Livro sobre Maria Bonita revela detalhes de código cruel contra mulheres no cangaço

Jornalista Adriana Negreiros conta a história pela perspectiva das mulheres daquele período e de suas contemporâneas no sertão

por Nahima Maciel 08/09/2018 08:17
Virgulino Ferreira, o Lampião, e Maria Bonita (no centro) cercados de cangaceiros no sertão

Maria Bonita era uma mulher transgressora. Naqueles anos 1920, mulheres não podiam votar nem se divorciar. “Puladas de cerca” masculinas eram naturais e esperadas, contrair doenças venéreas costumava ser visto como símbolo de virilidade. Mas ai da mulher que resolvesse ter amante. Risadas altas eram sinal de vulgaridade e, no código cruel do cangaço, mulher que traía podia ser apedrejada. No entanto, Maria da Déa – no sertão e por todo o Nordeste, era comum o pronome de posse atrelado ao nome da pessoa para indicar a quem “pertencia” – não temia o marido, o sapateiro Zé de Neném.

Quando ele trampolinava, ela ficava zangada, refugiava-se na casa dos pais e se divertia no forró. Insatisfeita com a vida sexual e o casamento com Zé de Neném, Maria não hesitava em declarar o fascínio por Lampião, o fora da lei mais temido e procurado do Nordeste. Fugiria com ele em um estalo caso Virgulino Ferreira da Silva quisesse. Certo dia, ele quis. Maria deixou de ser Da Déa para se tornar Bonita e virar símbolo de valentia no cangaço. Essa trajetória a jornalista Adriana Negreiros conta com detalhes em Maria Bonita – Sexo, violência e mulheres no cangaço (Objetiva).

Quando começou a pesquisa para o livro, Adriana não imaginava a dificuldade em reunir informações. A história do cangaço sempre foi contada do ponto de vista masculino, com Lampião como protagonista. “Mas me deparei com uma grande lacuna de informação sobre essas mulheres”, diz a autora.

“E decidi contar a história a partir da perspectiva da Maria Bonita e das outras cangaceiras que compuseram o bando. Ao longo da pesquisa, fui percebendo essa questão do silenciamento: essas mulheres tinham suas narrativas constantemente desacreditadas, e achei que seria uma boa contar a história dessa maneira”, afirma Adriana, que mergulhou em reportagens publicadas em jornais da época, na bibliografia oficial, mas também num sem-número de publicações de memorialistas do cangaço guardadas em coleções particulares. Raras vezes as mulheres ganharam voz nessa narrativa, embora algumas, como Dadá (Sérgia Ribeira da Silva) – cujo depoimento foi colhido por vários pesquisadores até sua morte, em 1994 – tenham sido fontes importantes em relação à vida das mulheres no cangaço.

Maria Bonita entrou para o cangaço por vontade própria, mas não foi o caso de boa parte das mulheres cujas vidas acabaram atreladas aos cangaceiros. Muitas eram raptadas, violentadas e sofriam todo tipo de violência. Foi o caso de Dadá, estuprada inúmeras vezes por Corisco, aos 14 anos, quando foi levada da casa dos pais. No entanto, a imagem que se construía delas era outra.

LÓGICA
“Percebi que essa lógica do silenciamento das mulheres, de não dar voz a essas mulheres, é uma lógica que já vem de muito tempo”, conta Adriana, que é nordestina de Mossoró (RN), cresceu em Fortaleza e ouve, desde pequena, as histórias do cangaço. “Quando se descobriu que as mulheres começaram a entrar para o cangaço, os jornalistas noticiavam isso, mas não davam grandes cabimentos para essa história. Havia pouca informação sobre as mulheres e, geralmente, essas informações eram fornecidas pela polícia, fonte oficial dos repórteres. Então, há muita informação distorcida sobre essas mulheres, elas são tratadas como bandidas, você tinha uma visão de que eram tão criminosas quanto seus companheiros.”

No livro, Adriana narra em detalhes a vida das cangaceiras. Elas não eram admitidas em batalhas, mas acabavam submetidas a um código cruel e implacável, incluindo uma rotina de sexo e violência. Traições eram punidas com morte; gravidez, quando acontecia, também engendrava uma sentença trágica: a criança era deixada com alguma família de coiteiros (que davam abrigo aos bandos) e a morte era uma perspectiva real em um parto sem assistência alguma.

As contextualizações acompanham toda a narrativa de Adriana, e a autora faz questão de pontuar os acontecimentos do livro com os fatos históricos que marcaram aquela década de 1930. Aos 43 anos, ela encara a obra como uma atitude política e feminista. “O livro veio no momento em que comecei a me perceber e me assumir como uma feminista. Então pensei: já que vou contar uma história que me interessa tanto, uma história do cangaço, tenho que tomar uma atitude política e contar da perspectiva das mulheres, até para romper um pouco com essa tradição de se contar tudo da perspectiva dos homens”, diz. Impressionada com a figura de Maria Bonita e com as semelhanças entre a maneira como as mulheres eram tratadas e os dias de hoje, a autora procurou, também, estabelecer um paralelo que diz muito sobre o Brasil de hoje.

TRECHO
Embora criticasse sua aparência, preferindo que ela fosse mais alta e magra, Sila gostava de Maria de Déa. Com a morte de Neném, a quem ambas tinham como melhor amiga, as duas se aproximaram. Nos primeiros contatos, dada a posição da Rainha do Cangaço, Sila achou adequado tratá-la por dona Maria. Mas foi repreendida. “Dona é mulher de coronel”, respondeu.

Sila e Maria brincavam juntas de casinha. Na modesta bagagem que levara para o cangaço, a mulher de Zé Sereno incluíra suas bonecas: Rosinha e Branca. Ao ver os brinquedos, Maria se ofereceu para lhe costurar roupinhas e sugeriu que providenciassem outra boneca, para ser a empregada. A exemplo do que ocorrera com Dadá, Lampião manifestou algum espanto ao conhecer a menina. “Zé Sereno não queria mulher, mas sim uma filha”, brincou o capitão.

Numa das primeiras vezes em que Zé Sereno fez sexo com Sila, ela engravidou. Aos primeiros sintomas da gestação – cansaço e enjoos – imaginou estar apenas doente. Foi uma colega, Enedina, mulher do cabra Zé Julião, vulgo Cajazeira, quem lhe diagnosticou o estado interessante. Aos 12 anos, Sila não fazia ideia de como se sentiam as grávidas.

Como era comum entre as bandoleiras, Sila passaria os nove meses de gravidez de pouso em pouso, correndo das volantes e enfrentando tiros, fome, exaustão e sede. Tida como apetitosa pelo tenente Zé Rufino e seus soldados – que insultavam Zé Sereno, de longe, afirmando que iam pegá-la para lhe mostrar “o que é homem” –, a menina enfrentava um temor ainda maior de ser violentada.


Maria Bonita — Sexo, violência e mulheres no cangaço
• Adriana Negreiros
• Objetiva (296 págs.)
• R$ 49,90

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