Jornalista André Nigri lança 'Paralisia'

No romance de estreia, o autor mergulha nos sentimentos e ações de um homem dilacerado pelo abandono. Livro tem lançamento nesta quinta, em Belo Horizonte

por Pablo Pires Fernandes 12/09/2018 08:00
Por toda parte se fala de Jofre. Sobretudo as mulheres, várias delas, incluindo a mãe e a filha. Jofre também fala de si mesmo e não é condescendente. Com ninguém. Mas o leitor vai descobrir o personagem e suas diversas facetas aos poucos na história narrada por André Nigri. Romance (ou novela) de estreia do escritor mineiro, Paralisia é estranho, o que é uma qualidade.

Repleto de ambivalência, o personagem central são muitos. Bom e perverso, mesquinho e generoso, afetuoso e vingativo. Assim, aos pedaços, o escritor cria um livro surpreendente, manejando recursos narrativos distintos para formar o retrato de um sujeito que todos conhecemos, mas talvez sem saber da extensão do que ele é capaz. A seguir, a entrevista de André Nigri ao Estado de Minas sobre seu livro.

O personagem se revela aos poucos, mas há ambiguidade e contradições entre o que ele é e o que aparenta ser, uma realidade um tanto ilusória. Como se deu a construção do personagem, que é bem fragmentado?
A construção de Jofre Monteiro começou pelo avesso dele. Tudo o que havia dentro dele foi expelido na primeira parte: a dor, o rancor, a raiva, a impotência, numa espécie de autoimolação. Os capítulos da primeira parte do romance são assinalados não por números, mas por marcos temporais (novembro, dezembro, Natal e ano-novo) entremeados por subdivisões de e-mails; todos, com exceção de um, não enviados para a mulher que acabou de abandonar o marido. Nesses títulos já se revelam as ambiguidades. Ora, Natal e ano-novo são marcos da nossa cultura que nos obrigam a celebrar a alegria do nascimento e da renovação. Aí estão as realidades ilusórias a impor ser feliz ou parecer feliz. Mas os pedaços do personagem estão estilhaçados e rompidos pelo sofrimento do abandono. Ao procurar se erguer sobre os escombros dessa demolição de uma união – a qual, diga-se, ele não fez muito para manter de pé –, o protagonista mira num alvo e acerta noutro. Na segunda parte, ele é desenhado pela família – o pai e a mãe – e pelas ex-mulheres. Na terceira, ele reaparece mais inteiro, ou pelo menos se iludindo de que está mais inteiro ao achar ter rompido com o passado. Mas o que ocorre é que nunca nos livramos do passado. É justamente porque se quer ter tudo que não se tem nada e se vive nessa contradição permanente, tentando corrigir o passado, um passado que é irrevogável. O máximo a que se pode aspirar é se conformar com ele e seguir adiante.

A visão de mundo do personagem alterna sarcasmo com uma ternura um tanto idílica que o faz oscilar entre posturas bem distintas. Como vê essa dualidade?
O personagem se revela na ambivalência. O idílio habita dois tempos: o passado e o futuro. Nos e-mails que escreve à ex-mulher, ele recorda os momentos idílicos do passado em comum, e esse passado, principalmente porque visto da perspectiva do presente dilacerante, só podia ser revestido de ternura. E a ternura é pura nostalgia. Vivemos o tempo todo nostálgicos, com exceção de quando somos crianças e ainda não temos um passado para idealizar. Ao mesmo tempo, ilusoriamente nos enganamos, achando uma nostalgia que ainda não vivemos, mas que acreditamos poder criar no futuro. A contrapartida dessas lembranças são a raiva, o desejo de vingança e a crítica aos momentos que passaram juntos. É o presente que se insinua dilacerante e destruidor. Não há nada que nos cause mais sofrimento que o abandono, e Jofre reage a ele com as poucas armas que lhe restam, a principal delas é o sarcasmo. De modo que o personagem se revela como absolutamente dividido e incapaz de unir e de se recompor.

A fragmentação surge também na multiplicidade de vozes narrativas. Isso é reflexo da contemporaneidade?
A polifonia da segunda parte quebra a unidade de ação, que será retomada na terceira parte. Foi por meio das vozes da mãe (no registro da confissão), do pai (por meio de fragmentos de um diário) e por suas ex-mulheres (em monólogos) que procurei examinar o passado de Jofre. Poderia fazer isso de modo linear, mas me parecia uma saída convencional. Preferi correr os riscos de quebrar a narrativa. Essas múltiplas vozes remetem à música. Na época em que escrevia o livro, havia alguns anos que vinha escutando sonatas. Sem que me desse conta, os movimentos da forma sonata impuseram seu ritmo ao romance. Pode-se pensar a primeira parte como um prestíssimo, a segunda como variações e a terceira como um adágio. Mas só me dei conta disso depois de terminar a primeira versão.

Como percebe (e expõe no livro) o que as pessoas são e o que elas aparentam ser para as outras pessoas?
Nós nos enxergamos de modo totalmente diferente de como somos vistos. O contraste se revela o tempo todo. Por exemplo, quem nunca experimentou a frustração de ter dito algo e logo depois ter se arrependido? Nossos pensamentos nunca coincidem perfeitamente com o que vemos.

Como se colocam as referências literárias que permeiam o livro, desde as epígrafes quanto no próprio corpo do texto?
A última coisa que desejaria era exibir qualquer tipo de erudição. Mas, lembre-se, se o personagem tem tantas referências na literatura é porque os livros são parte importante de sua formação ou, para dizer em outros termos, de sua educação sentimental. Ele sempre leu, no que se pode pensar até num certo bovarismo. Para dar conta de entender o que se passa, ele recorre aos escritores que lhe moldaram a maneira de encarar a experiência.

Como o Brasil aparece no livro? A visão de uma burguesia é bastante ácida, não?
Está insinuada por toda parte, sobretudo na terceira. Mais uma vez, ao me concentrar na vida de um personagem – Jofre é filho de uma burguesia parasitária, é um rentista, filho de um famoso advogado, famoso por livrar políticos de processos e favorecer empresários –, percebi que ele não poderia existir senão num país onde a segregação social, o preconceito, o racismo e outras formas de violência estivessem presentes. Há poucas sociedades em que a violência é mais velada do que a brasileira. Não temos a menor noção de coletividade. Nesse sentido, não somos uma nação, mas um aglomerado em que um pequeno grupo de privilegiados protege-se em enclaves, enquanto a imensa maioria está entregue à própria sorte. Fracassamos fragorosamente como nação.

['__class__', '__cmp__', '__contains__', '__delattr__', '__delitem__', '__dict__', '__doc__', '__eq__', '__format__', '__ge__', '__getattribute__', '__getitem__', '__gt__', '__hash__', '__init__', '__iter__', '__le__', '__len__', '__lt__', '__module__', '__ne__', '__new__', '__reduce__', '__reduce_ex__', '__repr__', '__setattr__', '__setitem__', '__sizeof__', '__str__', '__subclasshook__', '__weakref__', 'clear', 'copy', 'fromkeys', 'get', 'has_key', 'items', 'iteritems', 'iterkeys', 'itervalues', 'keys', 'pop', 'popitem', 'request', 'setdefault', 'update', 'values', 'viewitems', 'viewkeys', 'viewvalues']

MAIS SOBRE ARTES-E-LIVROS