Estado de Minas acompanha a rotina de um circo de porte médio e outro pequeno na RMBH

Tradição familiar circense é tema do filme que o Brasil inscreveu ao Oscar. Estreia será na próxima quinta

por Ana Clara Brant 11/11/2018 09:30

(foto: Leandro Couri/EM/DA Press )
(foto: (foto: Leandro Couri/EM/DA Press ))

Igarapé e Ibirité – O céu é de lona. O chão, de estrelas. No século 21, a milenar arte do circo ainda encanta o “respeitável público”. Na próxima quinta (15), chega aos cinemas O Grande Circo Místico, longa de Cacá Diegues que o Brasil indicou como seu representante na corrida pelo Oscar de melhor filme estrangeiro. Inspirado no poema de Jorge de Lima e com músicas de Chico Buarque e Edu Lobo, conta a história de uma família circense. Mas circo não é coisa só de cinema.

O Estado de Minas acompanhou o trabalho de duas companhias que estão rodando a Região Metropolitana de Belo Horizonte. De um lado, o Castelli, circo de porte médio, com 25 artistas e capacidade para receber público de até 750 pessoas. De outro, o Fantástico Circo Show, com estrutura bem menor – 12 artistas e lotação de 200 espectadores. Em comum, ambos têm a paixão pelo que fazem. “Estou no picadeiro desde a barriga da minha mãe, que ainda atua como atiradora de facas. Só saí do circo quando me casei, mas, depois que me separei, acabei voltando. Adoro essa minha vida”, diz Jaqueline Souza, de 44 anos, locutora, apresentadora e ensaiadora do Circo Castelli.

Como a maioria dos picadeiros, o Castelli tem origem familiar. O nome é alusão ao sobrenome artístico do ator Henri Castelli, que, na verdade, se chama Henri Lincoln Fernandes Nascimento. “A mãe dele é irmã do meu avô. Ele é nosso primo e nos autorizou usar o nome e a imagem dele. Originalmente, a gente se chamava Grande Dallas Lincoln Circo. Mudamos há uns 15 anos, quando assumi”, conta a gerente do Circo Castelli, Flávia Cristina de Souza Lincoln, de 32 anos, que, aos 3, já se apresentava como contorcionista.


Flávia aprendeu as artes circenses em parte com parentes e em parte no método autodidata. Debaixo da lona, ela já fez malabares, mágica e trapézio. Depois do nascimento de Maurílio Júnior, seu segundo filho, há oito meses, Flávia está encarregada somente da parte administrativa. “Amo o que faço. Tem que ter muito amor pela arte, porque não é fácil a gente sobreviver no meio de tanta concorrência, ainda mais com essa revolução digital que vivemos. Só o amor explica a sobrevivência do circo”, diz ela.

Nas últimas semanas, a sede do Castelli foi a cidade de Igarapé, a 50 quilômetros de Belo Horizonte. O circo conta com boa divulgação, por meio de cartazetes e carros de som, e costuma ter presenças especiais em seus espetáculos, como a do trapalhão Dedé Santana. Aos números tradicionais de malabarismo, contorcionismo, mágica e palhaços, o Castelli acrescenta apresentações de personagens queridos da criançada, como Masha e o Urso, Transformers, Homem Aranha e Patrulha Canina.

DISPUTA Tia de Flávia, Jaqueline Souza faz tanto sucesso junto ao público que, após os espetáculos, costuma dar autógrafos e tirar selfies. Para ela, um dos aspectos mais interessantes do circo é seu formato circular, que torna todos iguais. “Somos um só. Você olha e está todo mundo no mesmo plano. Ninguém é melhor do que ninguém. Desde o batedor de estaca, passando por quem se apresenta, até chegar ao gerente. Está todo mundo, literalmente, no mesmo plano, no mesmo patamar. Se um faz sucesso, todos fazem. Não tem disputa”, defende.

Além de anunciar os números no palco, Jaqueline desenvolve há anos um trabalho social com o circo, ensinando técnicas circenses a adultos e crianças. “Tem quer ser multiplicador de público, mas também multiplicador de artistas. Isso é importante, difundir o conhecimento”, argumenta. Ela, que quase nasceu sob uma barraca de lona – “foi por poucos minutos” – é mãe de um dos principais chamarizes do Castelli, Kelvyn Koppe, de 19, ou melhor, o palhaço Bombrilzinho. O nome de guerra é homenagem ao avô, já falecido, o palhaço Bombril, com quem o neto chegou a se apresentar.

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(foto: Leandro Couri/EM/DA Press )

Com o lema “Alegria da criança é o sorriso do palhaço. E vice-versa”, Kelvyn não entra no picadeiro sem fazer suas orações. “Sou cristão e não consigo ser um bom palhaço sem Deus na minha vida. O dom vem dele, e entrego em suas mãos.” Ele chegou a atuar como jogador de vôlei, mas o circo falou mais alto e há pelo menos três anos ele faz do Castelli a sua casa e o seu ganha-pão.

