Veja como foi o primeiro fim de semana da exposição São Francisco na arte de mestre italianos

Reportagem do EM acompanhou o evento no horário em que é proibido fotografar e também no momento em que a selfie é liberada

por Ana Clara Brant 13/08/2018 08:00

MARCOS VIEIRA/EM/D.A.PRESS
MARCOS VIEIRA/EM/D.A.PRESS (foto: MARCOS VIEIRA/EM/D.A.PRESS)
A exposição São Francisco na arte de mestres italianos tem tido em média 1.500 visitantes por dia, desde que foi aberta, na quarta-feira passada (8), na Casa Fiat de Cultura. No sábado (11), dia de Santa Clara de Assis, discípula e conterrânea do santo italiano, a mostra bateu seu recorde, recebendo 1.720 pessoas. O pico foi na parte da tarde. Gente de todas as idades não só admirou as 20 obras vindas de 15 museus da Itália, como também tentou registrar o melhor ângulo das telas – ou de si mesma em frente às obras, na inevitável selfie.

Mas, ontem pela manhã, a exposição parecia outra. Com movimento bem mais tranquilo do que no dia anterior, os frequentadores aproveitaram a visita para contemplar. Pela primeira vez em seus 12 anos de história, uma mostra na Casa Fiat ofereceu um instante de contemplação sem interrupções pela ação dos celulares. Até o final da mostra, em 21 de outubro, nas visitas no período das 10h às 12h de domingo não será permitido fotografar dentro da galeria. “Essa ideia surgiu para que a pessoa tenha essa imersão, viva o presente e este momento tão único. São Francisco tem muito a ver com isso. Ele era meditativo”, explica Clarita Gonzaga, coordenadora do programa educativo da entidade.

Quem decidiu conhecer a exposição no domingo não apenas aprovou a iniciativa pioneira como até vigiou o cumprimento das regras. “Uai, o que essa máquina profissional está fazendo aqui? Hoje não pode tirar fotos”, alertou uma visitante, ao se deparar com a equipe do Estado de Minas. “Estamos aqui justamente para cobrir esse momento sem selfies”, respondeu o repórter fotográfico Jair Amaral.

A médica Luciana Brito, de 55 anos, que mora nos arredores da Praça da Liberdade, aproveitou para fazer uma caminhada matinal no domingo e visitar São Francisco na arte de mestres italianos. “Conhecer isso aqui é um privilégio. Achei ótima essa história de não poder tirar fotos no domingo de manhã. Para falar a verdade, acho que nem deveriam permitir nos demais dias e horários, ainda mais numa exposição como essa, que tem tudo a ver com o enlevo, com contemplação. Confesso que fiquei emocionada, porque mexeu muito com a minha fé.”

A professora de pintura Lúcia Castanheira, de 59, e o engenheiro Flávio Modenesi, de 76, se impressionaram com as obras datadas dos séculos 15 ao 18. Lúcia, que tem um ateliê, estava com um bloquinho a tiracolo ao invés do telefone celular. Ela admite que, quando ficou sabendo da “proibição”, até se chateou um pouco, mas depois conseguiu compreender o espírito da proposta. “Sem o celular, resolvi anotar tudo, porque quero trazer aqui alguns grupos para os quais dou aula. Acho que não poder tirar fotos leva você para outro patamar e é uma forma de respeito também, ainda mais em se tratando de um santo”, comentou. Já Flávio, que estava reparando em cada detalhe, comentou que a iniciativa era muito bem-vinda. “Quem oferece pode impor regras. Quem fizer questão de tirar fotos ou selfies que venha nos outros dias da semana.”

As amigas Dolores Madureira, de 78, e Rosane Quaresma, de 62, também não se importaram de deixar os celulares guardados no escaninho da Casa Fiat. Não é proibido subir para a galeria com o aparelho, mas é vetado usá-lo para fotografar. “Obra de arte é para ver, apreciar. Se você quiser saber mais ou ver a imagem depois, é só entrar na internet. Acho que até tira um pouco o foco e a concentração essa coisa de ficar fotografando”, disse Dolores, que estava encantada com as pinturas.

ALVOROÇO

No sábado, sem restrição a fotos, o rebuliço foi grande. Muitas famílias e crianças estavam presentes, como a pequena Iris Barreto, de 8, que se tornou a fotógrafa oficial de sua família. Acompanha da mãe,  Glenda Barreto, de 36, e da tia-avó Celina Leonardo, de 50, a menina, estreante em exposições, fez questão de registrar todos os momentos. “Nunca tinha vindo aqui e achei muito bacana. Gostei dos quadros, mas acho que vou gostar mais ainda da realidade virtual”, disse, referindo-se à visita virtual à Basílica Superior de Assis (1228), na Itália, por meio do uso de óculos de tecnologia 3D.


