Box com peças do norueguês Henrik Ibsen é lançado no Brasil

Dramaturgo desafiou o seu tempo ao abordar violência doméstica, abuso sexual e o populismo da sociedade de massas

por Severino Francisco 11/07/2018 08:44
Gustav Borgen/Carambaia/Reprodução
Dramaturgo Henrik Ibsen discute temas atuais e é considerado um dos fundadores do drama moderno. (foto: Gustav Borgen/Carambaia/Reprodução)

O dramaturgo Henrik Ibsen (1828-1906) teve um leitor ilustre e apaixonado no Brasil: Nelson Rodrigues. O nosso profeta do óbvio viveu na pele o drama da solidão extrema em face da estupidez da opinião pública, tema central da peça O inimigo do povo (1882), obra-prima de seu colega norueguês. Agora, chega em nova tradução de Leonardo Pinto Silva uma preciosa caixinha com quatro peças de Ibsen: Um inimigo do povo, Espectros, Hedda Gabler e Solness, o construtor (Editora Carambaia).


Ibsen é um dos inventores do drama moderno. Polêmico, crítico e provocador, ele colocou no centro do debate as grandes questões de seu tempo. Começou na linha do romantismo, tornou-se mestre do realismo e, na parte final da vida, enveredou pela busca da síntese poética. Em todas essas fases, ele se revela um dramaturgo da cabeça aos sapatos, poeta do palco capaz de erguer diante de nossos olhos cenas de alta voltagem dramática.

A obra de Ibsen é profundamente autobiográfica. Nascido em uma família rica, de repente perdeu tudo e foi morar no campo. Animado pelo espírito de independência, Ibsen decidiu se mudar sozinho para uma cidade pequena, trabalhou em farmácia e alimentou o sonho de ser médico. Nesse ínterim, escreveu várias peças que permaneceram em círculo restrito.

O projeto da faculdade de medicina fracassou, mas o destino colocou Ibsen como diretor artístico de um pequeno teatro na cidade norueguesa de Bergen. Era a oportunidade para abraçar de vez o teatro. Ao longo de cinco anos, dirigiu 145 peças e escreveu quatro.

A experiência bem-sucedida o levou de Bergen até Oslo para dirigir o Teatro Norueguês. No entanto, a companhia faliu, Ibsen deu adeus às ilusões românticas e enveredou pela linha da discussão polêmica das grandes questões sociais.

MULHERES Uma das marcas registradas das peças de Ibsen é a presença de figuras femininas de personalidade forte. Espectros (1881) discute o tema da violência doméstica. Helene Alting, a matriarca da família, tem a estatura das grandes personagens trágicas. Encara com tenacidade o legado de problemas deixado pelo marido. Um deles é a sífilis, transmitida ao filho Osvald, que o arrastou à loucura. A vida sexual errática teve outra consequência: o nascimento de Regine, filha de uma relação fora do casamento.

Ibsen pagou um alto preço por tocar em temas delicados e interditados na época: incesto, abuso sexual, doenças venéreas e eutanásia. A peça provocou terrível escândalo e foi censurada em vários países.

 

Lislie Niesner/Reuters
O ator Johannes Krisch interpreta personagem de Espectros, em montagem do diretor austríaco David Boesch. (foto: Lislie Niesner/Reuters)
 


A reação truculenta a Espectros instigou Ibsen a escrever O inimigo do povo (1882). A peça é muito bem estruturada. O protagonista, doutor Stockmann, é sabotado pelos cidadãos depois de denunciar a contaminação do balneário que sustenta a cidadezinha do interior.

Ao defender o interesse público, Stockmann se torna cada vez mais isolado e solitário. A peça inspirou Dias Gomes a compor a trama da telenovela Roque Santeiro, adaptada para o Nordeste do Brasil.

Os diálogos ágeis de Ibsen assumem, por vezes, um tom ensaístico: “Farei grandes revelações, meus concidadãos!”, diz o doutor Stockmann. “Desejo compartilhar com os senhores uma descoberta sem precedentes. Não se trata do envenenamento da nossa tubulação de água, tampouco da localização dos nossos banhos sanitários em solo pestilento.” Muitas vozes: (aos brados) “Não fale dos banhos! Não queremos ouvir. Não diga nada sobre isso”.