“Falam que o circo é a mãe de todas as artes, porque ele tem teatro, dança, humor, emoção, gargalhada, suspense. O circo hipnotiza as pessoas e mexe com todos os sentidos do ser humano. É completo. Circo é alegria e gratidão, porque não tem nada que me deixa mais feliz do que deixar o outro feliz”, diz. Embora leve uma vida muito diferente da maioria dos jovens de sua idade, Kelvyn diz não ter do que reclamar. Muito pelo contrário. “É como se fosse uma empresa. Você tem o horário de trabalhar e o de ir embora. Só que, no nosso caso, saio do serviço, e a minha casa é aqui do lado. É um trailer. Fora do meu trabalho, vou ao shopping, ao cinema. Tem gente que namora pessoas do próprio circo, outros arrumam até casamento fora e abandonam o picadeiro ou trazem a esposa ou marido junto. Tudo é normal. A diferença é que, de 15 em 15 dias, estamos morando em uma cidade diferente”, explica.

A vida nômade é um dos aspectos que mais fascinam Jéssica Luiza, de 25, que também é de família circense – ela nasceu quando os pais trabalhavam no Circo do Beto Carreiro. Hoje aposentada do picadeiro, a mãe de Jéssica vive em Uberlândia. “Estou tão acostumada com meu trailer que, quando vou para lá, estranho tudo. Gosto do meu cantinho e do jeito que vivo”, diz a artista, cujo namorado também atua no Castelli, só que nos bastidores. “É normal a gente se relacionar com quem a gente trabalha, ainda mais no circo, onde ficamos grudados dia e noite”, diz ela. No picadeiro, Jéssica se desdobra entre a lira (uma espécie de bambolê em que executa acrobacias aéreas) e a força capilar (número em que realiza evoluções suspensa pelo cabelo). “Minha vida é essa e não tenho do que me queixar. Nem sei dizer do que mais gosto. Mas acho que não me adaptaria a outro estilo. Para você ter uma ideia, vamos ter folga no réveillon, mas a maioria decidiu viajar junto e ir para Santa Catarina”, diz.

A base e a origem do Circo Castelli são o estado de São Paulo, de onde vem também maior parte dos seus integrantes. Mas há pelo menos três anos o Castelli roda Minas Gerais. O elenco incorporou artistas mineiros e conta também com estrangeiros, como o venezuelano Darwin Diaz, de 33. Há oito ele trocou a faculdade de serviço social em Caracas pelo picadeiro.

“Minha família não é de circo. Mas parecia que eu tinha que seguir um chamado. Sempre foquei nessa área humana e, quando descobri os malabares, não teve jeito”, conta. Em princípio, seus pais não foram muito favoráveis à escolha e se preocuparam com o futuro de Darwin. Ele chegou a se graduar em artes circenses na Argentina.  De circo em circo, acabou no Brasil.

“Hoje, meus pais aceitam, porque sabem que faço o que gosto e sou feliz. Já conheci vários lugares do mundo com o circo. Acho que esse é um dos lados mais interessantes dessa profissão. A cada dia estamos num lugar, conhecemos culturas, hábitos e comidas diferentes”, diz Darwin, que se especializou em diabolô, brinquedo originário da China que lembra um ioiô. “Tem que ter muita dedicação. Mas é fascinante. Consigo fazer centenas de manobras com esse aparelho, e a plateia adora.”

CIRCO CASTELLI
Até 25/11, na Avenida Francisco Firmino de Matos, em frente ao Tradição da Roça, Contagem. De segunda a sexta, às 20h30. Sábados e domingos, às 18h e às 20h30. Ingressos: R$ 5 (crianças) e R$ 10 (adultos). Mais informações: (37) 99969-6056.

O pequeno circo místico

 
Mesmo com estrutura precária, os artistas do Fantástico Circo Show não deixam a peteca cair, em nome de seu amor pelo picadeiro. Na segunda-feira passada (5), eles aguardavam o público, que não veio. “Acho que pelo fato de ter sido feriado, ter chovido demais (a lona estava até com furos causados pelo granizo), as pessoas desanimaram”, dizia o dono do Fantástico Circo Show, Waldir Braga, de 55 anos. “Hoje em dia, está muito mais difícil sobreviver de circo. A luta é grande.”.

Foi por acaso que Braga entrou nesse ofício. Quando tinha 16 anos, ele foi a uma apresentação do Circo de Moisés – O rei do pedal. Como o porteiro havia faltado, o espectador adolescente foi convidado a substituí-lo. “Entrei e fui ficando. Parece que eu já sabia tudo. Brinco que devo ter algum antepassado no circo para gostar tanto e saber fazer tanta coisa”, diverte-se. Waldir ficou oito anos com o Circo de Moisés, até que decidiu tomar outro rumo. Criou seu próprio circo e também um personagem, o palhaço Pimentão. “Sempre fui muito tímido e costumava ficar bem vermelho. Daí o apelido. É impressionante como o palhaço ainda segura a plateia. Claro que todo mundo adora trapézio, contorcionismo, globo da morte, mas ele é a alma do circo”, afirma.

