Quem são os booktubers e influenciadores que agitam o mercado de livros

Literatura ganha espaço no YouTube e no Instagram com leitores diletantes que falam sobre lançamentos e clássicos. Sucesso dos comentários nas redes sociais conquista novos leitores e desperta a atenção de editoras

por Pedro Galvão 12/08/2018 08:00
Free Image/ Reprodução
(foto: Free Image/ Reprodução)

O assunto da vez pode ser Machado de Assis ou uma nova série estrangeira de romances adolescentes. Uma lista com recomendações dos melhores escritores russos ou apenas dicas para conseguir ler ao menos 30 minutos por dia. Todos esses são temas que antes ficavam restritos às aulas de literatura ou clubes de leitura tradicionais. Mas a divulgação literária encontrou novos caminhos nas redes sociais, numa teia que envolve (e aproxima) leitores, escritores, editoras, lojas e quem apenas se interessa por boas histórias.

Quem pensa no youtuber como sinônimo de uma pessoa jovem falando – ou gritando – sobre trivialidades, moda ou tentando fazer humor, não navegou o suficiente pelo site de vídeos, onde a literatura também tem seu espaço. Há alguns anos, usuários de variados perfis vêm criando canais para falar sobre aquilo que mais amam: os livros. São os chamados “booktubers”, tendência também no exterior, conforme destacou recentemente o diário The New York Times, em reportagem sobre a Vidcon, conferência de produtores de vídeo on-line realizada na Califórnia. Os “booktubers” ampliam cada vez mais seu nicho, embora seu alcance ainda seja tímido, se comparado ao das web celebridades.

No Brasil também é por aí. Quem fala sobre livros no YouTube pode até não ostentar os milhões de seguidores que um Felipe Neto ou um Whindersson Nunes têm, mas não deixa de ter a relevância necessária para participar da Bienal do Livro de São Paulo. É o caso de Tatiany Leite, conhecida pelo Vá Ler Um Livro, canal que administra ao lado de Augusto Assis. Assim como ele, ela era professora. Hoje, os dois têm em seu canal 95 mil inscritos.

“O booktuber está aí há um tempo, mas somos um dos poucos canais que dá aula de literatura. A gente entendeu que muita gente deixava a literatura de lado na hora de estudar, por achá-la um bicho de sete cabeças. Nosso objetivo é desmistificar isso, facilitar e mostrar que é possível ter tempo para a leitura”, afirma Tatiany.

No Vá Ler Um Livro a proposta é bem didática. Muitos vídeos falam sobre obras cobradas em provas de vestibular pelo Brasil, em uma resenha descontraída, com aproximadamente 15 minutos de duração, e usando recursos de edição estimulantes, além de outros artifícios comuns no YouTube. O conteúdo da dupla também inclui dicas de como otimizar a leitura, aulas sobre um determinado autor ou estilo literário e séries temáticas, como literatura negra ou literatura LGBT.

“Temos que ir onde o aluno está. Não adianta bater na mão do aluno quando ele estiver com o celular na mão. Estamos competindo com muita coisa, e a atenção do aluno é a coisa mais cara que existe. Queremos que ele se sinta em casa e tranquilo para estudar como quiser, com a rapidez que quiser. Para isso usamos a internet a nosso favor”, diz Tatiany, que é formada em jornalismo e hoje se divide entre as atividades do canal e um emprego em um grande banco em São Paulo.

Tornar a leitura possível para mais gente também é o objetivo de Mell Ferraz, de 25 anos, que cursa estudos literários na Unicamp. Natural de Jundiaí, de onde se desloca diariamente para as aulas em Campinas, ela criou seu canal durante o tempo que passou morando no Guarujá, onde, segundo diz, não tinha com quem conversar sobre os livros que lia.

A vontade de repassar o que estava nas páginas impressas começou com um blog e logo evoluiu para o canal Literature-se, no ar desde 2012 e hoje com 88 mil seguidores. A garota começou falando sobre os seus romances prediletos e acabou se especializando em clássicos. Isso se reflete no conteúdo dos vídeos. Na listagem é possível encontrar desde a série 20 anos de Harry Potter até Lendo Ulysses. Mas o que mais interessa a ela são os vídeos que abrem caminho para novos leitores, com sugestões de livros por um tema, relação de melhores em um mês ou ano e book haunts, termo em geral usado por booktubers para se referir a leituras futuras.