Mas o doutor Stockmann não se intimida: “Como disse, em vez disso tratarei dessa grande descoberta que fiz recentemente. Descobri que todas as nossas fontes morais estão envenenadas e toda a nossa sociedade repousa sobre o solo pestilento da mentira”.

A peça é de uma atualidade impressionante para estes tempos pós-modernos em que imperam o populismo e o espírito de rebanho sobre o espírito público: “Pessoas estúpidas perfazem a maioria esmagadora em todos os cantos do planeta. Mas nem o diabo jamais me haverá de convencer de que é certo que os néscios reinem sobre os sábios”.

Hedda (1890) volta a mergulhar na alma feminina. A protagonista é uma mulher impregnada da soberba, crueldade, egoísmo e gratuidade das classes superiores. Seduz Lovborg, um homem fraco, e provoca a sua destruição com o suicídio. Ibsen leva a desumanização para o centro do debate. “Para além de um estudo da psique feminina, uma outra leitura do texto permite ver a personagem-título como a personificação de certa elite intelectual, política ou econômica, que, ao se julgar superior ao restante dos homens, se afasta de sua própria humanidade”, escreve o crítico Aimar Labaki, no pósfácio.

Em 1891, Ibsen voltou a morar na Noruega, depois de longo exílio em vários países da Europa. A perspectiva do fim da vida o leva a se afastar progressivamente do realismo no rumo de uma visão poética e existencial. Solness, o construtor (1892) tematiza os conflitos da consciência nas relações amorosas. Mesmo sem se separar da esposa Suzannah Thoresen, Ibsen se envolveu em relações platônicas com mulheres mais jovens. Como se vê, a obra do norueguês permanece contundentemente atual.


TRECHO

O inimigo do povo


“Muitas vozes (aos brados) – Não fale dos banhos! Não queremos ouvir. Não diga nada sobre isso.
Dr. Stockmann – Como disse, em vez disso tratarei dessa grande descoberta que fiz recentemente. Descobri que todas as nossas fontes morais estão envenenadas e toda a nossa sociedade repousa sobre o solo pestilento da mentira.

Aslaksen – O moderador pede que o orador retire as palavras irrefletidas que acaba de proferir.
Dr. Stockmann – Jamais nesta vida, senhor Aslaksen. É a grande maioria da nossa comunidade que me tolhe a liberdade e quer me proibir de dizer a verdade.

Hovstad – A maioria tem sempre a razão a seu lado.

Billing – E também a verdade, por Deus!

Dr. Stockmann – A maioria nunca tem a razão a seu lado. Jamais, estou dizendo! Essa é uma daquelas mentiras sociais contra as quais um livre-pensador deve se rebelar. Quem constitui a maioria dos habitantes de um país? São os sábios ou os néscios? Arrisco-me a dizer que numa coisa concordamos. Pessoas estúpidas perfazem a maioria esmagadora em todos os cantos deste planeta. Mas nem o diabo jamais me haverá de convencer de que é certo que os néscios reinem sobre os sábios.
Tumulto e gritos.

Dr. Stockmann – Sim, é isso. Podem muito bem abafar minha voz aos berros. Mas não me podem contradizer. A maioria detém o poder, infelizmente. A razão, contudo, não a possui. A razão a tenho eu e alguns outros poucos indivíduos. É a minoria quem sempre tem a razão.

Dr. Stockmann – Pois quais são as verdades em torno das quais a maioria costuma se agrupar? São aquelas verdades tão envelhecidas que já se encaminham para a decrepitude. Quando uma verdade se tornou assim tão velha, porém, está a meio caminho de se tornar uma mentira, meus senhores.”

 

 

HENRIK IBSEN
Caixa com as peças O inimigo do povo, Hedda Gabler, Espectros e Solness, o construtor
Carambaia
456 páginas
R$ 147,90

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