Colecionadora reúne em Belo Horizonte obras de artistas de exposição incendiada no Rio de Janeiro, há 40 anos

Na época, o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro realizava a exposição Arte agora III, América Latina: Geometria sensível

por Mariana Peixoto 12/10/2018 08:42
CCBB/DIVULGAÇÃO
Vilos de Gustavo Pérez Monzon, Acrylic lens de Rogelio Polesello e a Fotografia da série 50s035, de Rubens Teixeira Scavone, integram a mostra Construções sensíveis na coleção Ella Fontanals-Cisneros (foto: CCBB/DIVULGAÇÃO)
O incêndio que em 2 de setembro dizimou o Museu Nacional ocorreu 40 anos depois de uma tragédia semelhante em uma outra instituição do Rio de Janeiro. Em 8 de julho de 1978, o fogo, provavelmente causado por um curto-circuito (o motivo nunca foi esclarecido), destruiu o Museu de Arte Moderna (MAM). Foram reduzidas a pó cerca de mil obras, incluindo dois quadros de Pablo Picasso e um de Salvador Dalí.

Na época, a instituição realizava a exposição Arte agora III, América Latina: Geometria sensível. A mostra reuniu a produção de artistas latino-americanos para evidenciar um caminho comum da arte construtiva. Nenhuma obra dessa exposição se salvou no incêndio.

Construções sensíveis: A experiência geométrica latino-americana na coleção Ella Fontanals-Cisneros, que será aberta nesta sexta-feira (12), no Centro Cultural Banco do Brasil, em Belo Horizonte, presta o devido tributo à mostra de triste lembrança. “Muitos dos artistas daquela exposição fazem parte da coleção. De certa forma, a mostra Construções sensíveis faz uma devolução ao Brasil do acervo perdido”, afirma Ania Rodríguez, que divide com Rodolfo de Athayde a curadoria da exposição.

Já apresentada em São Paulo e no Rio de Janeiro, a mostra reúne 119 obras, entre pinturas, instalações, esculturas, fotografias e vídeos. Primeira exposição que a coleção Ella Fontanals-Cisneros, com sede em Miami, realiza no Brasil, traz trabalhos de artistas brasileiros (Lygia Clark, Hélio Oiticica, Thomaz Farkas, Geraldo de Barros), argentinos, colombianos, cubanos, mexicanos, uruguaios e venezuelanos.

“A coleção Cisneros é muito diversa e ampla. Tem asiáticos, africanos, europeus. Mas, dentro do conjunto (com cerca de 2,6 mil obras de arte abstrata geométrica e concreta), encontramos outro conjunto muito especial, que foi o latino-americano”, diz a curadora.

Para Ania Rodríguez, a exposição busca estabelecer outra relação. “Muitas vezes, toda a conversa do concretismo e do neoconcretismo no Brasil se volta para a relação dos artistas com as fontes europeias, já que o movimento estava renovando a arte no início do século 20. Menos comum é colocar o artista brasileiro em uma conversa regional. Venezuelanos, argentinos, cubanos estão no mesmo caminho, fazem as mesmas perguntas para a arte.”

ESTRUTURAS ESSENCIAIS Somando-se a isso as quatro décadas da exposição destruída, a curadoria pegou emprestado o título de 1978 (Geometria sensível) para promover esta nova leitura da arte latino-americana. Entre os artistas presentes nas duas exposições está o uruguaio Joaquín Torres García (1874-1949). “Grafismo inciso com duas figuras (1930) poderia ser considerada a imagem que encarna o início desta exposição. As linhas básicas que simplificam o desenho apelam para essa compreensão primordial do objeto, em uma persistente busca por estruturas essenciais que definem o impulso vital que anima a arte”, escreveram os curadores a respeito da obra de Torres García no texto de apresentação do catálogo.

A exposição traz obras de artistas históricos e contemporâneos. “Os contemporâneos estão em diálogo direto com os históricos. Desta maneira, o público vai poder fazer as relações ao longo da mostra”, diz a curadora.

A obra Punto cero de la silla, fósil de la silla invertido (Ponto zero da cadeira, fóssil da cadeira invertido, 1991-2006), da artista venezuelana Antonieta Sosa, é uma cadeira branca com dois cubos brancos. Se colocados um em cima do outro, eles formam um cubo perfeito. O trabalho em madeira é uma homenagem a Malevich, cuja obra Quadrado branco sobre fundo branco (1918), considerada o extremo da abstração, é uma das representantes mais conhecidas do suprematismo, corrente inaugurada pelo pintor russo.

“Por outro lado, há dois vídeos do cubano Javier Castro – White on white (2014) e Black on black (2008-2015), em que mostra uma pessoa branca saindo de um fundo branco e uma pessoa negra saindo de um fundo negro. A obra dialoga tanto com a autonomia da cor e da forma como também promove uma conversa com a temática racial. É neste momento que os artistas contemporâneos se apropriam dos caminhos abertos pelos históricos”, explica Ania Rodríguez.

O único artista que está em BH para a abertura da exposição é o cubano radicado no México Gustavo Pérez Monzon, que apresenta dois trabalhos. Um deles, Hilos, que não entrou na montagem do CCBB-Rio, está na primeira sala da exposição. Mas é Vilos, que ocupa sozinha uma das salas do espaço expositivo, que deverá chamar mais a atenção do público. O artista passou dois dias montando a instalação com fio elásticos, pedras e arame. “A obra, que destaca a tensão das cordas e o peso, traz a possibilidade de o público interagir com ela”, diz a curadora.

CONSTRUÇÕES SENSÍVEIS
Exposição no Centro Cultural Banco do Brasil, Praça da Liberdade, 450, Funcionários, (31) 3431-9400. Abertura nesta sexta (12). Visitação de quarta a segunda, das 9h às 21h. Entrada franca. Até 7 de janeiro.


COLECIONADORA E MECENAS

Nascida em Cuba, criada na Venezuela e atualmente vivendo em Miami, Ella Fontanals-Cisneros iniciou sua coleção na década de 1970, ao se casar com o empresário venezuelano Oswaldo Cisneros. Em 2002, ela criou a Fundação de Arte Cisneros-Fontanals (Cifo, The Cisneros Fontanals Art Foundation), que já doou mais de US$ 1 milhão para 120 artistas da América Latina. Exposições com parte de seu acervo já foram realizadas em instituições de vários países. “Um dos caminhos mais fortes da instituição é o incentivo à produção artística, tanto que ela conta com um programa de bolsas para jovens artistas. Quanto ao acervo, é importante que ele continue a ser visto em todo o mundo”, diz Ania Rodríguez.

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