Joseph Frank publica versão compacta de 'Dostoiévski - Um escritor em seu tempo'

Livro contempla a vida do escritor russo e as ideias da época que moldaram seus personagens

por Severino Francisco 16/10/2018 10:00
Wikicommons/Reprodução
Retrato de Fiódor Dostoiévski, tela de Vasily Perov, realizada em 1872, pertencente à Galeria Tretyakov, em Moscou (foto: Wikicommons/Reprodução)
Ler Dostoiévski é uma experiência de adrenalina filosófica, psicológica e espiritual. Dostoiévski teve uma vida dramática, ficou preso oito anos na Sibéria, perdeu muito dinheiro no jogo e escreveu romances contra o calendário para pagar a conta do aluguel. Daria uma bela biografia. E deu: Dostoiévski – Um escritor em seu tempo, de Joseph Frank, já nasceu clássica. A edição original tinha 2,5 mil páginas e foi publicada em cinco volumes pela Edusp. Mas, agora, chega uma versão compacta de 1,1 mil páginas preparada pelo próprio Frank.


O possesso escritor russo foi brindado com uma série de biografias. No entanto, a originalidade de Frank reside na ênfase que conferiu à análise do entrelaçamento entre a vida individual e as ideologias na obra de Dostoiévski: “Os envolvimentos pessoais dos personagens dos romances, embora representados com intensidade, muitas vezes, melodramática, não podem ser realmente compreendidos, a menos que entendamos como suas ações estão interligadas com motivações ideológicas”, comenta Frank: “Na verdade, uma forma de definir a originalidade de Dostoiévski é ver nela essa capacidade de integrar o pessoal com o ideológico”.


Não se trata apenas das intermináveis discussões ideológicas dos personagens dostoievskianos. Mas da maneira como os personagens se impregnam das ideias e as levam até as últimas consequências em suas vidas: “Sua genialidade incomparável de romancista ideológico estava nessa capacidade de inventar ações e situações em que as ideias dominam o comportamento sem que ele se torne alegórico”.


A dramaticidade dos personagens emana dos problemas psicológicos e sentimentais, mas também do debate sobre as doutrinas ideológicas do seu tempo: “Não é o fato de seus personagens se envolverem em disputas teóricas. É antes o fato de que suas ideias se tornam parte de suas personalidades, a tal ponto que uma não existe sem as outras”


Um dos aspectos mais brilhantes do livro é a análise que Frank empreende de cada obra em conexão com ideologias dominantes no tempo. A contradição entre os valores da fé cristã ortodoxa e o ateísmo são explorados em Os irmãos Karamázov: “Como poderia um Deus supostamente amoroso ter criado um mundo em que o mal existe?” Crime e castigo discute as ideias do pensador radical, Dimítri Píssarieve, que concebeu uma clara distinção entre as massas anestesiadas e os cidadãos supostamente superiores, como é o caso do personagem Raskólnikov, que acreditava ter o direito moral de cometer crimes no interesse da humanidade.


Mas é em Os demônios que Dostoiévski radicaliza a reflexão sobre as consequências do comportamento dos personagens niilistas. É o melhor romance escrito sobre uma conspiração revolucionária e se baseia no caso Nietcháiev, o assassinato de um jovem estudante pertencente a um grupo clandestino.


Seria possível criar um outro modelo de cristianismo para as novas gerações em contraposição ao egoismo racional das ideias de socialismo científico? Essa é a tentativa do romance O idiota. O personagem seria uma reencarnação de Cristo. Mas a ideia fracassa e termina em desastre, segundo Frank. Enquanto velava o corpo de sua primeira mulher, escreveu que “amar ao próximo como a si mesmo, seguindo o mandamento de Cristo, é impossível. A lei da personalidade terrena não o permite. O ego atrapalha.


Frank alia biografia, crítica literária e história de maneira admirável. Não é uma obra somente para especialistas. Frank escreve muito bem e ilumina a obra de Dostoiévski. É uma obra-prima com todas as letras: “A arte é para o homem uma necessidade tanto quanto comer ou beber”, escreveu Dostoiévski. “A necessidade de beleza e das criações que a concretizam são inseparáveis do homem, e sem ela talvez o homem não tivesse nenhum desejo de viver.”

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