Clássico dos Racionais MCs, 'Sobrevivendo no inferno' vira livro

Exemplar será lançado este mês pela Companhia das Letras. Edi Rock comemora: "É uma honra ao mérito"

por Ângela Faria 22/10/2018 08:25
Leonardo Muniz/divulgação
(foto: Leonardo Muniz/divulgação)


Clássico do rap nacional, Sobrevivendo no inferno completa 21 anos rompendo barreiras: o disco do Racionais MCs agora é livro da Companhia das Letras, que chega às lojas em 31 de outubro. O álbum vai “cair” no vestibular 2020 da Unicamp ao lado da poesia de Camões e Ana Cristina César, de contos de Guimarães Rosa e Machado de Assis, de romances de Erico Verissimo e José Saramago. “No verso violentamente pacífico/ Verídico/ Vim pra sabotar seu raciocínio”, avisa Capítulo 4, versículo 3, uma das 12 faixas do disco, cuja “edição de papel” traz letras, texto de Acauam Oliveira, professor de literatura da Universidade de Pernambuco (UPE), e ensaio fotográfico assinado por Klaus Mitteldorf.

“É uma honra ao mérito”, diz Edi Rock, integrante do Racionais ao lado de Mano Brown, KL Jay e Ice Blue – banda há 30 anos na estrada. Sobrevivendo no inferno é o documento de uma época, resume ele. A partir da década de 1990, o grupo deu voz à periferia brasileira. Com rimas certeiras, Edi e os companheiros denunciaram a miséria, o racismo, o mundo das prisões e as inquietações de jovens condenados a enfrentar o inferno da exclusão social.

Letra de rap é literatura sim, pois ali está a crônica das ruas, argumenta Edi. E confessa: “Ainda não caiu a ficha” da nova conquista do Racionais, considerada a banda mais importante do hip-hop brasileiro. Porém, de uma coisa Edi tem certeza: “Vou morrer e a minha arte vai ficar aqui. Meus bisnetos vão ler esse livro para conhecer a história de seu país”. O que ele quer, mesmo, é reencontrar dona Salete, sua professora de estudos sociais, para, agradecido, entregar um exemplar do livro para ela.

CARANDIRU Com efeito, a história está lá. Diário de um detento fala do massacre do Carandiru. Periferia é periferia é “rap-documentário” sobre o dia a dia das favelas. As rimas da impressionante Estou ouvindo alguém me chamar acompanham o rito de passagem de um garoto que vira ladrão. Capítulo 4, versículo 3 é o poético e contundente manifesto de Brown, Edi, Blue e KL sobre o apartheid social brasileiro. “Eu tenho uma missão/ E não vou parar/ Meu estilo é pesado/ E faz tremer o chão/ Minha palavra vale um tiro/ Eu tenho muita munição”, rima Brown. Naquela época, garotos pretos não tinham um décimo da autoestima que a geração do século 21 exibe por aí, orgulhosa de seu cabelo crespo, de sua negritude e das raízes africanas.

Porém, as letras do álbum de 1997 – infelizmente – não ficaram datadas. “A cada quatro pessoas mortas pela polícia/ Três são negras”, dizia Primo Preto na introdução de Capítulo 4. O Atlas da Violência de 2017 aponta: de cada 100 pessoas assassinadas no país, 71 são negras.

Foi-se o tempo em que rap era confinado a gênero “menor” da música brasileira. A edição da Companhia das Letras e o vestibular da Unicamp estão aí para comprovar que o universo das letras está se rendendo ao “ritmo e poesia” dos manos.

Edi Rock, aliás, lembra que vários rappers têm ingressado no mundo da literatura. Emicida acaba de mandar para as lojas o livro infantil Amoras. Rashid escreveu Ideias que rimam mais que palavras. Gaspar, do grupo Z’África Brasil, é autor de O Brasil é um quilombo. Há algum tempo, Eduardo, do Facção Central, lançou dois volumes de A guerra não declarada na visão de um favelado.

“Música vira filme, livro vira filme, filme vira livro. É o curso natural da arte”, observa Edi, saudando o diálogo entre linguagens e estéticas.

RAIO-X
Em vídeos divulgados pela Companhia das Letras, o professor Acauam Oliveira destaca o realismo como a marca registrada da linguagem do Racionais, que, com seu rap, traçou “o raio-x” do Brasil pobre. “Sobrevivendo no inferno foi um disco que salvou vidas”, garante. Refere-se a letras que, ao retratar a violência, também estimulavam jovens a resistir à vida do crime e a valorizar a própria negritude.

Em recente entrevista ao EM, o filósofo e ensaísta Francisco Bosco chamou a atenção para a contundência da lírica do Racionais: “Basta pegar a história da chamada ‘canção de protesto’ no país. Os sambas dos anos 1930 são muito ingênuos perto daquilo. As canções à la Vandré são ideológicas, cheias de ‘mensagens’, mas completamente distantes da concretude avassaladora das letras de Brown. Mesmo a grande tradição dos anos 60/70 – Chico Buarque, João Bosco/Aldir Blanc, etc. – é bem diferente: complexa, sofisticada, esplêndida, mas inevitavelmente metafórica, afastada da experiência direta daquele porão da sociedade brasileira”.

Por falar em porão nacional, neste polarizado 2018, Edi Rock se preocupa com a possibilidade de retrocesso no Brasil, dizendo que o “povo está desesperado por segurança, com medo e sem esperança”. A liberdade está ameaçada, reforça, referindo-se à conjuntura política do país.

“Canto a liberdade e a paz, meu discurso é ser livre. Vou ficar do lado de quem? Do lado do professor. Apoio a liberdade, não as grades”, avisa Edi. Ele, Mano Brown, Ice Blue e KL Jay apoiam a candidatura de Fernando Haddad à Presidência da República.



SOBREVIVENDO NO INFERNO
• Letras: Racionais MCs
• Texto: Acauam Oliveira
• Fotos: Klaus Mitteldorf
• Companhia das Letras
• 160 páginas
• R$ 34,90
• Lançamento em 31/10. Pré-venda na Amazon, Saraiva, Livraria Cultura e www.boogiestore.com

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