Ferramentas de autopublicação permitem ao escritor lançar livros sem depender do aval das editoras tradicionais

Novo sistema tem causado impacto no mercado editorial do Brasil

por Ana Clara Brant 07/10/2018 22:03

Professora e coordenadora do curso de pós-graduação de gestão estratégica de processos de negócios da PUC Minas, Ana Catarina Lima Silva é considerada expert na área. Para compartilhar seus conhecimentos, ela teve a ideia de escrever um livro, mas sempre encontrou muita burocracia para publicá-lo. “Nem cheguei a buscar uma editora, porque queria um caminho mais fácil e prático, mas sem perder a qualidade e atendendo às exigências do mercado editorial”, conta. Por indicação de um amigo, ela soube do modelo cada vez mais utilizado por escritores, principalmente aqueles em início de carreira: a autopublicação. Plataformas na internet possibilitam a qualquer um lançar um livro de maneira rápida, eficiente e gratuita. É possível optar pela obra física, digital ou nos dois formatos.

Lellis/E.M/D.A.Press
(foto: Lellis/E.M/D.A.Press)

A versão impressa do livro de Ana chegou ao mercado há um ano, por meio da Bookess, uma das primeiras plataformas de autopublicação no Brasil. O PDF está disponível e a autora planeja o lançamento do e-book.

“Fiquei impressionada com o retorno. O livro foi adotado até em um concurso interno da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), que é super-rigorosa. Muitos leitores entraram em contato comigo, falando que o livro os auxiliou em estudos e concursos. Apesar de o autor ter mais controle sobre sua obra, inclusive com relação ao preço, meu objetivo não foi lucrar, mas compartilhar minha pesquisa e meu conhecimento”, destaca Ana Catarina, que prepara o segundo volume do trabalho. “Quem sabe até vira uma trilogia? Vai ser tudo por autopublicação. Não penso em fazer de outra forma”, assegura.

De acordo com Celso Fonseca, sócio-proprietário da Bookess, quando surgiram as primeiras plataformas de autopublicação, havia a expectativa de que, como toda inovação tecnológica, elas avançassem sobre o mercado. Representantes do setor editorial tradicional chegaram a temê-las. “Havia receio de que o livro impresso virasse poeira, mas isso não ocorreu, até porque nas plataformas de autopublicação há a opção de livro físico também”, esclarece.

Celso admite: há certa desconfiança de publicar obras por meio dessas plataformas. “Isso tem mudado, mas muitas pessoas da academia não se sentem totalmente realizadas pelo fato de não haver uma editora por trás. Porém, aos poucos, até as editoras estão fazendo parcerias com as plataformas. Inclusive, disponibilizam livros produzidos assim para venda nos próprios sites.”

Desde 2008, a Bookess publicou 30 mil livros nos mais variados gêneros de 15 mil autores. Na maioria das plataformas, o escritor estipula o valor do produto e o direito autoral é exclusivo dele em sites para vendas. “O autor pode até optar pelo formato digital, no qual divulga a obra sem necessariamente vendê-la, disponibilizando-a para leitura no site. Alternativamente, a obra pode ser comercializada por um valor para o digital e outro para o formato impresso, este entregue no endereço do comprador. A gente avalia o custo gráfico e o autor define quanto quer ganhar sobre cada venda. O dinheiro é repassado diretamente para ele”, diz Celso. “Há quem venda muito bem e acaba obtendo o reconhecimento que não teria se tivesse trabalhado da forma tradicional”, observa.

GIGANTE

As grandes redes se renderam à autopublicação. Gigante do mercado on-line, a Amazon lançou a Kindle Direct Publishing (KDP), tida como a plataforma do gênero mais popular do mundo. Além da facilidade de lançamento, os livros (digitais ou impressos) são comercializados no site da empresa. O autor recebe royalties de até 70%.

Talita Taliberti, gerente de KDP da Amazon Brasil, defende os benefícios desse nicho, argumentando que, além de promover o aumento de autores e leitores, há a abertura cada vez maior das editoras para o setor. “Isso as estimula a investir em um novo talento, um novo título. Não acredito que a autopublicação venha substituir ou matar nenhum modelo. É uma alternativa, um caminho para dar mais espaço aos escritores. O mercado editorial tradicional não consegue absorver todo mundo”, observa.

A autopublicação não é exclusividade de autores independentes ou de quem está estreando. Talita lembra que muitos best-sellers foram revelados por meio dessa ferramenta. Escritores consagrados, caso de Augusto Cury e Paulo Coelho, também aderiram ao modelo.

“No final de julho, Mário Sergio Cortella (filósofo, escritor e educador) fez em KDP um livro dele que estava fora de circulação há muitos anos. Preferiu dessa forma em vez da publicação da maneira mais usual”, diz Talita.

Cerca de 30% dos livros mais vendidos pela Amazon são provenientes da autopublicação. “É um caminho sem volta. Muita gente que tinha o sonho de publicar precisava da ajuda da família e dos amigos, pois o investimento é alto. Quem recorre à nossa ferramenta leva no máximo 72 horas para ter seu projeto finalizado. A obra passa por uma revisão, para conferirmos se ela segue diretrizes de conteúdo, se não há plágio. Além de ter mais controle sobre seu livro, o autor pode vê-lo chegar a leitores tanto do Brasil quanto de qualquer país”, argumenta a gerente da Amazon Brasil.

