Debate aborda o impacto das novas tecnologias nas relações, na temporalidade e na psique

Psicanalista Marcelo Veras é a estrela do Programa Lacan na Academia

por Walter Felix 21/08/2018 11:00

Facebook, Instagram, Twitter e WhatsApp, entre outros meios contemporâneos de comunicação, configuram-se como espaços férteis para estudos na psicanálise. A curiosidade sobre essas mídias, nascida a partir de relatos durante as consultas, motivou o psiquiatra e psicanalista Marcelo Veras a escrever Selfie, logo existo (Editora Corrupio), que inspira o debate desta quarta-feira (22) do Programa Lacan na Academia – Conversando com a literatura, promovido na Academia Mineira de Letras.

Arquivo Pessoal/Divulgação
Marcelo Veras lança obra na qual observa a espetacularização promovida pelo uso de computadores e smartphones no cotidiano (foto: Arquivo Pessoal/Divulgação)

O autor carioca, radicado na Bahia, não era tão assíduo ao ciberespaço, mas decidiu investigá-lo ao notar a influência que as redes sociais passaram a exercer no cotidiano de seus pacientes. “Quando entrei no Facebook, vi que um mundo estranho começava a se desenhar, com efeitos impressionantes sobre as massas e a opinião pública. A hipercomunicação gera e modifica relações humanas, afetando como vivenciamos a subjetividade contemporânea”, aponta.

Em seu livro, Veras brinca com a própria dinâmica do Facebook: grandes textos seguidos de breves ensaios, frases reflexivas e fotos de sua autoria. Um dos temas abordados é a “síndrome do segundo tracinho”, em referência ao sinal que confirma o recebimento de uma mensagem enviada pelo WhatsApp. “O simples fato de a outra pessoa não responder imediatamente após o surgimento do segundo traço gera uma enorme angústia nas pessoas”, observa. Entre as várias dicas da publicação, ele avisa que “não adianta chorar pelo WhastApp enviado”. “Agora, pode-se apagar uma mensagem já enviada, mas aquele aviso que permanece, de mensagem apagada, pode ter efeitos igualmente devastadores.”

COMPREENSÃO

Muitos desses problemas decorrem, segundo Veras, da velocidade empregada pelas próprias redes sociais no cotidiano, o que remodela ações e anseios. “A velocidade das redes faz com que certa distribuição da temporalidade, que é tão cara e preciosa à psicanálise, acabe curto-circuitada. Lacan estabelecia que são necessários o instante para ver, o tempo para compreender e o momento para concluir. Com as redes sociais, há um encurtamento ou uma supressão do tempo para compreender. As pessoas veem e imediatamente concluem, sem reflexão. Essa é a mola mestra das fake news, por que, muitas vezes, se você parar para pensar naquele conteúdo, não compartilha a mensagem.”

O encurtamento do tempo para compreender traz ainda a extinção do diálogo. “Vemos, mais uma sequência de monólogos, que mostram apenas a dimensão do enclausuramento narcísico na vida contemporânea, do que uma abertura para o outro, para o novo ou para a diferença”, afirma Veras. Exemplo disso são as guerras políticas no meio digital, já notadas há alguns anos, mas que se intensificam nessas poucas semanas que nos separam das próximas eleições. Cientistas políticos já atentaram ao fato de que as redes sociais terão papel fundamental na decisão popular.

“Quando fazemos a supressão do tempo para compreender, costumamos reduzir quem está do outro lado a um mero elemento de segregação. Nas discussões políticas, como nas torcidas de futebol, reduzem-se as pessoas a um traço, seja como coxinha ou petralha, objetos do meu amor ou do meu ódio. Essa redução do outro esconde a complexidade dialética e a conversação que devem existir, principalmente, em debates políticos. É temerário que as eleições possam ser decididas a partir desses traços”, expõe Veras.

REALIDADE INVENTADA O declínio da intimidade diante da superexposição nas redes sociais também é tema de Selfie, logo existo. Veras encontra precedentes desde a década de 1980, com a popularidade das revistas sobre celebridades, quando os indivíduos “passaram a se interessar mais pelos astros dos filmes na banheira ou na cozinha de casa do que na tela do cinema”. No fim dos anos 1990, tal curiosidade evoluiu para os reality shows.

Todos tomam frente de seu próprio espetáculo com o surgimento do mundo virtual, em que a vida de cada um se torna centro das atenções por meio de plataformas precursoras, como os blogs e o finado Orkut. Em comum, revistas de fofoca, reality shows e redes sociais exibem a falsa intimidade. O que o autor define como o “teatro da felicidade” é notado, em especial, no Instagram.

“Quando chegamos aos smartphones, há uma ruptura que influencia o narcisismo contemporâneo. Antes, o melhor de nós mesmos dependia do olhar do outro. Hoje, você encontra o olhar do outro no final dos seus braços”, observa Veras. “Estamos todos muito mais conectados ao smartphone do que à pessoa ao nosso lado. Há uma desvalorização da presença real em prol da presença virtual do outro. Não há mais graça em experimentar uma sobremesa maravilhosa, se isso não é mostrado para o outro. Não há mais valor em ir para Paris, se não postar uma foto com a Torre Eiffel ao fundo.”

Mesmo notando como as configurações das redes podem impactar até mesmo a saúde mental dos usuários, Veras não é totalmente crítico a essas formas de comunicação. “O Instagram exibe uma forma de se manifestar intrínseca ao ser humano. Não acredito que haja algo tão nocivo que não possa se expressar também de outras maneiras. Não sou catastrofista, nem chego à patologização das mídias sociais”, opina Veras. “A hiperconectividade é maravilhosa e não acho que o psicanalista precise ser nostálgico do lampião a gás. Se Freud tivesse acesso ao Facebook, certamente encontraria a melhor forma de espalhar a psicanálise.”


SELFIE, LOGO EXISTO: POSTS PSICANALÍTICOS
• De Marcelo Veras
• Editora Corrupio
• 287 páginas
• R$ 50 (no evento) e R$ 55 (nas livrarias)


LACAN NA ACADEMIA – CONVERSANDO COM A LITERATURA
Debate a partir do livro Selfie, logo existo: posts psicanalíticos, com a presença do autor e da psicanalista Cristiane Barreto. Coordenação: Inês Seabra. Amanhã, às 19h30, na Academia Mineira de Letras (Rua da Bahia, 1.466, Lourdes. (31) 3222-5764). Entrada franca.

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