As saborosas histórias de Drummond, Nava, Sabino e Hilda Furacão

O jornalista Wilson Figueiredo, de 94 anos, lança livro 'Os mineiros: modernistas, sucessores & avulsos'

por Mariana Peixoto 23/09/2018 08:00
Gryphus/divulgação
Gryphus/divulgação (foto: Gryphus/divulgação)

Corria o ano de 1944. A Segunda Guerra Mundial já começava a se definir, com a grande ofensiva dos soviéticos contra os alemães e o desembarque dos Aliados na Normandia. As notícias chegavam aos borbotões.

Foi nesta época que Mário Augusto Figueiredo, o doutor Mário, perdeu seu filho Wilson para as línguas e letras neolatinas. O jovem, então começando a vida adulta, decidiu que não seguiria a carreira do pai. A literatura havia vencido a medicina. Mas só naquele momento. Pouco depois, seria derrubada pelo jornalismo.

Wilson Figueiredo tinha 20 anos quando conseguiu um emprego. Primeira agência de notícias do Brasil, a Meridional, dos Diários Associados, precisava de alguém para reportar o conflito mundial. Grande amigo de Wilson e quatro anos mais velho, Carlos Castello Branco, o Castellinho, era repórter em ascensão na empresa jornalística de Assis Chateaubriand. Ofereceu a ele o emprego em Belo Horizonte.

“Recebia os telegramas e reescrevia tudo. Era um exercício muito bom, pois como estávamos em guerra, era notícia o dia inteiro”, relembra Wilson Figueiredo, que morou na capital mineira até 1957, quando Belo Horizonte o perdeu para o Rio de Janeiro, onde vive até hoje.

Os mineiros: modernistas, sucessores & avulsos – terceiro volume da Coleção Wilson Figueiredo, iniciada em 2014 pela Gryphus Editora – reúne artigos e entrevistas publicados por ele na imprensa entre 1952 e 2010. Organizados com a historiadora Vanuza Moreira Braga, os textos recompõem a Minas Gerais de outrora por meio de personagens cruciais da cultura e da política.

Carlos Drummond de Andrade, Pedro Nava, Afonso Arinos de Melo Franco, os quatro cavaleiros do Apocalipse (Paulo Mendes Campos, Otto Lara Resende, Fernando Sabino e Hélio Pellegrino), José Aparecido de Oliveira, Hilda Furacão e Autran Dourado são alguns dos personagens do livro. O jornalista José Maria Rabelo, que vive hoje BH, é o único ainda vivo dos retratados na obra.

LITORAL
Alguns textos foram extensas entrevistas. Outros, perfis escritos pelo “mineiro do litoral”, expressão que Figueiredo pegou emprestada de Rubem Braga. “Não é minha culpa se não nasci em Minas”, escreve o autor, nascido em Castelo, Espírito Santo, mas “adotado” por Belo Horizonte aos seis meses de idade – inclusive, foi batizado na Igreja de São José. Morou em Raul Soares, Divinópolis, Montes Claros e Uberaba.

Aos 94 anos, Wilson Figueiredo – ou Figueiró, apelido que ganhou na juventude de Pellegrino e o vem acompanhando pela vida afora – é uma força da natureza. “Não morri, mas posso te garantir: estou na fila”, fala ele com humor. Pai de quatro (“meus filhos já são idosos”), avô e bisavô (de “não me pergunte quantos”), Wilson mantém a mesma disciplina de sempre.

Ao deixar BH, rodou por algumas redações cariocas até chegar ao Jornal do Brasil. Participou da histórica reforma editorial e gráfica do diário carioca, onde atuou por 45 anos como redator e editorialista. Ao deixar o JB, tornou-se colaborador na FSB Comunicação, onde está na
ativa há 14 anos.

“Sempre trabalhei muito. Saía de casa de manhã, almoçava no trabalho e como sempre ocupei cargo de comando no jornal, é difícil dizer, mas você começa a viver aquilo tudo. A política local, os erros e acertos dos prefeitos, as datas comemorativas... O jornal passa a ser a sua vida. Minha vida é amarrada ao compromisso de trabalho, que se tornou um vício. Ainda hoje, não durmo antes da uma da manhã”, afirma.

