O regime visto por dentro

Renato Alves lança O reino eremita: um jornalista brasileiro na Coreia do Norte, resultado de dois anos de pesquisa e de uma visita de 10 dias ao país asiático. É o terceiro livro-reportagem do autor de O caso Pedrinho

por Márcia Maria Cruz 28/09/2018 13:24

TV Brasília/Reprodução
O jornalista Renato Alves (foto: TV Brasília/Reprodução)

Mineiro de Sete Lagoas, o jornalista Renato Alves descortina a Coreia do Norte, nação comandada com punho de ferro, há 70 anos, pela dinastia Kim. Alves esteve no país asiático, em setembro do ano passado, para entender como ele se mantém fechado sob o comando do ditador Kim Jong-un. O resultado da imersão está no livro O reino eremita: um jornalista brasileiro na Coreia do Norte (Quixote+Do Editoras Associadas), que ele lança nesta sexta (28), nesta na Quixote Livraria, Editora e Café (Rua Fernandes Tourinho, 274, Savassi).

Trata-se do terceiro livro-reportagem de Renato Alves, autor de O caso Pedrinho (Geração Editorial, 2015) e O povo da lua (Outubro, 2016). O desejo de escrever sobre os dois primeiros temas surgiu depois que o jornalista produziu reportagens a respeito deles para o jornal Correio Braziliense. Dessa vez, ele fez o percurso inverso. Planejou a escrita do livro antes de cobrir o assunto no jornal. Alves se interessava por três destinos em que há restrições à democracia: Irã, Coreia do Norte e Síria.

 

Ao se decidir pela Coreia do Norte, a aventura estava apenas começando. Foi preciso conseguir o visto para entrar legalmente no país como repórter. “Queria ir pela via legal. Não queria correr riscos. Foram necessários cinco meses de conversa com a embaixada. Não é um processo aberto”, comenta.


Depois que obteve o visto, a decisão da data da viagem e até mesmo o hotel onde ele ficaria hospedado foi tomada pelo governo norte-coreano. Alves viajou para a China, para, de lá, seguir para a Coreia do Norte. “Comprei passagem para Pequim, ida e volta, sem ter a passagem para Pyongyang. Fui no escuro”, conta. Ele manteve segredo sobre a viagem – apenas a mulher e sua chefe tinham conhecimento do plano.

 

O jornalista chegou à capital norte-coreana exatamente na semana em que foi realizado o teste da bomba de hidrogênio, em setembro de 2017. “Era o único jornalista estrangeiro que estava lá”, relata. No entanto, nos 10 dias que passou na Coreia do Norte, Renato ficou incomunicável, uma vez que não há internet livre no país, apenas uma rede interna.


Para escrever O reino eremita: um jornalista brasileiro na Coreia do Norte, o autor pesquisou sobre a Coreia do Norte durante dois anos. Esse conhecimento prévio evitou que ele pudesse ser preso por atitudes consideradas subversivas pelo regime ditatorial. “Você viaja para Pyongyang em aviões militares. Eles distribuem jornal oficial com a foto de Kim Jong-un. Ninguém informa, mas é crime dobrar o jornal. Se dobrar a foto com o líder máximo, você vai preso. Já sabia dessa informação. Se não soubesse, teria sido preso no avião.”

 

Durante o período que esteve no país, Alves foi submetido à propaganda oficial. Todos os dias, era convidado a assistir a palestras de até três horas de duração com informações sobre a dinastia Kim. “Uma professora sentava comigo numa sala. Mesmo quando eu dizia que já havia lido sobre o tema que estava sendo informado, era ignorado, e eles seguiam na doutrinação.” A ideologia Juche, com as bases e ideais do regime norte-coreano, é disseminada para a população e para quem chega ao país.


Além da capital, Pyongyang, Renato pôde viajar para o interior do país, mas sempre acompanhado por agentes do governo. “Não me deixavam filmar e fotografar livremente. Às vezes, pegavam meus equipamentos e apagavam fotos”, diz. Ele não tinha privacidade nem no quarto do hotel.

 

“Isolaram-me no quarto de um hotel gigante, onde só ficam estrangeiros. Não podia sair sem os guias, que eram militares de alta patente. Não me deixavam ir à recepção. Muitas vezes chegava no quarto, e eles estavam revirando as minhas coisas.” Para o regime, não existe Coreia do Sul e Coreia do Norte – há apenas uma Coreia. “Eles acreditam que, um dia, as duas Coreias vão se unir.”


O jornalista observou que os norte-coreanos vivem com medo o tempo inteiro. O governo interfere até mesmo em decisões de foro íntimo, como o corte de cabelo dos cidadãos. “O Estado controla tudo. Levaram-me a uma barbearia e sugeriram um corte de cabelo. Eles têm lista com 14 cortes que podem ser feitos. Homem de cabelo grande? Jamais!”. Nos clubes, as mulheres usam roupas de banho que cobrem a maior parte do corpo e não podem mostrar o umbigo.


A Coreia do Norte mantém o sistema de castas sociais. “A população não tem chance de ascensão social. Se houver qualquer deslize, a pessoa pode ser rebaixada de casta. E não só ela. Toda a família, até a terceira geração. Se você fizer algo (contra o regime), seus avós, sobrinhos e filhos serão também punidos”, descreve.

 

No entanto, o governo se empenhou para que Renato Alves tivesse boa impressão do país. “Fizeram churrasco norte-coreano à beira de uma cachoeira maravilhosa. Fazem tudo para mostrar que os norte-coreanos são pessoas legais.”


Como o país sofre embargo, a população não tem acesso a muitos produtos, como, por exemplo, uma Coca-Cola. Nos hotéis para estrangeiros, porém, é possível comprar todos esses produtos. “Já fui em 40 países e lá encontrei a Coca pelo menor preço. Os oficiais do Exército têm acesso aos hotéis e podem consumir esses itens.”

 

O reino eremita: um jornalista brasileiro na Coreia do Norte
Renato Alves
Quixote Do Editoras Associadas (350 páginas, R$ 49,9)

 

 

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