CLUBE DE AUTORES

 

Clube de Autores, plataforma brasileira dedicada à autopublicação de livros, permite a escritores independentes lançar obras sem tiragem mínima, sob demanda e sem nenhum custo. Ricardo Almeida, um dos proprietários da startup, explica que a empresa nasceu a partir da experiência dele e de seus sócios com livros e tecnologia.

“O processo é muito simples. O autor cadastra o arquivo da obra e define o tipo de acabamento do livro, além de estabelecer o valor referente aos direitos autorais que deseja receber por cada exemplar vendido. Automaticamente, o sistema faz a contabilização do número de páginas, compondo o preço final da publicação e colocando-a à venda no site. Tudo isso é gratuito para o escritor”, explica.

Almeida acredita que o modelo em que a editora banca totalmente um autor está se tornando ultrapassado. A autopublicação deve ganhar cada vez mais adeptos, prevê, informando que o Clube de Autores responde por 89% desse mercado no Brasil, com cerca de 65 mil títulos.

O “boom” se deu a partir do fim de 2017, diz ele. “A gente publicava aproximadamente 20 livros por dia, agora temos 40 em média. É uma quebra de paradigma. Isso se deve muito ao fato de o mercado ter ficado mais flexível e ver com bons olhos o setor. Quem publica conosco consegue vender e distribuir nas principais redes do país, como Amazon, Estante Virtual e Livraria Cultura, algo impossível há pouco

tempo.”

Thiago Fantinatti/divulgação
Livro de Thiago Fantinatti traz relato de sua viagem de bicicleta pela América do Sul. (foto: Thiago Fantinatti/divulgação)

 


De acordo com Ricardo Almeida, há vantagens para todos. “Tenho custos gráficos, mas ganhamos por cada exemplar vendido. No entanto, quem mais ganha é o escritor. Esse modelo veio para ficar. É ingênuo pensar que é necessário o crivo editorial para definir se tal livro é bom ou ruim. Isso quem define é o leitor”, afirma.

BIKE Por meio do Clube de Autores, o paulistano Thiago Fantinatti conseguiu transformar em livro o relato de sua viagem de bicicleta pela América do Sul.

Nem cheguei a enviar os originais para as editoras convencionais. E deu muito certo. Meu livro foi um dos mais vendidos pelo Clube de Autores e pela Amazon”, comemora Fantinatti, autor de Trilhando sonhos.

Para ele, o principal proveito oferecido por esse modelo é a liberdade. “Ninguém mexe na sua obra. Outra vantagem é a possibilidade de atualizar o livro na hora em que você quiser. Como ele é impresso por demanda no momento da compra, há essa possibilidade. Foi uma forma rápida de dar visibilidade à minha história e praticamente sem custos”, afirma Thiago Fantinatti.

 

Do Kindle ao jabuti

A mineira Gisele Mirabai disputa o Prêmio Jabuti 2018, concedido pela Câmara Brasileira do Livro, com o romance Machamba. Inicialmente, a escritora mineira tentou publicá-lo por uma grande editora, mas enfrentou dificuldades. A chance veio com o edital do Prêmio Kindle de Literatura, vencido por ela.

Julio Vilela/Divulgação
Mineira Gisele Mirabai disputa o Prêmio Jabuti com o romance 'Machamba' (foto: Julio Vilela/Divulgação)

A autora de Machamba é apontada como um dos promissores talentos da literatura contemporânea do Brasil. “Além do dinheiro, o Kindle tinha parceria com a Nova Fronteira. O livro ganhou versões em e-book e impressa. Esse é o meu primeiro romance adulto. Acho que até conseguiria publicá-lo por uma editora pequena, mas seria complicado por uma maior. É raro a grande editora investir em quem não é tão reconhecido” diz.

Gisele Mirabai aposta nas ferramentas de autopublicação, pois elas permitem a democratização do lançamento tanto de livros impressos quanto digitais, além de oferecer retorno maior para o autor.
“Gente de qualquer canto do país e do planeta pode realizar o sonho de publicar o próprio livro. E com mais autonomia e liberdade”, afirma.

Autores que publicam livros pela Kindle Direct Publishing (KDP) podem disputar duas premiações literárias promovidas pela Amazon. Vai até 15 de outubro o prazo de inscrições para a terceira edição do Prêmio Kindle de Literatura, voltado para livros inéditos em português. O vencedor receberá R$ 30 mil e contrato de publicação com a Nova Fronteira para a versão impressa.

Este ano, a empresa lançou o Prêmio Livro-reportagem Amazon, destinado a obras publicadas no formato e-book, por meio do KDP. O prêmio é de R$ 10 mil e a versão impressa será publicada pela Editora Record. O prazo de inscrições se encerra em 31 de outubro.

 

PLATAFORMAS

» BOOKESS
www.bookess.com

» CLUBE DE AUTORES
www.clubedeautores.com.br

» KINDLE DIRECT PUBLISHING
kdp.amazon.com

 

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