BIBLIOTECA Figueiredo chegou ao Rio e foi viver no Leblon, seu bairro desde sempre. Tem um apartamento, onde mora sozinho desde que ficou viúvo. “Minha empregada sai no sábado e domingo, hoje acho ótimo ficar sozinho”, conta. Tem um outro bem próximo, no Jardim de Alá, onde guarda seu acervo. Não é um imóvel pequeno: sala e  três quartos abarrotados de livros, revistas e jornais. “É o apartamento para hospedar os parentes, mas hoje é a minha biblioteca. Já disse: enquanto eu não morrer, não sumam com meus livros. Depois, podem dar, doar meu arquivo”.

Todas as terças-feiras, religiosamente, Wilson se encontra lá com Vanuza Moreira Braga. A historiadora é responsável pela organização da coleção que leva o nome do jornalista – os livros anteriores são 1964: o último ato (2015) e De Lula a Lula (2016). “Fazemos tudo juntos e nunca entramos em desacordo. Ele é muito ativo, vê todos os textos, sugere, trabalha o tempo todo”, comenta Vanuza.

Quando o recorte dos escritores mineiros foi decidido para nortear o terceiro volume, os dois saíram em busca do material. Os mineiros: modernistas, sucessores & avulsos traz 22 textos. A pesquisa não foi necessariamente complicada. Muitos deles o próprio Wilson guarda em casa, em papel. Outros Vanuza encontrou na hemeroteca digital do JB na Biblioteca Nacional.

Boa parte dos textos veio a público em datas comemorativas. Aos cinquenta anos: Carlos Drummond de Andrade por seu irmão, Altivo Drummond de Andrade, que abre o capítulo Modernistas, foi publicado na extinta Folha de Minas em 1952. A entrevista com Altivo foi feita por Wilson e Cid Rebelo Horta. Na época, ele não poderia sequer imaginar que um dia se encontraria rotineiramente com Drummond.

“Naquela época, ele já não dava entrevistas. Então resolvemos falar com o irmão, que ainda morava em Belo Horizonte”, relembra Wilson. Muitos anos mais tarde, já radicado no Rio, ele passou a se encontrar com o poeta. “Quando ele, já aposentado, foi para o JB, escrevia sua coluna de casa e levava, todas as semanas, para o jornal. Batia papo com a gente, mas com aquela desconfiança mineira muito educada, de não querer intimidade.”

NAVA Proximidade maior Wilson teve com Pedro Nava, que, em 1979, concedeu a ele e Luiz Paulo Horta, no JB, a entrevista Do fundo do baú: As memórias de Pedro Nava. “Frequentava muito a casa dele, que gostava da vida, de receber visitas. Então, acabei viciado nesse negócio de visitar. Agora, essa entrevista acaba sendo um pouco chata, reincidente, pois voltamos muito a alguns assuntos”, afirma Wilson, que prefere o artigo Afonso Arinos, jornalista, publicado originalmente na Revista da Academia Mineira de Letras, em 2006. “É um apanhado mais livre do que a entrevista”, diz, referindo-se ao material feito para o JB, em 1965, para o texto Afonso Arinos aos 60, quando o homenageado era senador.

Incansável, Wilson olha para o futuro. Tem quase prontos dois livros de poesia, da qual havia se afastado há décadas. Na juventude, chegou a publicar duas coletâneas de poemas. “Acabei recolhendo logo depois, pois achei pouco expressivo. Era coisa de rapaz”, diz. Agora, na pesquisa com Vanuza, encontrou poemas inéditos. No fim das contas, o jornalismo, que o havia roubado da literatura, acabou devolvendo Figueiró às origens.

OS MINEIROS: MODERNISTAS,SUCESSORES & AVULSOS
• De Wilson Figueiredo
• Editora Gryphus
• 220 páginas
• R$ 44,90

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