Topa tudo por dinheiro: livro do jornalista Mauricio Stycer disseca o empresário Sílvio Santos

Lançada este mês pela editora Todavia, obra desfaz folclores em torno do mito da TV brasileira

por Ana Clara Brant 23/09/2018 07:00
SBT/Divulgação
(foto: SBT/Divulgação)

Em uma entrevista concedida por Silvio Santos ao jornalista Tão Gomes Pinto, da revista Veja, em 1975, o repórter quis saber: “Se você tivesse que optar por uma única atividade como empresário, qual seria?”. Silvio respondeu: “Eu seria sempre um homem de vendas”. A faceta de apresentador, ou melhor, de animador (como ele prefere) do dono do Baú da Felicidade é bastante conhecida e propagada. Mas é sobre sua atuação como homem de negócios que se concentra Topa Tudo por Dinheiro – As muitas faces do empresário Silvio Santos (Editora Todavia), que o jornalista e crítico de televisão Mauricio Stycer acaba de lançar.

“Ele nunca escondeu esse lado de comerciante. Muito pelo contrário. E acho muito honesto e transparente da parte dele. Silvio sempre fez questão de frisar que está na TV porque é a melhor forma de vender suas coisas; é um ótimo negócio. Ele é um animador que diverte o telespectador, mas está ali o tempo todo vendendo o peixe dele”, afirma Stycer.

A trajetória do empresário começou aos 15 anos, como camelô que vendia capas para proteger títulos de eleitor nas ruas do Rio de Janeiro, onde nasceu em dezembro de 1930. No final da década de 1950, tornou-se sócio do Baú da Felicidade. Estreou na TV em 1960, negociando os próprios produtos no programa Vamos brincar de forca, da TV Paulista (futura Globo). Silvio alugava horários na grade da emissora. “Isso continua até hoje, com ele comercializando seus próprios produtos, como a Tele Sena e (os cosméticos da) Jequiti. Silvio se define como um vendedor de si mesmo. É caso único de um dono do próprio canal ser o seu principal apresentador. Vem daí muito do encanto que ele exerce”, aponta o autor do livro.

O próprio Stycer admite não ter ficado indiferente a esse fascínio. “Por acompanhar televisão há muitos anos, leio praticamente tudo a respeito dele. Minha ideia era refletir e aprofundar sobre essa cobertura do dia a dia em torno do Silvio”, conta. Ele ressalta que sua intenção não era escrever uma biografia do apresentador – há ao menos seis já publicadas e uma em preparação. “É uma obra que tenta explicar muita coisa mal contada, mal explicada e, muitas vezes, alimentada pelo próprio Silvio. Quis focar em alguns aspectos que não foram muito explorados”, diz. O jornalista não chegou entrevistar o empresário. Para escrever o livro, conversou com pessoas que conviveram ou convivem com Silvio e vasculhou artigos, entrevistas e observações sobre e de Silvio Santos feitos desde 1952 até 2018.

Um dos temas analisados em Topa tudo por dinheiro é o vínculo do dono do SBT com a política. Stycer registra essa relação desde o início, há 60 anos. “Sem recursos para adquirir uma van, necessária para transportar os artistas da Caravana do Peru que Fala, com a qual rodava São Paulo, ele (Silvio) se ofereceu como garoto-propaganda de um conhecido político, Antonio Silvio Cunha Bueno (1918-1981), então candidato a deputado federal.

JIPE Em 1972, Silvio explicou: ‘Propus fazer 40 shows em praças públicas em troca de um jipe, que naquele tempo custava 200 mil cruzeiros. O candidato achou muito caro e se propôs a me dar metade do jipe, sugerindo que eu arranjasse um candidato a deputado estadual para pagar a outra metade. Arranjei o deputado Carlos Kherlakian, que só pagaria 50 mil cruzeiros, e eu topei, assinando promissórias dos 50 mil cruzeiros restantes.”

Quando se deparou com os nomes desses políticos na espécie de calçada da fama que fazia parte da exposição Silvio Santos vem aí!, montada há dois anos, no Museu da Imagem e do Som (SP), Stycer ficou intrigado. “Não entendia o motivo de os dois estarem ali, no meio de tanta gente que marcou a vida do Silvio. Ele considerou aqueles dois muito importantes. Por isso corri atrás da história e vi que foi a estreia dele na política”, conta.

O ápice do envolvimento do apresentador com a política se deu em 1989, quando Silvio se candidatou à Presidência da República. “Ele entrou na disputa faltando 20 dias para o pleito. Nem tinha o nome dele na cédula, e ele aconselhava as pessoas a marcarem o xis no 26, que era o número do partido. Era uma eleição extremamente importante para o país, já que era a primeira para presidente depois de anos. Mas acho que o Silvio não se deu conta desse grande momento. Chegou a fazer até galhofa com a história. Na minha opinião, foi um deslize e até uma irresponsabilidade da parte dele”, opina.

