Ana Maria Machado refuta crítica de que livro faz apologia ao suicídio

Escritora reage com "incredulidade" à acusação de que uma passagem de seu livro em que garoto se imagina engasgando com a fruta faz apologia ao suicídio. O menino que espiava para dentro foi lançado em 1983

por Ana Clara Brant 10/09/2018 08:00

 

BEL PEDROSA/DIVULGAÇÃO
(foto: BEL PEDROSA/DIVULGAÇÃO)
“Desta vez ele teve mesmo que esperar. Como as compras só chegaram quando ele estava no colégio, ainda teve que esperar a volta, o jantar e a hora da sobremesa. Quase não aguentava mais. Aí resolveu que o melhor era deixar para engasgar com a maçã na hora de deitar quando estivesse sozinho. E que a família dele era tão desligada dessas coisas que era até capaz de alguém dar um tapa nas costas dele só para desengasgar, e aí estragava o plano todo.”


O trecho acima faz parte do livro O menino que espiava para dentro, lançado em 1983 pela escritora Ana Maria Machado, com ilustrações do premiado Alê Abreu (O menino e o mundo). Apesar de seus 35 anos de lançamento, a publicação causou rebuliço na semana passada, quando uma mãe do Recife (PE) publicou em uma rede social que seu filho perguntou a ela “se era verdade que se engasgasse com uma maçã e ficasse sem respirar ele conseguiria ir até o encontro do seu mundo da imaginação”.

“Ele me disse que o menino do livro que estava lendo tem um amiguinho imaginário que mandou ele fazer isso, ou seja, que se ele engasgasse com uma maçã, ele acabaria com todos os problemas! Faço um apelo aos pais que conversem, monitorem e protejam seus filhos dessas estimulações perigosas que estão por toda parte...”, escreveu a mãe em sua rede social, gerando uma avalanche de compartilhamentos e comentários segundo os quais a obra fazia apologia ao suicídio entre crianças.

A primeira reação da autora diante da polêmica foi de incredulidade. “Eu estava viajando de avião, vindo de Manaus e Santarém, onde fizera uma palestra. Na escala em Brasília, indo direto de um avião para outro, um telefonema de meu filho me alertou. E uma mensagem da editora. Mas eu não avaliava a extensão. Só fiquei incrédula, achei que era uma pegadinha de mau gosto”, disse Ana Maria Machado, em entrevista ao Estado de Minas. Quando chegou ao Rio de Janeiro, onde mora, bem tarde da noite, é que a escritora foi se dar conta de como a história havia se espalhado. “Foi um choque; como se tivesse levado um tiro de um franco-atirador que não sei onde se escondia. Ou como se viesse passando pela rua e me caísse na cabeça uma bigorna que me achatou. É tão absurdo que a gente não sabe como reagir. Mas por outro lado, a avalanche de mensagens de apoio e carinho, num tsunami de solidariedade, me mostrou como eu não estou sozinha, e agradeço a todos”, comentou.

 

"Foi um choque; como se tivesse levado um tiro de um franco-atirador que não sei onde se escondia. Ou como se viesse passando pela rua e me caísse na cabeça uma bigorna que me achatou. É tão absurdo que a gente não sabe como reagir. Mas por outro lado, a avalanche de mensagens de apoio e carinho, num tsunami de solidariedade, me mostrou como eu não estou sozinha, e agradeço a todos”

 

Ana Maria Machado, escritora 


SONHO O menino que espiava para dentro conta a história de Lucas, garotinho que tem facilidade de sonhar e imaginar. Mesmo sendo muito observador, tudo é motivo para ele se distrair e entrar em outro universo. Inventa um amigo, anda sobre ondas, come a maçã do sono profundo – a que despertou o rebuliço – mora em conchas, voa pelos ares, vê automóveis-leões, bosques de caramelos.

Ana Maria Machado, um dos principais nomes da literatura infantojuvenil no Brasil, imortal da Academia Brasileira de Letras (ABL), diz não fazer ideia do porquê de tanto alvoroço em torno do livro, após mais de três décadas de publicação. “É um mistério. Mas talvez faça parte do clima leviano, cheio de opiniões de ódio e confronto, que está nos caracterizando. Nunca tive nenhum problema com qualquer livro que tenha escrito. Por isso, como qualquer pessoa, me sinto completamente despreparada para lidar com isso”, desabafou. Alguns dos pais que levantaram a polêmica chegaram a escrever na página da autora no Facebook. Uns pediam explicações, outros a ofenderam até com palavrões, mas a maioria demonstrou solidariedade. “Mas eram tantos que não dava para responder, e a página saiu do ar”, conta.

A Global, editora responsável pelo livro, emitiu nota de apoio a Ana Maria Machado. “Esclarecemos que as referências à maçã e ao fuso são alusões às histórias da Branca de Neve ou da Bela Adormecida e constituem parte integrante do universo da história, sustentando o argumento de que imaginar pode ser muito bom, mas a realidade externa se impõe. Conversar com os outros (como a mãe) é fundamental, e a afetividade que nos faz felizes está ligada a seres vivos e reais. O livro foi publicado em 1983 e até o momento não havia despertado nada de negativo nessa área. Inclusive, trata-se de uma obra adotada em diversas escolas brasileiras”, diz a nota. “Tem muita gente maravilhosa e corajosa me defendendo em todo canto. Evidentemente falei com meu advogado. Afinal, quem me calunia está me acusando de um crime que jamais cometi – e a lei prevê pena para esses casos. Uma investigação policial tem condições de traçar de onde veio. Fico com muita pena. É uma tristeza o Brasil ter chegado a esse ponto”, lamenta a escritora.

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