Exposições interativas conquistam o público em BH

A proposta é romper com o ambiente formal e até intimidador dos museus

por Márcia Maria Cruz 31/08/2018 08:00

Ramon Lisboa/EM/D.A Press
No CCBB, desenhos do visitante da mostra dedicada a Basquiat são projetados no telão (foto: Ramon Lisboa/EM/D.A Press )
Museus e centros culturais apostam na interatividade para atrair público maior e diverso. No Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), por exemplo, os visitantes podem interagir com as exposições dedicadas ao artista americano Jean-Michel Basquiat (1960-1988) e à memória do futebol brasileiro. Em São Francisco na arte de mestres italianos, em cartaz na Casa Fiat de Cultura, o público visita – sem sair do lugar – a Basílica Superior de Assis, na Itália. Tudo isso graças à tecnologia de realidade virtual.

A exposição da Casa Fiat tem atraído 1,5 mil pessoas nos dias úteis e 1,7 mil nos fins de semana. Parte desse sucesso se deve à interatividade. É o caso da servidora pública Carolina de Brito Morais, de 32 anos, que viajou até a cidade italiana de Assis, em 2015. Ela ficou impressionada com a visita virtual possibilitada pela tecnologia 3D. “Gosto muito desta sensação. É como se estivéssemos lá”, afirma.

A mesma experiência foi vivenciada pela advogada Rafaela de Oliveira, de 36. Para ela, a tecnologia permite a quem não tem recursos fazer uma “viagem internacional”. A advogada Renata Toscano, de 37, diz que o bom uso da tecnologia traz benefícios para o espectador. “É como se estivéssemos entrando no lugar. O giro em 360 graus nos aproxima da realidade.”
Clarita Gonzaga, coordenadora do programa educativo da mostra, lembra que a Casa Fiat de Cultura foi concebida como um espaço de interatividade. Além de o público poder interagir com as obras das exposições, tem a opção de criar seus próprios trabalhos no ateliê aberto oferecido pela instituição.

Isaías Martins/Divulgação
Público interage com obras de Amelia Toledo (foto: Isaías Martins/Divulgação)

PIONEIRA 

A exposição Dobras da memória, em homenagem à paulista Amelia Toledo (1926-2017), será aberta sábado (1º/9), na Galeria Murilo Castro. Sob a curadoria de Marcus Lontra Costa, exibe diferentes fases do trabalho da autora, precursora da arte interativa no Brasil.

“A interatividade é muito marcante na obra de Amelia. Ela trabalhou dentro do conceito que exige a participação do espectador”, explica o curador. O público pode interagir com as 10 obras – inclusive, atravessar e caminhar pelas instalações. Vale entrar nos jardins e manusear Medusa, feita com novelos de tubos de PVC flexíveis contendo ar, água, óleo e corantes. A obra assume a forma dada pelo visitante.

Amelia era uma pesquisadora interessada em explorar as características dos materiais. “Ela foi uma grande dama da contracultura no Brasil. Já na década de 1960, entendeu a importância da interatividade”, explica Marcus Lontra.


Desenhe como Basquiat

No CCBB, duas exposições convocam o espectador a participar. A mostra dedicada a Basquiat conta com um espaço ateliê onde o visitante pode desenhar e ver seus próprios traços projetados na tela. Ali estão obras interativas criadas por Os Gemeos, Alex Hornest e Rimon Guimarães, além de telas de Fefe Talavera, Saci Pedro, Nunca, Mag Magrela, Raphael Sagarra (Finok), Carlos Dias/Aoseualcance, Ise, Herbert Baglioni e Rodrigo Branco.

Na exposição Museu do futebol na área, o visitante ouve a narração de gols históricos, assiste a vídeos e pode brincar com jogos eletrônicos. Marcelo Nonnenmacher, gerente-geral do CCBB, explica que a interatividade é pré-requisito para a escolha de obras que serão expostas. “Essa aposta não é restrita ao CCBB. Os espaços culturais vêm mudando. A mostra tradicional, mais contemplativa, não promove a diversidade de público”, afirma.

