"Ideias consideradas 'loucas' no passado hoje são realidade", garante Rutger Bregman

O historiador, defensor da renda básica, diz que o mundo não piorou e a pobreza se reduziu

por Mariana Peixoto 15/09/2018 09:30
Maartje ter Horst/Divulgação
Rutger Bregman defende carga laboral de 15 horas semanais. "Temos de repensar o trabalho", diz (foto: Maartje ter Horst/Divulgação )
O historiador holandês Rutger Bregman, de 30 anos, não tem medo de parecer lunático ao propor renda mínima universal, abertura das fronteiras e carga laboral de 15 horas semanais. A história, de acordo com ele, já mostrou: ideias que pareciam fantasias quando apresentadas pela primeira vez – fim da escravidão, direitos iguais para homens e mulheres – tornaram-se realidade.

No livro Utopia para realistas (Sextante), que acaba de ser lançado no Brasil, Bregman apresenta sua carta de intenções munido de bons argumentos e fundamentação histórica. Publicado em 2016 na Holanda, o livro foi vendido para 20 países. Suas ideias têm ganhado popularidade graças à internet – ele é autor do TED Talk “Pobreza não é falta de caráter, é falta de dinheiro” (2017).

Em sua primeira visita ao Brasil, Bregman conversou com o Estado de Minas. Na entrevista a seguir, ele explica as propostas de seu livro.

De acordo com o senso comum, o mundo está pior graças a desigualdades sociais, xenofobia, mudanças climáticas. Porém, você diz que no passado era muito pior. Por quê?

A razão principal são as notícias, o que o jornalismo está fazendo com a gente. A noção básica de notícia é o que acontece de excepcional no dia de hoje. Violência, corrupção, terrorismo, guerra etc., etc. É sempre sobre o que ocorre hoje e não sobre o que acontece todos os dias. Você nunca vê uma manchete que diz simplesmente que a pobreza diminuiu no mundo todo. E a razão pela qual você não vê é porque isso vem ocorrendo nos últimos 25 anos. A extrema pobreza diminuiu 50% desde os anos 1980; a fome caiu 30%. Em vários aspectos, o mundo vive hoje um dos períodos mais seguros da história. Mas como eu disse, você não fica sabendo disso pelas notícias. Precisamos de livros, de história, para ver o que realmente está ocorrendo.

Mas não podemos colocar a culpa da pobreza nas notícias, não é?
Não, claro. A questão é o tipo de informação que as pessoas estão recebendo. Se você não ler os jornais, como Mark Twain disse certa vez, você fica desinformado. Mas se você lê-los, fica mal informado. Isso ocorre porque se leem apenas as exceções. Em uma pesquisa feita em 30 países, foi perguntado se as pessoas achavam que a extrema pobreza havia aumentado, diminuído ou continuado igual. A imensa maioria das respostas foi de que ela aumentou. Mas, na realidade, nos últimos 20 anos, ela diminuiu pela metade. Então, alguma coisa terrivelmente errada deve estar acontecendo.

Acho complicado falar “não leia as notícias” na era das mídias sociais...
Pois acho que mais e mais pessoas estão realmente fazendo isso. Eu, por exemplo, não leio mais as notícias. Só que não estou falando de revistas e jornais que se destacam por histórias de fôlego, profundas. Falo das notícias do dia a dia, do ‘político disse isso, disse aquilo’. Todos podem se livrar disso.

Comparado à Holanda, como um país como o Brasil pode sustentar a renda básica?

Bem, a pergunta deve ser: como um país como o Brasil pode não implementar algo como a renda básica? O que tento dizer no livro é que a erradicação da pobreza, com a renda básica, é um investimento que se paga. Cada dólar, euro ou real investido retorna. Um relatório recente dos EUA mostrou que para cada dólar investido na erradicação da pobreza, havia sete dólares de retorno. E a razão é bem simples: a pobreza é extremamente cara, não temos condições de suportá-la. A pobreza gera alta de crimes, crianças indo mal na escola, etc. É um enorme gasto de talento e potencial humano.

