Escândalo sexual inviabiliza Nobel de Literatura em 2018. Entenda

Resultado de julgamento do acusado, o francês Jean-Claude Arnault, deverá sair nesta segunda (1), quando se anuncia o vencedor em medicina

por AFP 01/10/2018 08:45
JONATHAN NACKSTRAND/AFP
Jean-Claude Arnault foi acusado por 18 mulheres (foto: JONATHAN NACKSTRAND/AFP)

A entrega dos prêmios Nobel de 2018 começa nesta segunda-feira (1º) com as distinções científicas, sem a de literatura, adiada até o ano que vem, devido a um escândalo de abuso sexual ligado à Academia Sueca. A instituição, que recebeu várias críticas por premiar o cantor americano Bob Dylan em 2016, anunciou no início de maio que o prêmio de literatura de 2018 será entregue junto com o de 2019.

 

A origem do escândalo é o francês Jean-Claude Arnault, acusado de estupro ou agressão sexual por pelo menos 18 mulheres, em novembro de 2017, semanas depois das denúncias contra o produtor de cinema americano Harvey Weinstein. A amplitude das denúncias acabou impulsionando internacionalmente o movimento #MeToo.


A maioria das investigações preliminares sobre Arnault foi abandonada por falta de provas, ou porque os crimes prescreveram, mas a Justiça sueca julgou um caso de estupro que remonta a 2011. Esse veredicto é esperado para hoje, mesmo dia da entrega do Nobel de Medicina.


Casado com uma integrante da Academia Sueca, Arnault é suspeito de ter assediado acadêmicas e mulheres ou filhas de acadêmicos. Uma investigação independente, feita a pedido da Academia após o escândalo, revelou os conflitos de interesse, a cultura do silêncio, as rivalidades internas e a opacidade que imperam na instituição.


A polêmica provocou a renúncia de oito dos 18 membros da instituição, que ficou sem o quórum de 12 pessoas, necessário para funcionar. O escândalo foi “desastroso para a reputação” da Academia, lamenta Madelaine Levy, crítica literária do jornal Svenska Dagbladet. “É uma velha instituição – criada em 1786 – que deveria ter sido reformada há tempos”, diz ela.

A HIPÓTESE COREANA Depois do Nobel de Medicina, previsto para hoje, serão entregues o de Física, na terça; o de Química, na quarta; o da paz, na sexta; e o de Economia, no dia 8. Na falta da premiação de Literatura, o Nobel da Paz, o único a ser anunciado e entregue em Oslo, concentrará todas as atenções. Não existe uma lista oficial de candidatos. Sabe-se apenas seu número: foram 329 indicações este ano. Entre os nomes que circulam está o do presidente americano, Donald Trump, por sua cúpula com o dirigente norte-coreano, Kim Jong-un.

 

Segundo o diretor do Instituto Internacional de Pesquisa sobre a Paz de Estocolmo (Sipri), Dan Smith, recompensar Trump seria “inoportuno”, após sua retirada de acordos multilaterais sobre o clima e o Irã. Poderia, então, o prêmio ser concedido ao presidente sul-coreano, Moon Jae-in, artífice de uma grande aproximação com a Coreia do Norte?


Seria “prematuro”, opina Dan Smith, que recorda as desilusões sofridas após a entrega do Nobel da Paz a seu predecessor, Kim Dae-jung, em 2000.


Entre os demais nomes potencialmente na disputa estão o célebre cirurgião congolês Denis Mukwege e a yazidi Nadia Murad. Ambos lutam contra a violência sexual. Dois organismos das Nações Unidas, o Programa Mundial de Alimentos (PMA) e a Agência da ONU para Refugiados (Acnur), também estão entre os favoritos, assim como o blogueiro saudita Raif Badawi e associações de defesa da liberdade de imprensa e dos direitos humanos na Rússia.

 

JONATHAN NACKSTRAND/AFP
JONATHAN NACKSTRAND/AFP (foto: JONATHAN NACKSTRAND/AFP)
 NÚMEROS


O Nobel foi atribuído 585 vezes para 923 ganhadores indivíduos ou organizações), entre 1901 e 2017. Um terço dos vencedores nasceu nos EUA.

6 vencedores rejeitaram o prêmio. Jean-Paul Sartre (literatura; 1964) e Lê Duc Tho (Paz; 1973) o fizeram voluntariamente. Os outros quatro foram obrigados por ditaduras  (a Alemanha nazista ou a União Soviética).

49 foram as vezes em que não se atribuiu o prêmio, sobretudo com o da paz, declarado deserto em 19 ocasiões, a última em 1972.

50 anos é o tempo que as deliberações dos jurados permanecem secretas.

48 mulheres venceram o Nobel, entre elas Marie Curie duas vezes (Física, em 1903, e Química, em 1911). O de Economia, que foi atribuído a somente uma mulher, e o de Física, com duas ganhadoras, são os mais fechados para elas.