A trajetória do Fantástico Circo Show se relaciona com a Região Metropolitana de Belo Horizonte. Atualmente, a trupe se apresenta na Vila Pinho, no Barreiro. Braga diz que a pluralidade de oferta no setor de entretenimento obriga os circos de menor porte a criar diferenciais e investir em divulgação para garantir sua sobrevivência no mercado. “Circo hoje é sinônimo de investimento. Se não divulgar, não tem jeito. Nossa batalha é muito mais difícil do que você possa imaginar. Mas o que a gente não faz para conquistar um sorriso?”, declara ele ao lado do neto, Ícaro, de 13 anos. “Sempre quis ser artista de circo. O Waldir não é meu avô de sangue, mas a gente tem uma ligação muito forte e um amor pelo picadeiro. Sou o palhaço Furrequinha desde os 4 anos e não sei explicar essa paixão”, diz o garoto.

Há pouco tempo fazendo parte da trupe de Waldir, o uruguaio Mario Baracos também não tem o picadeiro no DNA. Nascido em Rivera, aos 18 anos e sem enxergar uma opção profissional, ele buscou uma ocupação no circo. Inicialmente, ajudava na montagem da lona. “O circo foi embora, e eu fui junto. Fui experimentando algumas coisas, aprendendo com os outros e minha primeira atividade como artista foi domador de tigres e leões. Isso tem muitos anos, mas até hoje tenho as marcas dos dentes e das garras dos felinos pelo corpo”, afirma, mostrando as cicatrizes. Com a proibição de animais no picadeiro, Mario teve que procurar outra atividade. “Sempre aprendi tudo muito rápido, até porque tinha interesse. Mudei-me para a Argentina e lá descobri a pirofagia (arte de manipular, engolir e cuspir o fogo). Estou nisso desde então.”



CARISMA Quando o circo em que atuava se mudou para o Brasil, o uruguaio veio junto. Ficou entre idas e vindas durante vários anos, mas há cinco se fixou no Brasil e se casou com uma brasileira, Rosely, de 47. A enteada Itauana Pereira, de 12, passou a ser sua filha e aprendiz. “Ela tem talento, capacidade e carisma para a coisa”, avalia. Há aproximadamente um mês, a família enfrenta um problema com o trailer em que mora. O motor fundiu, e o concerto está estimado em R$ 8 mil, quantia de que eles não dispõem no momento.

Para se deslocar, o casal paga o guincho, que varia entre R$ 300 e R$ 500. “É a minha casa e o meu trabalho que, literalmente, tenho que carregar. A gente vai sobrevivendo, mas qualquer ajuda é bem-vinda para consertar o trailer. Não é nada fácil ser artista de circo. É uma paixão que a gente não explica. Apesar dos problemas, quando estou no picadeiro, é mágico”, diz.

Itauana, que tem se exercitado nas argolas e na lira, diz que não quer outra vida e não se arrepende de ter abandonado a cidade onde morou durante a vida toda, Guará, no interior paulista, e seguido a mãe e o novo pai. “A gente conhece novos lugares, faz novas amizades, até porque sempre estamos mudando de escola (uma lei obriga as escolas públicas e particulares a garantir vagas aos filhos de profissionais que exerçam atividades artísticas itinerantes, como as circenses). Ser artista circense é o que mais quero na vida. Circo significa alegria, amor e família”, diz ela.

O baiano Marcelo Teixeira, de 30, se lembra de, ainda bem moleque, estar debaixo da lona,  acompanhando os espetáculos. Conhecido como o palhaço Mobilete, há um ano ele veio de Porto Seguro (BA) para Minas Gerais com a esposa e os três filhos do casal. Hoje, faz parte do Fantástico Circo Show. “Todo mundo virou artista do picadeiro. Claro que não é fácil sustentar a família com circo, mas é do que a gente gosta. Quando vou para a Bahia, para a praia, sinto um comichão e quero logo ir para a estrada. Minha casa é o circo. Somos felizes assim. É só abrir as cortinas que todos os problemas ficam pra trás”, afirma.

Fantástico Circo Show
Até 18/11, na Vila Ecológica, ao lado do Conjunto Águas Claras, na Vila Pinho, Barreiro. Sexta, às 20h30. Sábados e domingos, às 18h30 e às 20h30. Ingressos: R$ 5 (crianças) e R$ 10 (adultos). Aceita cartão de crédito e débito. Mais informações: (31) 98564-2203

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