Crise? Livraria mineira projeta crescimento de 8% nas vendas em 2019

Presidente da Leitura explica como pretende atingir a meta em um cenário de fechamento de livrarias e pedidos de recuperação judicial

por 02/11/2018 23:03
CLAUDIO CUNHA/DIVULGAÇÃO
(foto: CLAUDIO CUNHA/DIVULGAÇÃO)

O mercado livreiro e editoral encara o reflexo de uma crise econômica que há uma década afeta todo o varejo. Nas últimas semanas, duas gigantes da área deram mostras do tamanho do rombo. A Livraria Cultura pediu recuperação judicial, com uma dívida milionária a bancos, editores e outros credores. A Fnac, pertencente à Cultura, encerrou suas atividades em comércio eletrônico. Já a centenária Saraiva anunciou o fechamento de mais de 20 lojas em todo o país.

Correndo por fora, a mineira Leitura expande seu espaço de atuação e deve contar com três novas unidades em São Paulo até o fim de 2018. O presidente da rede, Marcus Teles, afirma que a precaução foi fundamental para encarar os dias difíceis. “A Leitura se preparou bem antes de a crise chegar ao Brasil. Assim que vimos sua deflagração na economia americana, em 2008, com tantas livrarias com dificuldade por lá, resolvemos que não nos endividaríamos, mantendo o caixa sempre positivo”, diz o empresário. “Atualmente, nossa dívida em empréstimos representa um terço do valor que temos aplicado”, revela.

Além de manter sob estrito controle o volume de empréstimo, a Leitura tem como lema fortalecer as lojas lucrativas e encerrar as atividades das deficitárias. Em 2016, fechou as portas de uma de suas unidades mais tradicionais, que funcionou por 25 anos na Avenida Cristóvão Colombo, na Savassi. “Desde que tínhamos apenas 20 lojas, temos a proposta de fechar uma unidade por ano, sempre aquela que dá prejuízo ou a de menor faturamento. Após a crise, entre 2015 e 2016, passamos a fechar duas”, conta Teles.

A atual gestão prevê o fechamento anual de duas a três unidades, enquanto seis novas lojas são abertas. “Começamos 2018 com 66 lojas em todo o Brasil. Fechamos duas deficitárias e abrimos outras seis. Ao final do ano, serão 70 unidades espalhadas por 18 estados e no Distrito Federal. No ano que vem, nossa expectativa é abrir sete lojas, em vez de seis – e há ainda a possibilidade de que esse número aumente”.

A Leitura está em quatro regiões brasileiras, exceto no Sul. Também tem se mostrado bem-sucedida a estratégia de garantir público em localidades carentes, enquanto diminui a briga em zonas mais competitivas. “O Brasil é muito grande e também muito carente. Temos cerca de 1.500 livrarias no país, concentradas principalmente nas capitais do Sudeste. Nessa imensidão, muitas cidades grandes, com mais de 300 mil habitantes, não têm uma grande livraria”, diz Teles. Segundo ele, são surpreendentes os resultados em estados como Alagoas, Maranhão e Rondônia, privados de grande oferta no setor.

VARIEDADE


Outra peça-chave na engrenagem que mantém a Leitura nadando contra a corrente da crise em seu setor é a diversividade de produtos à venda. “O livro é nosso principal negócio – representa 53% das vendas. Mas investimos também em papelaria e presentes.” A estratégia é adotada pelos maiores nomes do mercado. Apostando em megastores, a empresa amplia a variedade de artigos à venda, com direito até a cafeterias dentro de suas maiores unidades.

 

Ainda que o livro se mantenha estável, a seara de CDs, DVDs e games já não possui bases sólidas. A tendência é extinguir a venda desses produtos nas lojas que não atingem o retorno desejado, o que já ocorreu na filial do Pátio Savassi. “Essas mídias estão crescendo no meio digital e a venda do produto físico vem perdendo força, principalmente em lojas mais populares. É ainda uma parcela importante das vendas, por isso vamos manter em unidades que atingem valores expressivos, como a do BH Shopping”, afirma Teles.

[BLOCKQUOTE1]Na visão do empresário, mesmo competindo com plataformas digitais como Netflix e Spotify, a venda de filmes e músicas em aparatos físicos não deixará de existir em um futuro próximo. “Veja que, hoje, estão voltando a produzir vinis. Sempre haverá quem goste do material físico. Mas a tendência é que essa parte do mercado se volte para um público específico. É possível que deixe de ser um produto de massa.”