Embora siga os estudos acadêmicos e trabalhe no mercado editorial com revisão e edição de textos, o YouTube tem um significado maior para Mell. “Ainda que não seja possível viver de um canal literário, não consigo deixar de vislumbrar o Literature-se como uma forma de levar ao outro o contato com a leitura e o hábito de ler. A academia às vezes tem uma visão negativa do YouTube, um olhar mais condescendente, mas não há forma melhor de estimular o público para a leitura. Não importa se a pessoa tem formação em estudos literários ou em outra área, nem a idade dela, desde que a produção de seu conteúdo na internet estimule a pessoa a ler”, afirma a youtuber, que participou neste ano da Festa Literária de Paraty (Flip), onde pode conhecer pessoalmente alguns de seus quase 90 mil seguidores.

A engenheira de telecomunicações brasiliense Isa Vicchi, no ar desde 2012 e com 28 mil seguidores, comprova com seu canal Lido Lendo que o YouTube não é um espaço apenas para adolescentes. Aos 38 anos, ela adota um estilo mais tranquilo, com edições mais simples e se define como uma “booktuber caseira’’. “Gosto desse estilo de bate papo informal, de colocar as pessoas na minha casa, como se estivessem tomando um café comigo. Não tenho firulas, minha câmera é caseira, supersimples. Deu vontade, vou lá e gravo. Não tenho roteiro, não tenho grandes projetos, nada. É só um bate papo íntimo sobre livros”, diz Isa, que trabalha de oito a 10 horas por dia como engenheira e criou o canal para compartilhar com outras pessoas seu hobby preferido.

Seu cardápio de vídeo-resenhas também é variado, mas predominam os títulos adultos. Um dos mais recentes aborda Augustus, de John Williams, enquanto outro trata de Ifigênia, de Teresa de la Parra, lançado em 1933. Mas isso está longe de significar uma abordagem mais ortodoxa. Pelo contrário, ela também é adepta da militância pela conquista de novos leitores. Um dos principais projetos encampados em seu canal se chama #DostôEsseLindo’, que propõe a leitura da obra de Dostoiévski em ordem cronológica e em grupo.

“Sempre fui apaixonada por literatura russa, mas achei que não dava para falar sobre isso por aí, porque as pessoas tinham medo de começar, viam Dostoiévski como coisa de outro mundo. Como eu já tinha lido e sabia que não era, pensei em uma forma de incentivar as pessoas. Aí, conversando com uma amiga, surgiu a ideia de criar um grupo e até o nome é uma forma de quebrar essa resistência”, explica.

O YouTube não é a única possibilidade digital para se difundir a literatura nas redes sociais. Para o jornalista e fotógrafo belo-horizontino Rodrigo Valente, o Instagram foi a plataforma perfeita para unir duas paixões: o livro e a foto. Em novembro passado ele criou a página Objetolivro, com uma proposta simples: fotografar um objeto que remeta a uma história recentemente lida e resenhada por ele.

Desde janeiro, já foram 53 postagens, incluindo um papel dobrado para A desumanização, de Valter Hugo Mãe; um telefone antigo para Nu, de botas, de Antonio Prata. “Tenho uma memória muito fraca para tudo, mas forte para o visual. Não consigo me lembrar de muitas coisas e por isso mantenho alguns diários. Minhas fotografias são organizadas por onde e quando as tirei. Então criei um diário de leituras e resolvi juntar os dois”, conta ele sobre o surgimento do projeto, seguido por quase 8 mil pessoas.

“Tenho uma memória muito fraca para tudo, mas forte para o visual. Não consigo me lembrar de muitas coisas e por isso mantenho alguns diários. Minhas fotografias são organizadas por onde e quando as tirei. Então criei um diário de leituras e resolvi juntar os dois”

 Rodrigo Valente,criador do Objetolivro


Assim como muitos booktubers e outros influenciadores digitais voltados para a literatura, Rodrigo Valente diz que toca sua ideia do Objetolivro pelo prazer e longe da possibilidade de transformá-la em um meio de vida, como acabam fazendo muitos youtubers dedicados a outros temas. Valente recebe livros de editoras, mas afirma não ter o compromisso de falar sobre eles. O mesmo vale para Mell Ferraz e Isa Vichie Tatiany Leite.