“Gosto de tirar fotos que é para a gente não se esquecer dessa visita”, justificou Iris. Celina ressaltou a beleza e a importância da exposição e se impressionou com a quantidade de visitantes. “É uma viagem no tempo. A gente sempre aprende alguma coisa num lugar como este. Isto serve para mostrar que brasileiro gosta, sim, de arte. Falta é oportunidade e divulgação. Num dia bonito de sol, essa galeria está lotada. É muito positivo”, disse.

Entre as telas campeãs de selfies está San Francesco riceve le stimmate (1570), de Tiziano Vecellio. A obra de três metros de altura por quase dois de largura foi pintada pelo mestre veneziano aos 80 anos e integra o segundo e mais importante dos três núcleos da mostra, dedicado aos estigmas. Francisco de Assis é considerado o primeiro cristão a ser estigmatizado – ter as marcas como as chagas de Jesus Cristo na cruz.

Outra sensação da mostra é o estandarte de 1629 de Guido Reni. Na parte frontal do quadro, São Francisco recebe os estigmas; na tela posterior, ele aparece pregando. “Essa foi a obra que mais me chamou a atenção. Preferi tirar foto dela inteira sem eu aparecer, para guardar esse momento. É bacana a gente poder tirar foto, mas acho que uma exposição como essa é mais para apreciar”, opinou a chef Adriana Guimarães, que veio de Lavras, no Campo das Vertentes, com o marido, a sogra e o enteado passar o fim de semana na capital mineira.

“Gosto muito de São Francisco. Mas sei o básico. Sei que é o santo dos animais, que fez voto de pobreza. Aqui, a gente está tendo a oportunidade de se aprofundar sobre sua trajetória de uma maneira muito interessante”, afirmou Adriana, que não largava o celular enquanto visitava a mostra. “O telefone serve mais para pesquisar sobre algum aspecto da vida dele ou mesmo para tirar dúvida sobre algum pintor e não para ficar tirando fotos”, comentou.
Os Carneiros também decidiram fazer um programa em família. Fãs de santos e, sobretudo, de São Francisco de Assis, eles fizeram questão de registrar alguns momentos.

“É até difícil dizer o que mais gostei. Não sou muito de tirar fotos, mas não resisti e fiz uma selfie com a obra do Tiziano. Acho que, se alguma coisa te chamar a atenção, vale a pena fazer uma imagem. Mas não sou daqueles que tiram foto de tudo o tempo todo”, disse Bruno Eduardo, de 42 anos.

O pai, Vani Carneiro, de 84, não pensou duas vezes quando soube que a exposição estava vindo para Belo Horizonte. “Então hoje a gente está liberado, não é? Pode tirar foto, selfie? Viemos no dia certo”, brincou.

As amigas Karine Bárbara, de 24, e Scarlet Ferreira, de 20, vieram de Betim e do Barreiro, respectivamente, para conhecer a Casa Fiat e as obras sobre o religioso italiano. As duas são admiradoras do barroco e do renascimento e só tiraram fotografia de uma tela, A visão de São Francisco, de Francesco Solimena. “Só faço questão de registrar se for algo que me emocione, que me impacte de alguma forma. É muito mais interessante a gente sentir o momento, admirar a obra do que ficar com essa preocupação de fotografar tudo”, disse Scarlet.

 

SÃO FRANCISCO NA ARTE DE MESTRES ITALIANOS
Até 21 de outubro, na Casa Fiat de Cultura, Praça da Liberdade, 10, Funcionários, (31) 3289-8900. Visitação de terça a sexta, das 10h às 21h; sábados, domingos e feriados, das 10h às 18h. Entrada franca.

 

 

VISÃO EM 3D
Dentro do programa de inclusão e acessibilidade de São Francisco na arte de mestres italianos, nos próximos dias três obras que estão na exposição vão ser transformadas em peças 3D para apreciação tátil. “É como se fosse uma escultura do quadro para que quem não pode enxergar possa sentir. Mas mesmo quem não tem nenhuma deficiência visual pode vivenciar também essa experiência”, avisa a coordenadora do programa educativo da Casa Fiat de Cultura, Clarita Gonzaga. As obras escolhidas são San Francescod’Assisisi e Quattro Disciplinati (1499), de Pietro Perugino e Giovan Francesco Ciambella; San Francesco Riceve Le Stimmate (1570), de Tiziano Vecellio e San Francescod’Assisi, Sant’Antonio da Padova e San Bonaventura da Bagnoregio (séc. 17), de Andrea Lilli.


CONEXÃO PAMPULHA
No próximo domingo (19), a Casa Fiat de Cultura vai promover um passeio cultural que irá conectar o São Francisco de Tiziano ao São Francisco de Portinari. O roteiro, que vai das 10h às 14h, irá analisar a relação da proposta modernista do conjunto arquitetônico da Pampulha, que é Patrimônio Cultural da Humanidade, e a figura de São Francisco de Assis. São 30 vagas gratuitas. As inscrições podem ser feitas até quinta (16). O transporte é gratuito (alimentação não incluída). Inscrições pelo Sympla (ww.sympla.com.br - colocar na busca Casa Fiat de Cultura). Mais informações: (31) 3289-8910.

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