Escritor Valter Hugo Mãe participa de edição do Sempre um Papo que celebra o Dia do Professor

A escola como redenção será o tema do debate com o escritor que conquistou os leitores brasileiros e foi conquistado pelo Brasil

por Mariana Peixoto 14/10/2018 08:00
Arte/Quinho
(foto: Arte/Quinho)
“Estou habituado a ser um escritor de poucos leitores”, foi o que afirmou em 2007 o português Valter Hugo Mãe, ao vencer o Prêmio Literário José Saramago, criado em Portugal para celebrar a obra de jovens autores lusófonos.


Com prefácio do próprio José Saramago (1922-2010), o remorso de baltazar serapião (2006), que venceu a premiação, foi o segundo livro da chamada tetralogia das minúsculas, com textos escritos integralmente sem letras capitais. Na época, o autor assinava valter hugo mãe. Justificava as minúsculas para acelerar a escrita – e consequentemente, a leitura.


Onze anos mais tarde, Valter Hugo Mãe (nascido Valter Hugo Lemos, há 47 anos, na cidade angolana de Henrique de Carvalho), agora com letras capitais, viu crescer também o seu número de leitores. Referência entre os jovens, por sua escrita inventiva e afetuosa, é um autor prolífico. Romancista e poeta, também flerta com as artes visuais e a música.


Cento e cinquenta mil exemplares é o número de venda de seus livros na Biblioteca Azul, selo da Globo Livros que hoje publica a obra do escritor no Brasil. Ao passar sua bibliografia para a editora, o autor de A máquina de fazer espanhóis, O filho de mil homens, A desumanização, O apocalipse dos trabalhadores, Homens imprudentemente poéticos, além já citado baltazar serapião e do infantil O paraíso são os outros teve seus títulos relançados.


Em Belo Horizonte, onde passa os próximos dias, Valter Hugo Mãe participa nesta segunda (15) de uma edição do Sempre um Papo que celebra o Dia do Professor. “Estudar é mudar o mundo – A escola como redenção” será o tema do debate. Nascido numa família que não tinha tradição acadêmica e aluno de escola pública, ele sempre teve interesse pela leitura.


“Acabei pedindo sempre para estudar mais. Cedo fiquei consciente de que aprender estava a salvar-me a vida. Aprender mudou tudo no meu futuro óbvio. Foi um processo de pura redenção social”, disse, em entrevista ao Estado de Minas.


Um apaixonado pelo Brasil – que o vem acolhendo com igual intensidade, até mais do que os europeus, ele admite – Hugo Mãe fala a seguir sobre sua relação com a escrita, com o país e com a música de Renato Russo. “Ouvir Bach ou Brahms nunca apagará o sentimento magnífico de ouvir Legião.”



SEMPRE UM PAPO
Com o escritor Valter Hugo Mãe.
Segunda (15), às 19h30,
no auditório da Cemig,
Rua Alvarenga Peixoto, 1.200,
 Santo Agostinho. Entrada franca.
 Mais informações: (31) 3261-1501.


Você já afirmou que, quando jovem, acreditou que Renato Russo poderia mudar sua vida por meio da música. Que temáticas mais o interessaram nas letras dele?
Fiquei marcado com a fúria inteligente de Renato Russo. Uma necessidade de protestar perante um Brasil assimétrico mas sem ser um arruaceiro, sem usar de violência. A mensagem de Renato era inteligência. Era sobre consciência. Protesto para ser melhor cidadão.

Ainda chora quando ouve Tempo perdido?
É muito possível que me comova. Além de tudo quanto a letra diz, essa canção está implicada com minha biografia mais íntima. Passo por minhas amizades, minha juventude chegando a uma idade adulta e querendo entender e cuidar do mundo. Não será nunca uma canção indiferente para mim. Não poderá ser normal. Ouvir Bach ou Brahms nunca apagará o sentimento magnífico de ouvir Legião.

Que reações um bom livro deve provocar no leitor?
A impressão de algo se revelar. Lemos por um sentido de pressentimento, o mesmo sentido com que escrevemos, e o livro, quando bom, acontece dentro da nossa intuição como se fosse uma candeia passando por nossas ideias. Vai iluminando cada bocado de escuridão e ensinando sobre nós mesmos. Esse é o grande livro.

Você já afirmou que “o melhor que Portugal fez foi o Brasil”. Diante da crise que estamos passando, sua opinião se mantém?
Essa afirmação é do grande filósofo português Agostinho da Silva. Apenas o citei. Ele viveu no Brasil, apaixonado pela cultura de aqui, e entendeu que o radical português do brasileiro era um enorme motivo de orgulho. Pois, eu sinto o mesmo orgulho. Sinto orgulho no Brasil como sociedade gigante, mesclada, que um dia dará certo. Esse é um lugar de bênção. A situação que se vive hoje é uma anomalia. Que ninguém considere isto a normalidade. Não é. Eleição deve ser ideia, confronto de ideia, não é intimidação. Não pode ser confusão.