Mas é certo que a atividade desenvolvida por esses leitores diletantes chamou a atenção de grandes forças do mercado editorial. A multinacional Amazon, que chegou ao Brasil em 2014 com a missão de difundir o e-book e o comércio virtual de livros digitais e físicos, organizou um painel na Bienal de São Paulo na semana passada dedicado ao booktubers. Tatiany Leite esteve presente.


“Estamos derrubando muitas barreiras que tínhamos antes, como a entrada de um autor na editora, a exposição para editores, a divulgação dos livros, que dependia de poucos veículos de mídia. O meio digital foi derrubando isso. A gente enxerga hoje um panorama bem mais amplo e mesmo grupos mais ‘nichados’ encontram sua leitura. Os booktubers e influenciadores digitais são parte importante disso”, afirma Ricardo Garrido, gerente-geral para conteúdo Kindle na Amazon.


Garrido diz que a Amazon mantém parceria com muitos booktubers, enviando materiais para divulgação, sorteios e até remunerando alguns booktubers quando algum cliente chega à loja virtual por meio deles.
Assim como a gigante norte-americana, a porto-alegrense TAG Experiências Literárias aposta nesse filão. Com um modelo de clube de assinaturas, no qual o cliente recebe uma caixa-surpresa com alguns livros a cada mês, a marca investe em produção de conteúdo nos meios digitais, mirando especialmente os booktubers.


“Temos um desafio, que é fazer mais gente entender nossa proposta de assinatura. Por isso identificamos os influenciadores que tenham uma boa base de seguidores e tenham a ver com nosso público e propomos uma parceria, contratando-os para produzir conteúdo para nós. Funciona muito bem, cada um encontra um jeito particular de falar sobre as caixas, deixando o público interessado e curioso, por isso é uma ferramenta na qual investimos”, afirma Thais Mahfuz, gerente de conteúdo da TAG, que também tem seu próprio canal. Isa Vichi e Mell Ferraz produzem vídeos para a empresa.


Neste ano, a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) promoveu um encontro entre booktubers e instagramers que se dedicam à literatura. Foi uma oportunidade para que esses leitores diletantes que procuram expandir virtualmente sua rede de amigos encontrassem cara a cara pessoas com quem têm a maior afinidade – o gosto pela leitura.

 


» book.ster - Pedro Pacífico -
Página no Instagram: @book.ster ou www.instagram.com/book.ster
58,1 mil seguidores
Literatura para adultos

» Lido Lendo - Isa Vichi -
Canal no YouTube: www.youtube.com/user/lidolendo
28mil inscritos / 1.032.567 visualizações
Literatura para adultos

» Literature-se - Mell Ferraz -
Canal no YouTube: www.youtube.com/croissantparisiense
88 mil inscritos / 4.547.111 visualizações

» Livros e Fuxicos - Paola Aleksandra - Canal no YouTube: www.youtube.com/user/LivroseFuxicos
188 mil inscritos -
6.980.883 visualizações
Literatura para adolescentes e adultos

» Objetolivro - Rodrigo Valente -
Página no instagram: @objetolivro ou www.instagram.com/objetolivro
Literatura para adultos
7,9 mil seguidores

» PAM - Pâmela Gonçalves -
Canal no YouTube: www.youtube.com/TvGarotait
245 mil inscritos /
12.315.680 visualizações
Literatura para adolescentes e
jovens adultos. Também é autora

» selecao.literaria -
Darwin Oliveira - Canal no YouTube: www.youtube.com/selecaoliteraria
1 mil inscritos / 14.658 visualizações
Literatura para adultos

» Tiny little things - Tatiane Feltrin - Canal no YouTube: www.youtube.com/user/tatianagfeltrin
300 mil inscritos -
 29.548.516 visualizações
Literatura para adolescentes
e jovens adultos


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