Adriana Versiani dos Anjos lança hoje 'Arqueologia da calçada' e a plaquete 'Farmacopeuma'

"A poesia dessa poetisa de alta voltagem parece estar sempre sob esses mistérios da criação poética, dos quais a crítica às vezes consegue chegar perto para uma avaliação mais criteriosa"

por Mário Alex Rosa* 01/12/2018 06:00
Fernanda Bombonato/Divulgação
A poeta mineira expressa em seus poemas a experiência da perda (foto: Fernanda Bombonato/Divulgação)


Adriana Versiani dos Anjos é formada em nutrição. Como nutricionista trabalhou por muitos anos em políticas públicas, na área da saúde pública, cuidando (socialmente) dos mais necessitados. Mas além dessa qualidade, ela escreve, e como escreve. Nos seus textos fica evidente que estamos diante de uma poetisa que tem uma compulsão forte para a escrita. É autora de diversas publicações (plaquetes), digamos mais clandestinas, com textos em revistas e jornais e diversas participações em leituras públicas. Aliás, é uma excelente intérprete de poesia. Como se sabe, ler poesia ao vivo é tarefa para poucos. Adriana é um deles. Outro lado da poetisa é que sempre trabalhou e pensou o coletivo como forma de dialogar com a diversidade. Ao lado do poeta bissexto e seu companheiro Camilo Lara – falecido precocemente –, Adriana Versiani continuou a abraçar as palavras como quem abraça a felicidade clandestina.

Com um belo projeto gráfico da designer Glória Campos, Arqueologia da calçada – primeiro livro de Adriana publicado por uma editora, conta ainda com uma delicada plaquete, Farmacopeuma, editada pelo poeta Ronald Polito. É louvável que essa plaquete venha encartada como brinde para quem adquirir o livro. Mas não só isso. Na verdade, a poetisa, em comunhão com sua trajetória, não poderia deixar de fora mais uma publicação alternativa. Hoje, a partir das 11h30, a autora lança os dois volumes na Terra Boa Paisagismo, no Belvedere.

Arqueologia da calçada solicitará dos leitores um respirar lento, muitas pausas, pois será inevitável não retornar a certas passagens de rara beleza e ficar em silêncio pensando sobre versos como estes: “o que me falha é você”, “a vida é uma linguagem que acontece no tempo”, “nenhuma trajetória/ é mais urgente/ que essa dor”, “memória é lâmina”, “pague essa dívida/ que tem comigo”, “amanheci com a palavra ‘viúva’ espetada na córnea/ e neve pesando na pálpebra”.

No entanto, a poesia da Adriana Versiani parece lutar contra o silêncio, pois quanto mais sua poesia silencia, mais ela parece solicitar um tom alto, um grito para acordar as palavras em estado de dicionário. Essa necessidade vem com a tenacidade que deseja colocar em cada palavra; talvez por isso alguns poemas aparentem uma descontinuidade dado o volume de informações com que a autora, na sua voracidade, rebela e explode a estrutura do poema. Talvez seja bom ler esses poemas em voz alta, pois assim quem sabe poderemos ouvir a voz dessas arqueologias com que a poetisa observadora de imagens, sons e ruídos externos e internos nos convida à lucidez das palavras.

Das três partes: “Chove”, “O professor” e “O hóspede”, o segundo parece que tem um maior impacto quando a autora cria um diálogo imaginário com um professor, um professor que também foi poeta. Estamos diante um único poema de fôlego, mesmo aparentemente dividido em outros, como se as partes fossem sempre se somando num todo. Não deixa de ser curioso que algumas criações advêm de um resultado catártico, porém, em mãos pacientes, forma e sentido se equacionam sem perder a beleza daquele primeiro momento, digamos, intuitivo.

A poesia dessa poetisa de alta voltagem parece estar sempre sob esses mistérios da criação poética, dos quais a crítica às vezes consegue chegar perto para uma avaliação mais criteriosa. A experiência da perda nunca se completa e sempre faltará algo que possa fechá-la. Em “Chove”, primeira parte do livro, não é o passado que se busca, mas um constante presente, e de maneira contínua, pois a perda parece nunca terminar, sentimento expresso em Tarja preta, A caixa, Na sequência da dor, e no belo e doloroso O que restou da noite”.

Há também as personas (Jandira, Guiomar, Ângela) criadas para quem sabe diminuir as dores do Diário de A, poema que remete a outra persona da poetisa. Independentemente dessas nomeações, de tentar se colocar em condições menos trágicas, todos esses poemas confirmam a maturidade da escritora. E não só, pois diante desse processo vertiginoso, Adriana ainda emplaca a plaquete Farmacopeuma, como se aqui as doses de remédios cavalares fossem uma tentativa de se curar pela poesia. O dilema será sempre até quando conseguirá remediar o fluxo dessa escrita marcada pela dor? O tempo da poesia é duradouro. Enquanto isso, seria importante reeditar as antigas plaquetes, mas em livro, pois assim, quem sabe, mais leitores terão oportunidade de conhecer a poesia de Adriana Versiani. *Especial para o EM


ARQUEOLOGIA DA CALÇADA E FARMACOPEUMA
• De Adriana Versiani dos Anjos
• 2 Linhas Editora
• 72 páginas
• R$ 40

LANÇAMENTO

Hoje, das 11h30 às 15h30, no Terra Boa Paisagismo (Av. Paulo Camilo Pena, 432, Belvedere).

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