Para comprar barco, casal de índios do Xingu vende cerâmica milenar em BH

Atapuwalu e Tamuwa, da etnia Wauja, também darão oficina de pintura corporal e 'jantar sensorial' com prato típico da tribo

por Lilian Monteiro 24/07/2018 08:00

Igor Reis/Divulgação
O casal Atapuwalu e Tamuwa oferece nesta terça-feira (24) oficina de pintura corporal; na quarta (25), experiência gastronômica e, no fim de semana, oficina de queima e pintura de cerâmica. (foto: Igor Reis/Divulgação)

A Grande Cobra tipo Canoa Kamalu Hai deu aos Wauja, povo que vive no Alto Xingu, nas proximidades da lagoa Piyulaga, a visão primordial dos artefatos cerâmicos, quando depositou às margens do rio Batovi a argila que eles usam há mais de mil anos para fazer (com maestria) seus utensílios. Formas zoomórficas, linhas e desenhos geométricos são características das cerâmicas Wauja e formam a identidade dessa aldeia e a história dos povos brasileiros. O primeiro registro deles foi feito pelo etnólogo alemão Karl von den Steinen, no diário de sua primeira expedição ao Brasil Central, em 24 de agosto de 1884.

Nesta semana, um casal Wauja sai de sua aldeia e vem a BH para compartilhar sua cultura e conhecimento milenares. Atapuwalu e Tamuwa estarão na capital mineira na quinta-feira (26) para exibir as peças – que estarão à venda–  e fazer uma palestra sobre suas origens e a arte que nasce na aldeia. Ceramistas, eles querem divulgar e difundir o trabalho como herdeiros de uma rica tradição de técnicas de modelagem, queima e pintura, além de gerar renda para fazer frente às necessidades do seu povo.

Falantes da língua maipure da família arawak, eles vivem na terra indígena do Alto Xingu, em Mato Grosso. Ela, Atapuwalu, que não fala português, modela o barro. Ele, Tamuwa, é quem fala português e pinta as cerâmicas. Os Wauja estão acompanhados de Jéssica Martins e José Alberto Bahia, artistas visuais, que criaram, em 2014, o ateliê de cerâmica Saracura Três Potes, em Brumadinho. “Na etnia Wauja, a mulher modela e o homem pinta. Quando podem, eles deixam a aldeia para vender sua arte em vários pontos do Brasil. É a terceira vez que vêm a BH, mas nunca tiveram um ponto físico para mostrar seu trabalho. Nas vezes anteriores, foram recebidos por amigos, acolhidos em casa, sem nenhuma divulgação ou apoio mais estrutural. Agora, a Mary Arantes cedeu seu show room para exposição das peças e uma palestra”, conta Jéssica.

Para Tamuwa Waurá, “a cerâmica é importante para os povos Waujas; é o registro dos Waujas e uma identificação do povo”. E Kaji Waurá, que estará na palestra, diz que “ela é importante porque é um patrimônio do povo Wauja. A cerâmica nunca vai acabar. Se o povo Wauja não aprender a cerâmica, desvalorizará a própria cultura, por isso ela é importante. A cerâmica simboliza o nosso povo, somos conhecidos como ceramistas.”

Jéssica e José Alberto explicam que conheceram Atapuwalu e Tamuwa por meio de uma amiga antropóloga que mostrou a eles as suas cerâmicas. “Como nossas pesquisas são baseadas em formas de origem brasileira (cascas de frutos do Brasil), assim como as formas zoomórficas das cerâmicas Wauja, nós os convidamos para vir ao nosso ateliê em Brumadinho, onde puderam fazer sua vivência de cerâmica, um ritual que envolve a cosmologia (na qual os vínculos entre os animais, as coisas, os humanos e os seres extra-humanos permeiam sua concepção de mundo e são cruciais nas práticas de xamanismo) e a visão do xamã. Chegaram na última terça (17) e ficam até domingo (29) ministrando oficinas no nosso espaço, exceto na quinta-feira, quando estarão em BH.”