Segundo dados do Fundo Monetário Internacional (FMI), o Produto Interno Bruto (PIB) per capita da Holanda é de US$ 56,4 mil, enquanto o do Brasil é de US$ 16,2 mil. Como as medidas propostas em seu livro podem ser adotadas por países com economias tão distintas?

Você está absolutamente certa, o livro foi escrito sob a perspectiva holandesa. Mas isso não significa que as ideias dele não sejam relevantes em países como o Brasil. Em vários aspectos, a renda básica é ainda mais relevante para um país como o Brasil. E a razão é bem simples: corrupção. A Holanda não tem muito o que dizer sobre isso, mas em países como o Brasil a renda básica seria uma grande maneira de contornar a corrupção. Todos esses programas dedicados à pobreza são muito burocráticos, o dinheiro não chega aos pobres. A renda básica é mais efetiva, pois o que se faz é destinar diretamente o dinheiro às pessoas.

Por que você acredita que, hoje em dia, seria possível implantar uma carga horária menor?
Se você quer ser mais produtivo, a primeira coisa a fazer é trabalhar menos. Pois se você está cansado, começa a cometer mais erros, deixa de ser produtivo. Temos que começar a repensar o que significa o trabalho. Hoje em dia, há muitas pessoas em escritórios trabalhando em coisas nada importantes, que passam horas em frente ao Facebook. Obviamente, precisamos de não ter esse tipo de trabalho e dedicar mais tempo a funções que não são pagas, como cuidar de crianças, de idosos ou então de algum projeto comunitário. Agora, ter renda mínima não é sentar no sofá e ficar vendo Netflix. É dedicar o tempo a coisas mais valorosas, seja um trabalho voluntário ou algum tipo de paixão, como música e literatura.

Mas 15 horas semanais, que é o que você propõe, significariam três horas por dia. É muito pouco, não?

Meu livro se chama Utopia para realistas, ou seja, é sobre ideias loucas que podem ser tornar reais no futuro. Cada conquista da civilização – democracia, direitos iguais para homens e mulheres, fim da escravidão –, todas elas eram utopias loucas, fantasias, até se tornarem realidade. Foi o grande economista britânico John Maynard Keynes quem falou que, em 2030, as pessoas trabalhariam 15 horas por semana e os robôs fariam o resto. A promessa da tecnologia é de que em algum ponto do futuro o trabalho seria função dos robôs e a vida das pessoas seria mais igualitária.

Sextante/reprodução
(foto: Sextante/reprodução)


Você é um crítico das esquerdas, principalmente do “discurso perdedor”. Como renová-lo?

Vocês já têm seu próprio Trump, certo? É muito fácil ir contra o Bolsonaro, ficar horrorizado com tudo o que ele faz e diz. Mas isso não é suficiente, esse problema está no mundo todo – Europa, EUA e até mesmo no Japão. As pessoas só sabem o que são contra: racismo, homofobia, establishment, capitalismo, blá blá blá. Martin Luther King, o grande ativista, não falava em pesadelo, falava que tinha um sonho. O mais importante é mudar o assunto, trazer à tona ideias próprias e não ficar falando do próprio Trump o tempo todo. Deve-se encontrar outra agenda, e o jornalismo tem grande responsabilidade sobre isso. Se ficarmos dando atenção demasiada a todos os demagogos e populistas, seremos cúmplices na construção dessas figuras. Eles demandam atenção e, obviamente, os meios de comunicação têm que reportar o que está ocorrendo. Mas a desproporção é absurda. O grande desafio para a esquerda e os progressistas é mudar de assunto. Não diga apenas o que você é, mas sim o que você é a favor.

UTOPIA PARA REALISTAS
• De Rutger Bregman
• Sextante
• 256 páginas
• R$ 39,90 (livro)
• R$ 24,99 (e-book)

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