Sílvio Diogo lança terceiro livro de poemas, 'Cambalhota', com textos escritos ao longo de 10 anos

Em 2016, autor foi diagnosticado com tumor na coluna que o deixou temporariamente sem poder andar

por Ana Clara Brant 03/07/2018 08:45
'Vamos dando nossas cambalhotas diárias para sobreviver. Seja a perda de um emprego, a morte de um ente querido, o término de um relacionamento. As cambalhotas fazem parte da vida', diz o poeta mineiro.
Alexandre Guzanshe/EM/D.A.PRESS (foto: 'Vamos dando nossas cambalhotas diárias para sobreviver. Seja a perda de um emprego, a morte de um ente querido, o término de um relacionamento. As cambalhotas fazem parte da vida', diz o poeta mineiro. )

“Mamãe, por que o tio Diogo fez um livro para ensinar a fazer cambalhota?” Heitor, de 6 anos, não escondeu a surpresa ao se deparar com o mais recente livro de seu tio, o escritor mineiro Sílvio Diogo, de 35 anos. Cambalhota, publicação bancada pelo próprio autor, reúne 38 poemas escritos entre 2007 e 2017. O que dá nome à obra é de 2012, mas, segundo Sílvio, naquele época ele nem imaginava dar a um livro seu esse título. “Cambalhota clama para algo infantil, mas esse livro não segue essa temática. Ela pode ter tanto um sentido negativo quanto positivo. Vamos dando nossas cambalhotas diárias para sobreviver. Seja a perda de um emprego, a morte de um ente querido, o término de um relacionamento. As cambalhotas fazem parte da vida”, diz.

No dicionário, cambalhota é um movimento em que se gira o corpo sobre a cabeça e se volta à posição normal. No sentido figurado, ela pode ser também associada a uma reviravolta, uma mudança súbita ou até mesmo um revés da vida. Enquanto preparava seu livro, o autor passou por não poucas transformações. Atualmente, Sílvio Diogo se recupera de uma cirurgia para a retirada de um tumor na coluna que o havia deixado sem movimentos nas perdas e portanto incapaz de andar.

A doença começou a se manifestar em 2016, quando o poeta já estava perto de concluir esse que é seu terceiro volume de poesias. “O título já existia antes de eu ficar doente, mas acabou que ele tem a ver um pouco com isso por que passei e estou passando. Mas foi uma coincidência. Apenas dois poemas – Pausa para refletir (Diante de ti, irmão fractal, aos despedaços, não saímos; iludidos de ótica) e Música das máquinas (Desvendar, no tempo de após, o maquinário e a serragem, a palavra desenhada, a datilografia do som, a melodia sob a agulha, a revelação da luz) foram feitos nesse período da doença e não necessariamente têm a ver com o que eu estava enfrentando. Quando fui reler e organizar o livro, tudo faz um sentido, se você pensar em alguém que está na minha condição atual. Mas a grande maioria foi feita em um momento bem distante de tudo isso. É o acaso”, analisa.

O autor conta que a maioria dos poemas tem um fundo de vivência, mesmo que sejam coisas que hoje já não representam mais nada para ele. “A gente escreve porque, naquele momento, precisa se expressar. Mas depois aquilo se torna outra coisa, vai dialogar com outros momentos. E o mais interessante são as interpretações das pessoas. Não controlamos isso. Meu sobrinho mesmo deu uma versão muito curiosa sobre o meu livro”, comenta.

Nascido em Uberaba, no Triângulo Mineiro, e vindo de uma família de origem rural da região – o pai era pedreiro e a mãe trabalhava como professora de português –, Sílvio Diogo começou a ter contato com a literatura por meio da mãe. “A questão da oralidade sempre foi forte também, por conta de ter uma família mais humilde. Meus quatro avós eram analfabetos e viviam contando os causos da roça”, lembra.

ROSA Já distante da roça, ele acabou indo estudar jornalismo na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (USP), onde se formou em 2004. E curiosamente foi na capital paulista que o escritor e jornalista se aproximou mais de seu estado natal. Em 2008, ano em que se comemorou o centenário de nascimento de João Guimarães Rosa, Sílvio passou a ter contato com pessoas ligadas ao movimento roseano na USP e decidiu ir para Cordisburgo conhecer mais sobre o autor de Grande sertão: veredas. “Eu já estava meio em crise com a cidade grande. Formei-me em jornalismo, mas queria seguir o caminho da cultura, de produção, e foi quando soube de um concurso para produtor cultural na Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM), em Diamantina”, recorda.

Sílvio Diogo acabou sendo aprovado no concurso e trocou São Paulo pela terra de JK e Chica da Silva. “Foi uma mudança bem grande, mas interessante. Não deixa de ser uma cambalhota também (risos). Eu estava querendo isso, me aproximar da cultura popular. A região de Diamantina é muito rica em todos os aspectos. Também desenvolvo trabalhos de ilustração, edição de livros, caligrafia”, diz. Antes de Cambalhota, ele publicou Respingos e clamores: libreto do fundo do peito liberto (2005) e Desenho do chão (2008), ambos pelas Edições Toró (SP). Para ilustrar a capa e a contracapa do novo volume ele convidou Carolina Teixeira (Itzá). “Ela criou aquarelas bem- abertas, que dão margem a diferentes interpretações. Acho que isso se casa muito bem com a ideia do livro”, observa.

Enquanto se recupera da cirurgia, o autor está vivendo provisoriamente na casa de familiares, em Contagem, na Região Metropolitana de BH. Sílvio tem aproveitado esse período para criar uma narrativa em versos, que, segundo ele, faz lembrar o estilo de Morte e vida severina, de João Cabral de Melo Neto. “Não é um cordel, nem é rimado como Morte e vida, mas transita entre prosa e poesia e deve se chamar Casório. É um livro ambientado na semana de preparativos de um casamento.”

Embora tenha como referências literárias grandes romancistas, Sílvio Diogo nunca enveredou por esse gênero. Foi na poesia que ele encontrou sua maneira de se expressar. “Admiro muito, inclusive, o trabalho dos letristas, que, para mim, não deixam de ser poetas da música. Apesar de gostar muito, não consigo escrever romance. Tem quem ache que a poesia é mais difícil, é superior... enfim. Acho poesia mais sintética; deixa espaço para o não dito, para o leitor preencher as lacunas com as suas histórias, e acho que isso é uma das coisas que mais me fascinam nela.”

TRECHO

Quadrinhas enamoradas


o meu medo era de altura
meu chamego era de artista
só que a moça da aventura
casou com o paraquedista

viajei à cidadela
tinha um remo e uma canoa
quis me mostrar para ela
e me encharquei na lagoa

a atriz antigamente
apaixonou-se por mim
eu fiquei indiferente
quando eu quis já era o fim

ela tinha namorado
namorada eu também tinha
desquitei do meu noivado
mas ela ficou quietinha

veio me fazer visita
queria um livro da estante
que romance, senhorita!
Leu, devolveu, num instante

nem só de desilusão
vivem os enamorados
recomeça a vir de um não
o broto de um sim molhado

 

 

Cambalhota
Autor: Sílvio Diogo
Editora: Arte Desemboque
Casa Editorial (64 págs.)
Preço sugerido: R$ 28
Vendas: Estante virtual ou pelos e-mails: artedesemboque@gmail.com e cambalhota.poesia@gmail.com

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