popular é fenômeno recente. Equivocadamente, considerava-se o artista outsider um artesão, como se sua obra não tivesse autonomia poética. Felizmente, muitos dos artistas ditos populares já estão hoje definitivamente incorporados ao panorama da arte brasileira.

No aspecto temático, é notória a relação do trabalho de Artur Pereira com a vida rural e a natureza. Como o senhor vê o processo de representação do cotidiano, bastante singular, na obra dele?

Com as premissas contemporâneas, há uma tendência do homem do campo em se desenraizar, num claro processo de deculturação. Frequentemente, ele perde suas raízes e não as substitui por outras ou – o que é mais duro – adota outras, alheias ou bastardas. Artur Pereira é o exemplo raro de um artista que viveu e criou toda uma obra a partir de sua experiência rural. Além do mais, era um homem de tocante integridade moral e profundamente adaptado ao seu meio ambiente e à comunidade à qual pertencia. A força e a originalidade de seu trabalho mostram isso.

Como vê o aspecto religioso na obra do artista?

Essa perfeita adaptação ecológica de Artur Pereira incluía, claro, a prática religiosa. Católico, ia à missa e participava dos ritos e das festas. Apesar de ter feito várias esculturas representando o nascimento de Jesus, sua obra ultrapassa a representação cristã. É uma celebração da natureza.

Em termos formais, é possível identificar elementos barrocos reinventados em composições escultóricas bastante próprias. Como o senhor situa os aspectos formais da obra de Artur Pereira?

Em sua aparente singeleza, a obra de Artur Pereira encerra uma grande complexidade estética. Ela é síntese de um imaginário telúrico. Tendo nascido e vivido num vilarejo do Ciclo do Ouro, há também formas “bebidas” nas igrejas antigas que ele frequentou ao longo da vida. Um tronco esculpido por Artur Pereira, carregado de frutas, aves, bichos, não teria nascido daquelas colunas salomônicas que ostentam os altares barrocos? Outro exemplo: em seus presépios, a manjedoura que abriga o Menino é, ao mesmo tempo, uma gruta rústica e um nicho de oratório, encimado por um arco colonial. Onde, nos altares, se vê o pelicano, Artur coloca o galo. É um artista que bebeu na natureza e reinventou-a na arte.


ARTUR PEREIRA – FAUNA E FÉ
Centro de Arte Popular Cemig (Rua Gonçalves Dias, 1.608, Funcionários, (31) 3222-3231). Terças, quartas e sextas, das 10h às 19h; quintas, das 12h às 21h; sábados, domingos e feriados, das 12h às 19h. Entrada franca. Até 6 de março.

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