Três artistas mineiros defendem a pintura como forma de expressão

Manuel Carvalho, Leonora Weissmann e Alan Fontes falam como o impasse político do país e a crise econômica afetaram a arte

por Walter Felix 04/09/2018 09:18
Leonora Weissmann/divulgação
Tela Kristoff Silva e o Himalaya (foto: Leonora Weissmann/divulgação)
Neste século, a pintura desponta como a mais potente e expressiva linguagem nas artes visuais de Belo Horizonte, apontava matéria do Estado de Minas publicada em fevereiro de 2015. O jornalista Walter Sebastião destacava três nomes: Alan Fontes, Leonora Weissmann e Manuel Carvalho. Três anos depois, o trio fala sobre sua produção mais recente e sobre o cenário da pintura, impactado por mudanças econômicas, sociais e políticas do Brasil.

Além de expor no país, Alan Fontes participou de duas mostras em Nova York e uma em Buenos Aires. O artista plástico, de 37 anos, dedica-se à pesquisa sobre paisagem e a memória. Esse é o tema de um de seus últimos trabalhos, que teve como pretexto poético as transformações do espaço urbano do Rio de Janeiro devido às obras para a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos. Em 2016, o Poéticas de uma paisagem – Memória em mutação rendeu a ele o Prêmio CCBB, conferido pelo Centro Cultural Banco do Brasil.

Atualmente, Alan exibe trabalhos na galeria carioca Luciana Caravello. A série relembra a Exposição Nacional de 1908, realizada no Bairro da Urca, em comemoração ao centenário da abertura dos portos brasileiros. “Em 2015, eu já iniciava esse viés com momentos históricos, dando dimensão poética a lembranças, memórias e registros que se perdem com o tempo”, explica Alan.

O mineiro diz que o caos na economia brasileira reduziu tanto o fomento quanto editais e outras oportunidades para os artistas. “Em 2015, vivíamos o resultado de uma sequência de anos favoráveis. O cenário, hoje, é bem mais difícil, com galerias fechando e financiamentos minguando”, observa. “Há uma dificuldade momentânea das galerias em estabelecer a entrada de novos artistas no mercado, mas eles têm conseguido burlar a situação com a ajuda de uma grande rede de espaços expositivos, além de iniciativas independentes”, pondera.

As dificuldades, segundo Alan, não prejudicam o processo criativo. “O momento de crise e de certa tragédia nas expectativas sobre nosso futuro recente serve até de substrato para uma pintura mais atuante. A necessidade do artista vai além da questão de mercado”, afirma.

Daniel Pintho
Pintura de Alan Fontes (foto: Daniel Pintho)
Assim como há três anos, Alan questiona o protagonismo por vezes concedido à pintura. Ainda que essa linguagem domine o calendário de exposições artísticas em BH, Alan observa que, hoje em dia, ela ocupa posição igualitária em relação a outras expressões das artes visuais, como a performance e a fotografia. “O bom número de mostras reflete apenas a grande quantidade de artistas que estão pintando”, acredita.

“A pintura continua com grande alcance, até por nossa história e tradição de assimilar a arte por meio dela, mas sinto uma mistura bem democrática de linguagens”, diz ele, que destaca a ampliação do espaço da pintura para além das telas, citando o grafite e a arte urbana, muito presentes na capital mineira.

PRAGMATISMO A experiência adquirida nos últimos três anos e as novas circunstâncias do Brasil impactaram a arte de Manuel Carvalho, de 37. Sua produção traz conteúdo político mais explícito e a evolução de elementos que ele começara a investigar em 2015 – como a interferência de abstrações nas telas figurativas. “Essas interferências saíram da experimentação da linguagem e atingiram outro tom. Viraram algo simbólico dentro do que faço. Velar uma imagem é um ato simbólico”, afirma.

“Meu processo criativo sempre vem de coisas que me interessam. Gosto de investir naquilo que não sei, de forma experimental, sempre tentando ampliar meu repertório ou me aprofundar no que já faz parte do meu trabalho.” Essa proposta marca as telas da série Anacolutos, a que Manuel se dedica atualmente. Ele usa óleo e acrílica em produções que transitam entre o figurativo e o abstrato.

Bruno Duque
Tela da série Anacoluto, da Manuel Carvalho (foto: Bruno Duque)
Nesses últimos três anos, o mineiro de Lavras mantém uma relação pragmática com o mercado da arte. “A venda dos trabalhos é muito importante por permitir que produza e invista mais na minha produção. Além de pagar as contas, obviamente”, diz. Algumas de suas telas recentes dialogam com o momento político. Na série Lobby Brasil, que integrou exposições coletivas, Manuel reconfigura ícones da Bandeira Nacional. “Não trato especificamente de pautas políticas, mas elas não passam batido. Não sou aquele tipo de artista insensível a esses momentos”, reforça.

A pintura encontra sobrevida nesses tempos de crise, acredita Manuel Carvalho. “Ao contrário de uma performance ou uma apresentação, trabalhos tridimensionais são usados como móveis e a pintura acaba sendo privilegiada. As pessoas que compram arte têm maior ligação com o objeto.” Manuel nota, também, que o eixo Rio-São Paulo ainda se configura como espaço de legitimação do artista brasileiro. “Aparecer por lá é como aparecer para o Brasil inteiro. Aqui em BH, isso não ocorre”, observa.

“Não estar presente em São Paulo ou no Rio te deixa menos visível”, concorda Leonora Weissmann, de 36. “Por esse motivo, estamos sempre tentados a nos mudar para essas cidades. Ficar limitado é angustiante para qualquer artista.” Em 2015, Leonora enfatizava a importância do diálogo com o público, criticando a presença limitada dos belo-horizontinos em centros culturais, fenômeno que não nota nas outras capitais, “onde há maior interesse, curiosidade e tradição de visita a espaços expositivos e a aberturas (de mostras).”

ABALO O contexto brasileiro impacta a cena da pintura, mas de forma subliminar, acredita ela. “Continuamos com nossas buscas individuais, mas houve um abalo, principalmente nas vendas. O processo criativo acaba influenciado também, porque ele é sempre contaminado por tudo o que acontece à nossa volta”, avalia. “Alguns artistas têm engajamento mais claro, tratam literalmente dos assuntos, mas no que faço as questões aparecem de forma menos explícita ou óbvia. Talvez nem eu mesma perceba tão claramente as mudanças.”

Nesses três anos, além de vivenciar os altos e baixos na cena brasileira, Leonora enfrentou outra grande mudança: a maternidade. “Tive dois filhos e não é fácil continuar com o mesmo pique. Ser mãe foi incorporado no meu próprio trabalho”, lembra. Sua última exposição em BH, no início deste ano, foi Estranho mundo próximo, na AM Galeria. Os trabalhos retratavam o que é estranhamente familiar, com imagens de parentes, amigos e ídolos.

A pintura não priva Leonora de experimentar outras formas de arte. Cantora, ela se dedica a novos projetos – em especial, a criação de cenários para espetáculos. “Conceitualmente, meu trabalho teve diversos desdobramentos, mas continuo me esforçando para sobreviver da arte, atuando em diversas áreas”, conclui.

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