Ainda planeja passar uma temporada vivendo no Brasil? Qual o Brasil em que gostaria de viver?
Eu gostaria. Não consigo cumprir planos. Sou demasiado subjugado pela pressa da vida. Mas gostaria muito de voltar ao Rio de Janeiro, de voltar à Ilha da Conceição, em Niterói, que foi meu primeiro Brasil de minha primeira viagem. Ficou uma nostalgia para sempre.

Música, desenho, programa de TV. Sua atuação vai muito além da literatura. Tais atividades vêm em decorrência de uma necessidade de expressão que a literatura não te dá?
Não tanto. São apenas a expressão de um modo de gostar. Eu gosto de arte. Experimento o que posso para imaginar sempre mais. Não porque entenda ser bom desenhista ou cantor. Importa-me muito passar por dentro de uma experiência que leva a algo que tanto admiro.

Você foi vocalista da banda Governo. O que o canto lhe proporciona?
A banda não está ativa. Minhas cordas vocais continuam com uma agressão mais ou menos grave. Não posso verdadeiramente cantar. É muito raro o canto. Nos seus momentos perfeitos, a gente sente que o peito contém uma fundura imprevista de onde ocorre um som desmesurado, como se fosse um tamanho desmesurado do nosso próprio corpo. Como um animal tremendo que habita ali, no peito, e é levantado com o canto.

Fazendo referência ao livro O paraíso são os outros, não há como ser feliz sozinho?
Não creio. A solidão é um estágio para a relação, não pode ser um objetivo. Ninguém se destina à solidão. Ao menos, não alguém saudável, equilibrado. A drástica escolha pela solidão é sempre uma fractura, um trauma. Não é o sentido da vida.

Qual sua opinião sobre as atividades – entrevistas, palestras, oficinas, debates – que acompanham hoje a carreira de um escritor?
Gosto das pessoas. Fico grato por encontrar quem gosta do que escrevo. Isso traz muita felicidade à minha vida. Não acredito que se ficasse apenas trancado em casa acederia à mesma sensação de felicidade. Como dizia acima, o paraíso são os outros. É muito lindo que alguém nos queira receber. O segredo está em não criar nunca deslumbre e não deixar de defender a agenda. Tem um momento em que nenhum evento me tira de casa. Esse é o momento de escrever.

Sua literatura é referência para booktubers, influenciadores digitais. Valter Hugo Mãe é pop?
Não diria que sou pop. Há uma popularidade que favorece o aparecimento da minha imagem em ligações mais improváveis, mas isso acontece com Cristo e Frida, Che e Mao, acontece com Freud e Saramago. Algumas coisas, e algumas pessoas, pura e simplesmente não são guardadas em segredo. É o público quem decide.

Depoimento

Pedro Pacífico
Advogado e autor da página @book.ster

Sem qualquer dúvida, Valter Hugo Mãe foi um dos autores responsáveis pelo meu amadurecimento como leitor. Sempre gostei de ler, mas tinha receio de escolher obras que fugissem daquela lista dos mais vendidos. Achava que um clássico ou um autor contemporâneo que criasse obras diferentes daquele thriller que estava acostumado a ler seriam muito difíceis para mim: um leitor leigo e sem formação ligada à literatura. Quando recebi a indicação de uma obra de VHM, por um vendedor de uma livraria em que costumo ir, resolvi me desafiar, e o resultado superou muito minhas expectativas. Apesar de no início ter tomado um susto com a escrita do autor, que não usava maiúsculas nem pontuações, percebi que a literatura vai muito além da história contada. Fiquei impressionado como cada palavra no texto de VHM parecia ter sido escolhida a dedo, se encaixava perfeitamente e dava uma forte carga poética à obra. A partir de então, passei a me aventurar mais nas obras e virei um fã de clássicos e de autores contemporâneos menos convencionais. Minha paixão pela leitura cresceu tanto que decidi criar um perfil no Instagram para mostrar para as pessoas que a literatura é para qualquer um. Se eu, um leigo na área, consegui me apaixonar por livros que nunca achei que leria, então qualquer um também consegue. E o resultado foi surpreendente! Em pouco mais de um ano, estou com 70 mil seguidores e quem me segue sabe: Valter Hugo Mãe é um autor que eu indico para TODOS! Não canso de repetir a sua importância para meu desenvolvimento como leitor e já recebi muitas mensagens me agradecendo por ter apresentado a obra de arte produzida por esse autor! E quer saber o mais legal: Valter Hugo Mãe segue o meu perfil e cada curtida em uma publicação minha é uma felicidade!

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