Historiador Leandro Karnal lança livro sobre solidão nesta sexta (30), em BH

'Ficou deselegante não ser alegre', afirma o escritor, que vem à capital mineira para sessão de autógrafos na Livraria Leitura do Pátio Savassi

por Walter Felix 29/11/2018 08:00

R. Trumpauskas/Divulgação
Falas de Karnal se popularizaram durante o período eleitoral (foto: R. Trumpauskas/Divulgação)

 

"Convivemos com uma enorme dificuldade de ouvir o contraditório.  maioria adjetiva aquele que pensa diferente e não escuta o que ele tem a dizer. Espero que passe esse momento, marcado não só pelo ódio, mas também pela burrice. Há muita gente burra dominando os debates, manifestando suas opiniões”
. Leandro Karnal, escritor e historiador

 

O historiador e pensador contemporâneo Leandro Karnal lança O dilema do porco espinho – Como encarar a solidão, pela Editora Planeta. Na publicação, o autor não encara o sentimento humano como “o mal do século 21”, como definido por alguns. Ao contrário, busca entender prós, contras e sua importância para o amadurecimento de cada um. Nesta sexta (30), Karnal apresenta o novo livro e participa de sessão de autógrafos, em BH.

“A solidão é um sentimento histórico, como o afeto, a esperança e toda expressão humana. Meu intuito é sempre pensar o comportamento humano historicamente”, define Karnal, em entrevista ao Estado de Minas. “Todos já tivemos momentos solitários, que por vezes foi angustiante, por vezes foi muito bom. Minha tentativa é entender o que faz isso ocorrer e como funciona.”

O escritor nota que a solidão se tornou tabu nestes tempos em que o certo é compartilhar apenas momentos felizes nas redes sociais. “Ficou deselegante não ser alegre. Hoje, a alegria é obrigatória, mas essa regra não encontra a realidade. Não à toa, nunca colocamos tanto a nossa vida na internet, nem consumimos tantos remédios antidepressivos como agora”, aponta.

Segundo Karnal, é necessário entender como este e outros sentimentos difíceis, como o luto, são essenciais para a percepção da felicidade. “Só quem já perdeu alguém querido tem qualquer possibilidade de valorizar quem está ao lado. É essencial reintegrar a dor e a melancolia no processo vital. Se você vive sempre assim, é um problema. Se você evita esses momentos a todo custo, temos outro problema.”

A arte, em diversas linguagens, reflete a negação contemporânea do sofrimento. “Não gostamos sequer da representação da tristeza. Ninguém compra, em uma galeria, um quadro triste para decorar a parede de casa, por exemplo. No filme de ação, a tristeza deve ser apenas uma etapa pela qual o herói passa, antes de chegar, ao final, à redenção com a felicidade”, aponta Karnal.

Em outros tempos, como no século 19, ele nota como a dor era face da dignidade, a exemplo da peça clássica Romeu e Julieta, de William Shakespeare, e do quadro Saudade, do pintor brasileiro Almeida Júnior.

ESPINHOS  O título O dilema do porco espinho faz alusão ao animal que, isolado, passa frio. Quando busca o calor junto a um semelhante, seus espinhos os perfuram. Assim como o homem, o porco-espinho sofre com a solidão, mas nem sempre é capaz de lidar com o estar acompanhado. O estar só, aliás, pode ocorrer mesmo quando se tem alguém por perto. Ao longo do livro, Leandro Karnal usa referências filosóficas e religiosas em um mergulho por esse sentimento universal, analisando-o na contemporaneidade e na história da arte.

Ele observa a frequência com que a solidão é usada como punição, tanto para detentos em uma penitenciária quanto na tentativa de educar uma criança. “Quase nenhuma criança tem vida interna suficiente para viver sem acesso a recursos ou muletas. Nesses casos, em que fica só e também é privada de brinquedos, videogame ou TV, ela é confrontada com o vazio”, observa.

Ainda que experiência, como o castigo durante a infância, leve a uma dificuldade em assimilar a solidão na maturidade, Karnal se furta em problematizar esta forma de punição. “O próprio questionamento sobre a possibilidade de esse castigo ser prejudicial à criança já traz embutida a desconfiança de que seja possível uma felicidade plena. Ser educado provoca traumas. Os traumas constituem a personalidade do indivíduo. Se os pais evitam um determinado trauma para o filho, só mudarão o motivo pelo qual ele irá ao psicólogo”, defende.

DEMOCRACIA Falas e textos de Leandro Karnal se popularizaram durante o período eleitoral. Além das palestras, em que se debruça sobre anseios e falhas humanas, o pensador propôs, em seus vídeos, um olhar crítico para o cenário político brasileiro. Pôde ser visto, por exemplo, em defesa da democracia, posicionando-se contra os discursos de que pediam a volta de um regime ditatorial no Brasil.

A má interpretação da audiência lhe rendeu críticas e ataques verbais. “Descobri que não importa o que eu diga, terei inimigos. Se disser que os ipês estão florindo, vão dizer que estou fazendo uma manifestação pró-Bolsonaro, porque os ipês são verde e amarelo e meu discurso é nacionalista. Se disser que não estão florindo, outros vão entender que estou acusando o PT de ter roubado os ipês”, ironiza.

“Isso faz me sentir liberto, porque de qualquer forma as pessoas vão se apropriar e fazer a leitura que querem”, avalia Karnal. A incapacidade de parte da população em enxergar o Brasil para além da polarização partidária é um sintoma do que ele define como “burrice contemporânea”.

“Convivemos com uma enorme dificuldade de ouvir o contraditório. A maioria adjetiva aquele que pensa diferente e não escuta o que ele tem a dizer. Espero que passe esse momento, marcado não só pelo ódio, mas também pela burrice. Há muita gente burra dominando os debates, manifestando suas opiniões. Recomendo sempre que, antes de se manifestar sobre qualquer assunto, o indivíduo leia, estude e entenda o argumento do outro. Entenda o que ele diz e que o mundo não tem só A e B. O contrário é essencial para a democracia.”

 

O DILEMA DO PORCO ESPINHO – COMO ENCARAR A SOLIDÃO
. De Leandro Karnal
. Editora Planeta
. 192 páginas
. R$ 36,90
. Sessão de autógrafos na sexta-feira (30), às 19h, na Livraria Leitura do Pátio Savassi. Av. do Contorno, 6.061, Savassi. (31) 3288-3800. Entrada franca.

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