 

COMO PERDER O PRÊMIO 

 

É mais fácil perder um Prêmio Nobel do que ganhá-lo. Emprestada para impressionar norueguesas em um bar ou dissolvida para escapar dos nazistas, a preciosa medalha sofreu todo tipo de vicissitudes na centenária história do Nobel. Embora não possa ser retirada do premiado em nenhuma circunstância, a medalha às vezes desaparece em condições bizarras, trágicas ou espetaculares. Confira alguns episódios:

» NOBEL DE ALQUIMIA  

Quando os nazistas invadiram a Dinamarca, em abril de 1940, o Instituto Niels Bohr se preocupou com o destino das medalhas que os cientistas alemães Max von Laue e James Frank, ganhadores do Prêmio Nobel de Física em 1914 e 1925, respectivamente, haviam guardado lá para evitar que fossem confiscadas.

 

“No império de Hitler, era quase um pecado capital tirar ouro do país, e como o nome de Laue estava gravado na medalha, se as forças invasoras a tivessem descoberto teria havido consequências muito sérias para ele”, escreveu em 1962 o químico húngaro George de Hevesy, que trabalhava no Instituto.

 

Em vez de enterrá-las, De Hevesy dissolveu as duas medalhas de ouro 23 quilates com água régia, um dos poucos reagentes capazes de atacar o nobre metal. Armazenada em uma prateleira do seu laboratório, a solução laranja passou despercebida pelos nazistas.

Uma vez terminada a guerra, George de Hevesy – que ganhou o Nobel em 1943 – provocou a precipitação do ouro em 1950, o que permitiu de novo à Fundação Nobel entregar as medalhas aos dois laureados alemães em 1952.

 

Em um episódio menos glorioso, Knut Hamsun deu de presente o seu prêmio de Literatura ao ministro da propaganda nazista Joseph Goebbels, em 1943. O escritor norueguês e simpatizante nazista foi condenado por traição em 1947 e passou o resto de sua vida em instituições mentais. Não se sabe o que ocorreu com sua medalha.


» LEILÃO FRANCÊS

 Pelas vicissitudes da vida, doações ou heranças, em alguns casos as medalhas mudaram de mãos e foram leiloadas... com resultados desiguais. O Prêmio Nobel da Paz (1926) do francês Aristide Briand foi vendido de forma póstuma pela quantia módica de 12,2 mil euros, em 2008.

 

Seis anos depois, o bilionário russo Alisher Usmanov adquiriu por US$ 4,1 milhões (sem contar as comissões) a medalha de James Watson, um dos descobridores da estrutura do DNA e autor de declarações polêmicas sobre a inteligência dos africanos.

Um ótimo negócio para o biólogo americano, porque o comprador decidiu devolver a medalha.

» OUROS PERDIDOS

   Houve também desaparecimentos involuntários. O Ecomuseu da cidade francesa de Saint-Nazaire não pôde desfrutar durante muito tempo da medalha de Aristide Briand, comprada por pouco dinheiro: ela foi roubada em 2015 e, desde então, não se sabe seu paradeiro.
Na Índia, ladrões se apoderaram em 2017 da medalha do Prêmio Nobel da Paz Kailash Satyarthi em sua residência. Era uma cópia – a verdadeira estava exposta em um museu – e foi rapidamente recuperada.

 

Menos sorte teve o premiado de literatura de 1913, Rabindranath Tagore, cuja medalha foi roubada em 2004 e continua em paradeiro desconhecido.


» DO OURO À IRA

 A advogada e defensora dos direitos humanos Shirin Ebadi acusou as autoridades iranianas de terem confiscado seus ativos alegando impostos não pagos, em 2009.

 

Um cofre onde havia depositado sua medalha do Nobel e sua Legião de Honra foi confiscado para pagar US$ 410 mil de impostos atrasados, diz ela, embora as autoridades o neguem. Após um escândalo internacional, Shirin Ebadi acabou recuperando seu prêmio.


» ‘GOLD’ WAR  

O nome dos laureados está gravado no verso da medalha, exceto nos prêmios da Paz e de Economia, que o carregam no canto. Isso aumenta as possibilidades de erro.

 

Os premiados com o Nobel de Economia em 1975, o russo Leonid Kantorovish e o americano Tjalling Koopmans, voltaram aos seus países com as medalhas “erradas”, relata o site dos prêmios (www.nobelprize.org).

 

Como os dois países estavam em plena Guerra Fria, foram necessários quatro anos de esforços diplomáticos para que as medalhas chegassem às mãos de seus verdadeiros proprietários.


» OURO PARA CONQUISTAR  

Pânico em uma noite de dezembro de 1999 na suíte do Grande Hotel em Oslo! A recompensa recém-entregue a Médicos Sem Fronteiras (MSF) desapareceu.

 

Todas as buscas foram infrutíferas e finalmente a polícia foi chamada. Os agentes a recuperaram no dia seguinte com seu estojo. Acredita-se que alguns membros da delegação francesa da MSF a pegaram emprestada para impressionar as norueguesas nos bares.

 

“Podiam-se ver as marcas de dentes de todos os que quiseram comprovar que a medalha era realmente de ouro puro”, escreveu Morten Rostrup, membro da delegação norueguesa, em livro publicado em 2006. “Mas teriam precisado de mais do que uma medalha Nobel para conquistá-las...”, detalhou em e-mail à reportagem. 

 

 

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