 

Igor Reis/Divulgação
Na etnia Wauja, a mulher faz a modelagem das peças de cerâmica e o homem, a pintura. (foto: Igor Reis/Divulgação)


José Alberto destaca que a cerâmica dos Wauja é superimportante dentro do Brasil pela tradição de mais de mil anos. “Todos na aldeia, desde as crianças, se envolvem e participam do processo. Cada peça tem uma função e característica. Há o prato de beiju, as panelas próprias para cozinhar o caldo de mandioca, os formatos dos bichos da região (onças, tamanduás, tatus e cobras), há panelas que chegam a 120cm de diâmetro.” Para Jéssica, todos têm de conhecer e dar valor, porque “é uma identidade forte, com características próprias, um grafismo que só eles fazem”.

O objetivo de Atapuwalu e Tamuwa, segundo Jéssica, é, em primeiro lugar, difundir a cerâmica fora do Xingu, divulgar a história da etnia, “já que é uma das mais preservadas da cultura do Alto Xingu. Eles mantêm as mesmas técnicas de fazer a cerâmica desde a origem”. Mas a artista visual conta também que “eles precisam comprar um barco, que é caro (algo em torno de R$ 25 mil), já que moram a 50km de rio da primeira cidade, Canarana. A embarcação é necessária para proporcionar autonomia, não só de locomoção e para as necessidades da aldeia, como para o transporte da cerâmica, porque o frete também tem alto custo”.

 

 

 

DOAÇÕES A designer Mary Arantes afirma que “falta muito para arrecadar a quantia necessária para a compra do barco, que sofre variação de preço a cada ano”. Ela conta ainda que o casal investiu na viagem, “apostando nas vendas das cerâmicas”. Segundo Mary, a viagem de ônibus levou dois dias, e eles ainda “tiveram custos com frete e outras despesas. Eles trouxeram, inacreditavelmente, mais de 300 peças de cerâmica, além de cestos e objetos de miçangas, tudo produzido por eles”.


Mary cedeu seu espaço para eles exporem as peças e “falarem sobre as questões indígenas e as técnicas de criação”. A designer pede aos que forem ao show room, se possível, “levar doações de roupas e sapatos para a aldeia”.

 

Igor Reis/Divulgação
A cerâmica dos Wauja é superimportante dentro do Brasil pela tradição de mais de mil anos. (foto: Igor Reis/Divulgação)
 


Jéssica Martins frisa que Atapuwalu e Tamuwa também terão outras experiências na capital: “Nesta terça-feira (24), estarão no espaço do grupo de teatro Sapos Afogados, dirigido por Juliana Barreto, no Bairro Lagoinha, para uma vivência de pintura corporal. Na quarta (25), Atapuwalu, em companhia dos chefs Miller Machado e Joseane Jorge, promoverá uma experiência gastronômica a partir de ingredientes e técnicas culinárias indígenas, prometendo trazer aromas, sabores e sensações da aldeia. Com o convite de uma noite para atravessar a floresta, o Armazém Nº Oito Casadecomida oferece uma mesa para 12 convidados, com reserva”.

Em Brumadinho, estão abertas vagas para quem quiser participar da queima e da pintura das cerâmicas no sábado (28) e domingo (29). Informações e inscrições: ceramicastrespotes@gmail.com.

 

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As formas fazem referências a animais. (foto: Igor Reis/Divulgação)
 



SIGA O SINAL
Confira os eventos que os Wauja promovem nesta semana em BH

Vivência de pintura corporal:
Local: Rua Diamantina, 900, Lagoinha
Data: Terça-feira (24)
Horário da oficina: das 16h às 20h
Valor: R$ 35
Doação: quem puder doar roupas e sapatos para a aldeia, entregar no local

Jantar Sensorial:
Taputa Atatakuwiu – Uma noite para atravessar a floresta

Local: Rua Francisco Soucasseaux, 8 – Lagoinha
Data: Quarta-feira (25)
Horário da oficina: das 19h às 24h
Informações e reservas: reservasarmazem8@gmail.com
Doação: serão recebidas no local doações de roupas e sapatos

Mostra e venda das cerâmicas:
Local: Rua Ivaí 25, Serra
Data: Quinta-feira (26)
Horário da mostra e venda: das 12h às 20h

Palestra do processo criativo e cultura:
Local: Rua Ivaí 25, Serra
Dia: Quinta-feira (26)
Horário: 19h
Valor: R$ 50
Doação: serão recebidas no local doações de roupas e sapatos

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