Para ele, a interatividade democratiza o acesso às artes. “Trazemos o público que não está acostumado a ir a museus.” Nonnenmacher cita como exemplo o sucesso do Festival Internacional de Linguagem Eletrônica (File), no início do ano. Formado só por obras interativas, recebeu 170 mil pessoas, o segundo maior público do CCBB em seus cinco anos de funcionamento. O público só foi menor do que o da exposição ComCiência, de Patricia Piccinini.

Convite para sentir a obra


Em Inhotim, o visitante interage de diferentes formas com as obras. “A noção que o público tem é de que interagir é tocar, mas essa percepção limita nossas opções. As pessoas tocam tudo apenas por tocar, sem a possibilidade de interagir de outra forma. Às vezes, elas ignoram cheiros e imagens que são fugazes”, afirma María Eugenia Salcedo, diretora artística-adjunta do centro de arte mineiro.

Inhotim abriga trabalhos assinados por destaques da arte contemporânea. “São obras que falam do nosso contexto e trazem questões que mexem com a gente: memória, senso de história, senso de realidade, nossas percepções”, diz. María Eugenia lembra que, muitas vezes, a interatividade está ligada à ideia de diversão, mas é equívocado limitá-la ao entretenimento. “Museus são lugares educativos por excelência, que nos tocam de diversas formas.”

De acordo com ela, o conceito de interatividade surgiu como uma forma de ressignificar os museus, que, muitas vezes, são vistos como locais parados no tempo. “É quase moda falar em interatividade ligada às novas mídias de comunicação”, observa.

No entanto, a proposta do centro mineiro amplia a ideia de interatividade. “Inhotim é interativo por excelência. O visitante afeta e se deixa afetar por aquele ambiente, evoca sensações e memórias. Quando a pessoa interage, as memórias, sensações e emoções encontram ressonância e campos de ligação com aquilo que está na frente”, diz.

María Eugenia cita como exemplo a obra Sonic pavilion (conhecida como Som da Terra), de Doug Aitken. “Ela ativa nossas sensações. No momento em que você entra no espaço, a audição é ativada.”

AGENDA

DOBRAS DA MEMÓRIA – AMELIA TOLEDO

Abertura no sábado (1º/9), das 10h às 17h. Galeria Murilo Castro. Rua Benvinda de Carvalho, 60, Santo Antônio, (31) 3287-0110. Até 29 de setembro. Funciona de segunda a sexta-feira, das 10h às 19h; sábado, das 10h às 14h. Entrada franca.

JEAN-MICHEL BASQUIAT – OBRAS DA COLEÇÃO MUGRABI

Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB). Praça da Liberdade, 450, Funcionários, (31) 3431-9400. Até 24 de setembro. Funciona de quarta a segunda-feira, das 9h às 21h. Entrada franca.

MUSEU DO FUTEBOL NA ÁREA

Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB). Praça da Liberdade, 450, Funcionários, (31) 3431-9400. Até 15 de outubro. Funciona de quarta a segunda-feira, das 9h às 21h. Entrada franca.

SÃO FRANCISCO NA ARTE DE MESTRES ITALIANOS

Casa Fiat. Praça da Liberdade, 10, Funcionários, (31) 3289-8900. Até 21 de outubro. Funciona de terça a sexta-feira, das 10h às 21h; sábado, domingo e feriado, das 10h às 18h. Entrada franca.

SONIC PAVILION
Inhotim. Em Brumadinho, acesso pelo KM 500 da BR-381, (31) 3571-9700. Funciona de terça a sexta-feira, das 9h30 às 16h30; sábado, domingo e feriado, das 9h30 às 17h30. Ingressos: R$ 44 (inteira) e R$ 22 (meia-entrada). Entrada franca na quarta-feira. Assinantes do Estado de Minas têm desconto de 50% na compra de dois ingressos.

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