O livro também se dedica à ligação do empresário com os militares e menciona que, durante o governo de João Batista Figueiredo, um dos jurados de seu programa, Carlos Renato, era primo-irmão de Dulce Figueiredo, mulher do general, e que a concessão para os canais que formariam o SBT saiu em agosto de 1981. “Como empresário de comunicação, Silvio não foi muito diferente dos outros. Ele bajulou todo mundo que podia para conseguir o que queria. A TV no Brasil é por concessão. Não é algo que você vai e compra. Ele tinha que convencer o governo para consegui-la”, aponta.

MUDANÇAS As idiossincrasias de Silvio (e sua capacidade de irritar parte dos profissionais que trabalham para SS) são outro tema do livro. De acordo com Stycer, as constantes mudanças de grade determinadas pelo patrão chegaram a gerar nos corredores do SBT a brincadeira em forma de crítica de chamar a emissora de Silvio Brincando de Televisão. Como exemplos das reviravoltas, ele cita que o O Programa Livre, apresentado por Serginho Groisman entre 1991 e 1999, mudou de horário mais de 20 vezes nesse período. O programa Charme, de Adriane Galisteu, teve seu horário e seu formato alterados ao menos 15 vezes. “Teve uma vez que o programa estava sendo exibido de madrugada, e a Galisteu o apresentou usando pijama como forma de protesto. Essa questão de mudar tudo sempre foi notória lá dentro, mas o Silvio, pelo que parece, nunca ligou”, diz.

Stycer conta que foi um prazer pesquisar a vida de Silvio Santos, que ele classifica como um personagem absolutamente singular. “Ele não é um herói que alguns glorificam, mas é uma pessoa admirável e muito complexa. Recentemente, começamos a ter algumas polêmicas envolvendo suas declarações. Algumas foram tachadas de homofóbicas, racistas. É difícil chegar a uma conclusão sobre isso. Ao mesmo tempo que acho que as pessoas têm o direito de questionar, porque, afinal, ele entra na casa delas e estamos em tempos de questionamentos, do politicamente correto. Por outro lado, Silvio Santos é um homem que vai completar 88 anos que aprendeu a fazer TV em uma outra época, com outros valores. Há argumentos contra e a favor. O que ninguém pode discordar é que se trata de uma figura única.”

TRECHO
“Em outubro de 1987, na longa entrevista no Estadão, Silvio tenta explicar a origem do seu sobrenome: ‘O meu nome é Senor pelo seguinte...
Em mil quinhentos e quarenta e pouco havia na corte dos reis católicos de Espanha, Isabel e Fernando, um certo Dom Isaac Abravanel, que tinha sido ministro das Finanças de Portugal. Salvou Portugal da bancarrota e aí os reis de Espanha o chamaram. Mas teve de sair de lá com a Inquisição. Os reis chamaram-no e disseram que garantiriam a vida dele, mas não do povo judeu que vivia na Espanha. Dom Isaac preferiu sair com o povo, e foram para Salônica. Virou teólogo, escritor, mas depois foi para Veneza e lá voltou a ser financista. Mais tarde, foi de novo para Salônica. Meu pai, que descende de Dom Isaac, chamava-se Alberto e eu deveria me chamar Dom Abravanel. Mas disseram a ele que no Brasil não havia dom, mas senhor. Aí fiquei Senor.”

Topa Tudo por Dinheiro – As muitas faces do empresário Silvio Santos
>> Autor: Mauricio Stycer.
>> Editora: Todavia
>> Páginas: 256
>> Preço: R$ 54,90

['__class__', '__cmp__', '__contains__', '__delattr__', '__delitem__', '__dict__', '__doc__', '__eq__', '__format__', '__ge__', '__getattribute__', '__getitem__', '__gt__', '__hash__', '__init__', '__iter__', '__le__', '__len__', '__lt__', '__module__', '__ne__', '__new__', '__reduce__', '__reduce_ex__', '__repr__', '__setattr__', '__setitem__', '__sizeof__', '__str__', '__subclasshook__', '__weakref__', 'clear', 'copy', 'fromkeys', 'get', 'has_key', 'items', 'iteritems', 'iterkeys', 'itervalues', 'keys', 'pop', 'popitem', 'request', 'setdefault', 'update', 'values', 'viewitems', 'viewkeys', 'viewvalues']

MAIS SOBRE ARTES-E-LIVROS