O interesse da população brasileira pela leitura, ainda que não se equipare aos índices de países mais desenvolvidos, não está entre os adversários do mercado, segundo Teles. Ele nota a força do livro impresso, em detrimento da popularidade das publicações digitais, um fenômeno oposto à tendência de digitalização vista em tantos outros setores. A venda de e-books não chega a 10% do que se consome de livros físicos. “O livro digital deve permanecer no mercado pela praticidade. De fato, veio para complementar, mas, diferentemente das outras mídias, o livro digital não deve predominar”, avalia.

Teles cita pesquisa recente segundo a qual a maioria dos leitores, incluindo os que já aderiram ao hábito do livro digital, tem preferência pelo formato físico. “Além disso, as pessoas não querem um aparelho para cada atividade. Por isso, o e-reader, aparelho sem luz que só permite o consumo de e-books, tem venda declinante. Também é possível ler em smartphones e notebooks, mas a prática se torna mais cansativa, e a tela com luz não é indicada. Muitos gostam de ler na cama. Enquanto o livro de papel traz sono, conduz a uma boa noite, o aparelho eletrônico costuma distrair e levar à insônia.”

E-COMMERCE

Há aproximadamente quatro anos a Leitura encerrou suas vendas na internet. À época, ficava a impressão de que a empresa caminhava contra a corrente, investindo em lojas físicas, tidas como decadentes, e extinguindo sua atuação em um espaço próspero. “A primeira e-commerce brasileira foi justamente uma livraria, em 1996. São cerca de 22 anos de concorrência pesada na internet. É um mercado maduro, que cresce em diversas frentes. A Leitura entrou na internet em 1998 e saiu em 16 anos, porque vendia com prejuízo nesta operação”, esclarece Teles.

Representantes do mercado editorial buscam a aprovação de uma mudança na Lei do Livro, de 2003, que limita o desconto da venda a no máximo 10% até um ano após o lançamento da publicação. Para Marcus Teles, a medida favoreceria a concorrência entre as empresas. “A venda tão abaixo do custo, comum na internet, já é ilegal. Só falta uma fiscalização mais rígida dos órgãos responsáveis. As empresas querem fazer alto faturamento e vendem livros com prejuízo, visando à sua compra junto com artigos eletrônicos.”

A medida vigora em vários países da Europa desde a década de 1980, mas, no Brasil, ainda encontra dificuldades para ser implementada. “É uma proposta que, à primeira vista, parece ruim ao receptor, mas é o que vai manter a diversidade das livrarias e das editoras. Cerca de 14 mil livros chegam ao mercado todos os anos, mas, além desses, há uma infinidade de publicações que podem ser vendidas com desconto.”

Mesmo sem a revisão da Lei do Livro, a Leitura deve retomar seu e-commerce nas próximas semanas, a tempo de atender à demanda de fim de ano. “Algumas grandes livrarias quiseram crescer nesse cenário e acabaram acumulando dívidas e prejuízos. A Leitura busca um caminho de alto faturamento, mas sempre com lucro”, diz Teles. A empresa foge do que ele chama de “guerra dos preços”, mas colocará boa parte do estoque das lojas à venda na plataforma. O site também avisará ao cliente em qual unidade de sua cidade o produto desejado pode ser encontrado, com a possibilidade de não pagar pelo frete e retirar a compra na loja.

A expectativa é que a Leitura feche 2018 com 6 milhões de livros vendidos, com um crescimento de aproximadamente 8% na venda em varejo. Desta forma, consolida-se entre as maiores empresas do ramo em faturamento, número de lojas e área ocupada no Brasil. “Caímos um pouco, entre 2015 e 2016, mas sempre com saúde financeira”, diz Teles. “Acredito muito no poder do livro e que as empresas em crise têm boas chances de recuperação. O mercado cresceu no ano passado cerca de 9% e está em considerável ascensão.”

Penguin assume Cia das Letras

Maior grupo editorial do mundo, a Penguin Random House assumiu o controle majoritário do grupo Companhia das Letras. Ela possuía 45% da empresa desde 2012.

Por contrato, tinha a opção de compra em 2016, adiada, depois, para 2018.

A Penquin anunciou que passa a ter 70% da editora, fundada por Luiz Schwarcz em 1986, que diminui sua participação de 36,5% para 30%. A família Moreira Salles, dona de 18,5% da editora, deixa o negócio. “O fato de a Penguin Random House querer manter a opção de compra da editora na situação que o Brasil está vivendo é inacreditável. Um bom sinal de otimismo”, diz Schwarcz, que segue como CEO do grupo. Lilia Schwarcz também segue no posto de diretora.
(Estadão Conteúdo)

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