Viúva de Chorão fala sobre livro sobre líder do Charlie Brown

Em 'Se não eu, quem vai fazer você feliz?', Graziela Gonçalves revela bons e maus momentos que passou ao lado do líder do Charlie Brown Jr., que morreu de overdose em 2013

por Mariana Peixoto 01/10/2018 08:59
Acervo pessoal
Chorão e Graziela no dia de seu casamento (foto: Acervo pessoal)
"E se eu te disser que adoro uma confusão?"


Santos, verão de 1994. Foi essa uma das primeiras frases que Graziela Gonçalves, então com 23 anos, ouviu de Alexandre Magno Abrão. Um ano mais velho, o paulistano havia se mudado para a cidade litorânea no início daquela década. E já tinha feito fama.

Um casamento desfeito, um filho pequeno e nova confusão a cada fim de semana. Mas Graziela resolveu pagar para ver. Iniciava-se ali seu relacionamento com o Alê, como a viúva de Chorão chama o líder da banda Charlie Brown Jr.

Em Se não eu, quem vai fazer você feliz?, recém-chegado às livrarias, a viúva de Chorão reconta, em primeira pessoa, seu relacionamento de quase 20 anos com o músico.

Polêmico tanto na vida quanto na morte, Chorão foi encontrado morto na madrugada de 6 de março de 2013 em um apartamento em Pinheiros, Zona Oeste de São Paulo. Overdose de cocaína – apontou o laudo do Instituto Médico Legal, um mês mais tarde.

O músico, que completaria 43 anos em 9 de abril daquele ano, estava separado de Graziela desde novembro de 2012. “Gra, eu vou voltar. Te amo, tenha força, meu amor. Pra sempre te amo”, foi o recado dele para a mulher ao deixar o apartamento do casal.

“Uma catarse”, é como Graziela define o processo de revirar sua história e passá-la para o papel. “No começo, fugia principalmente na hora das partes mais difíceis, o final do relacionamento, o vício em cocaína. Essa ‘obrigação’ de revisitar o passado fez com que virasse uma chave dentro de mim. Passei a ver a minha história, inclusive as coisas ruins, com generosidade. Hoje, sei que a vida de ninguém é perfeita”, afirma Graziela, de 47 anos.

Renata Parada/divulgação
(foto: Renata Parada/divulgação)
FAMÍLIA
Chorão morreu há cinco anos e meio. O relacionamento com a família dele é complicado. “O filho (Alexandre Abrão) foi quem ficou com as coisas. Tenho cartas, bilhetes (alguns reproduzidos no livro), apesar de terem tentado tirar até isso de mim”, comenta Graziela.

Desde a morte do músico, ela foi procurada por três editoras para contar sua história. Às duas primeiras não demorou a dar o não. “Queriam um enfoque muito trash, falar de coisas que não queria”, conta. Depois de aceitar a proposta da Paralela (selo da Companhia. das Letras), Graziela levou os últimos três anos para finalizar o livro.

“Foi um processo bem complicado, achei que não fosse conseguir. No começo, houve uma pessoa para estruturar o texto, mas isso acabou não sendo usado. Como é uma história muito pessoal, queria dar a minha voz. Foram várias versões. Só de um ano para cá consegui encontrar o tom”, revela.

Musa de sucessos do Charlie Brown como Proibida pra mim (que tem o subtítulo Grazon, a maneira como Chorão a chamava), Te levar, Ela vai voltar e Hoje eu acordei feliz, Graziela conheceu o músico antes de a banda estourar com o primeiro álbum, Transpiração contínua prolongada (1997).

A narrativa, cronológica, é marcada pelos álbuns da banda (10 de estúdio). Livro para fãs, destaca na parte pessoal a insegurança emocional de Chorão, os (muitos) conflitos do Charlie Brown (o vocalista foi o único integrante que se manteve em todas as formações do grupo), a (hoje histórica) agressão física a Marcelo Camelo, em 2004. A dependência química domina a parte final do livro.

“O melhor e o pior de ser mulher de músico é não ter rotina”, comenta Graziela, que acompanhava Chorão no início da carreira. “Depois a gente vai cansando. E eu precisava ter a minha vida”, explica ela, que é estilista, mas recentemente vem atuando na produção de eventos.

CONEXÃO Graziela não se intimida em transformar suas memórias em um relato açucarado. “Repassei infinitas vezes cada detalhe daquela noite, cada olhar, cada palavra, sendo invadida por um turbilhão de sentimentos. Nossa conexão foi imediata e fulminante. Meu coração tinha um novo dono”, escreveu ela depois de seu primeiro encontro com o músico.

Uma das frustrações de Chorão, a viúva relata, foi a não realização de um sonho antigo: ser bombeiro. “Ele voltou para casa depois de algum tempo, com o rosto molhado das lágrimas que ainda caíam. O Alê descobriu uma série de procedimentos e exigências para ser bombeiro. Uma delas era a idade, que ele já tinha ultrapassado.”

Passado o turbilhão, Graziela, hoje em dia, prefere se concentrar nas coisas boas. “Ele tinha um coração grande demais, para o lado bom e para o ruim. A postura mais rebelde do Alê veio desde a época de skatista, não foi algo que ele desenvolveu quando se tornou artista. Os conflitos refletiam negativamente em casa e no trabalho, mas ele era tão amoroso que quando fazia porcaria, arrependia-se na hora”, finaliza.

 

TRECHO

“Fomos mais duas vezes à médica, mas depois ele se recusou a fazer qualquer exame e voltou a usar a droga diariamente. Ele já não se mostrava tão disposto a se abrir comigo, porém ainda havia momentos em que falávamos a respeito da situação. Numa dessas conversas, confessou que estava difícil encarar os fãs. Dizia que queria inspirar a molecada, mas que se sentia longe disso. Falava que era muito doído cantar algumas músicas, como Quinta-feira, sobretudo o refrão ‘parecia inofensiva/ mas te dominou’, que era como se ele estivesse cantando para si mesmo... Quando eu tentava falar no assunto de retomar o tratamento, ele se alterava, me chamava de chata e dizia que a nossa convivência estava ficando difícil, que ele era responsável por si mesmo e que não deixava seu problema interferir na vida profissional, do que eu discordava totalmente.”


SE NÃO EU, QUEM VAI  FAZER VOCÊ FELIZ?
De Graziela Gonçalves. Paralela, 262 páginas, R$ 49,90

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