Professor usa fotografia para relembrar tragédia de Mariana em palestra

Márcio Seligmann-Silva, professor titular da Unicamp, estará hoje em Mariana. Evento integra a programação do Fórum das Letras de Ouro Preto

por Ana Clara Brant 29/10/2018 08:00
LEANDRO COURI/EM/D.A.PRESS
(foto: LEANDRO COURI/EM/D.A.PRESS)

Técnica e destruição: testemunho e empoderamento” é o tema da palestra que o professor titular de teoria literária do Instituto de Estudos da Linguagem da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Márcio Seligmann-Silva fará nesta segunda (29) em Mariana, tendo como convidados cidadãos atingidos pela tragédia do rompimento da barragem de Fundão. O desastre ambiental provocado pela mineradora Samarco completa três anos no próximo dia 5.


A palestra de Seligmann-Silva é promovida pelo Fórum das Letras, cuja edição 2018 (a 14ª de sua história) ocorrerá desta quinta-feira (1º/11) a domingo (4), em Ouro Preto.”Acho de extrema relevância lembrar os três anos deste triste episódio nesse pré-evento. Nossa temática tem tudo a ver com o atual momento, não só do Brasil como do mundo. Essa urgência e emergência na reposição dos valores, esses questionamentos. O que somos, o que queremos, para onde vamos? Ao longo desses dias, abordaremos referências e questões que sempre atravessaram o Fórum das Letras, como liberdade de expressão, diversidade étnica e de gênero, a importância da palavra e da democracia”, diz a curadora e coordenadora geral do evento, Guiomar de Grammont.


Em sua explanação, o professor da Unicamp vai analisar a catástrofe que arrasou distritos como Bento Rodrigues e Paracatu de Baixo por meio da memória fotográfica. “Sempre gostei muito de pensar e falar através das artes. Gosto muito de pensar a partir de um dos meus teóricos favoritos, Walter Benjamin (1892-1940), tentando me apropriar de seu imenso legado e tomando-o como provocação e desafio para refletir sobre o tempo presente, as contradições e urgências que atravessam o Brasil e o mundo”, diz Seligmann-Silva.

 

Desde o ano passado, o professor tem desenvolvido uma reflexão sobre o tempo histórico e as noções de urgência e emergência tendo como base acervos fotográficos relacionados à ditadura. Ele assinou a curadoria de Hiatus: a memória da violência ditatorial na América Latina, que esteve em cartaz no Memorial da Resistência, na capital paulista. “Esse é um assunto sobre o qual eu me debruço há vários anos e que voltou com força total nestas eleições”, comenta.


Seligmann-Silva observa que “praticamente em todas as cidades da Argentina e do Chile há um espaço dedicado à memória e com informações sobre esse pedaço tão duro da história”. Na opinião do professor, “é importante ter essas exposições, esses museus, no sentido de construir uma consciência cidadã. No Brasil, todas as nossas transições foram muito negociadas. Tivemos uma independência feita por um português. Nosso primeiro presidente pós-ditadura, o (José) Sarney, era um dos pilares daquele período. Daí a importância da memória”.

HOMENAGEADOS O Fórum das Letras homenageará neste ano dois poetas contemporâneos –  Guilherme Mansur, mineiro de Ouro Preto, e Paulo Leminski (1944-1989), paranaense. “Em 2017, celebramos Carlos Drummond de Andrade e a poesia como antídoto contra a descrença, o individualismo, o ódio. Neste ano, seguimos nessa linha, lembrando dois poetas que foram amigos, têm trabalhos muito potentes e que dialogam entre si. Ambos utilizam a materialidade e a musicalidade da palavra, além de terem muito humor e uma fina ironia”, frisa.


Entre as presenças de destaque estão o escritor amazonense Milton Hatoum, a jornalista portuguesa Isabel Lucas e as escritoras mineiras Conceição Evaristo, Maria Esther Maciel e Carla Madeira, apontada como uma das grandes revelações literárias deste ano no Brasil. Publicitária de formação e diretora de criação de uma agência em Belo Horizonte, Carla lançou seu primeiro livro, Tudo é rio (Quixote+Do Editoras Associadas) em 2014. A obra já está em sua quarta edição.
Tudo é rio é um romance sobre um triângulo amoroso. “Comecei a escrevê-lo em 1999 e só fui retomar 14 anos depois. Era até outro enredo. Para mim, era uma incógnita essa aceitação, porque o livro tem uma parte erótica muito forte, histórias com grande intensidade, além de colocar em discussão questões como o perdão. Se é possível perdoar o imperdoável. Tem sido muito bacana todo esse retorno”, diz a autora.


Na avaliação de Carla Madeira, um dos atrativos do livro é “a voz do narrador, que é muito envolvente. Ele mistura muito a fala dele com a do personagem, como se um estivesse contaminando o outro no bom sentido e isso dá uma dinamismo muito interessante”. Ela está animada para participar do Fórum das Letras, “contando um pouco desses bastidores do processo do livro e sobre o fazer literário em si”. O próximo romance da escritora mineira, A natureza mordida, tem previsão de lançamento no próximo dia 22. “É sobre um encontro de uma senhora formada em psicanálise e literatura, que está num processo de perder a memória, com uma jovem. Elas têm histórias completamente diferentes, mas carregam empatias uma pela outra”, diz.


A programação do Fórum das Letras traz ainda duas exposições na Casa dos Contos, em Ouro Preto: Silêncio lascado - Guilherme Mansur & Paulo Leminsky e Mostra literária Paulo Leminski. As mostras estarão abertas de 1º a 5 de novembro, das 10h às 22h. Atividades artísticas que dialogam com a literatura também estão na agenda, como a performance-homenagem Tipoema: Movimento 7 - Mansur / Leminski, em que os artistas Cláudio Santos, Leonardo Dutra e Fabiano Fonseca criam um sistema digital que alterna vídeos e fotos com uso da alavanca de uma prensa manual, no qual serão apresentados haicais de Guilherme Mansur e poemas de sua parceria com Paulo Leminski.


O grupo Família de Rua sobe ao palco da Casa da Ópera com o Duelo de MCs e o Cortejo das Artes toma conta das ruas do Centro Histórico, com a Fanfarra de Ouro Preto e o Bloco do Zé Pereira. Já o Fórum das Letrinhas, voltado para o público infantil, terá o Caminhão BiblioSesc, a biblioteca volante do Sesc, estacionado no Largo do Cinema, entre os dias 2 e 4 de novembro. Estarão disponíveis ao público o acesso gratuito a centenas de títulos, entre clássicos da literatura, aventuras, ficções e histórias reais. “Nesta edição, ele vai ser mais integrado à programação. Também haverá oficinas de contação de histórias com o Grupo Mambembe. É uma maneira de apostar na formação de novos leitores”, afirma Guiomar de Grammont. O Sesc é o parceiro do Fórum das Letras que viabilizou a edição 2018, de acordo com a curadora.

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