'Internet é invenção similar ao dinheiro', diz rabino Nilton Bonder, atração do Fliaraxá

Ele lança no Fliaraxá Alma & política, em que recorre a fundamentos do pensamento judaico para compreender o cenário de cisão na esfera da política, a partir da definição de direita e esquerda

por Mariana Peixoto 30/06/2018 08:00
Daniel Bianchini/Divulgação
(foto: Daniel Bianchini/Divulgação)

“Para mim, a internet é uma invenção similar ao dinheiro. Quando inventaram o dinheiro, foi um avanço civilizatório. Antes, era galinha para cá, trigo para lá. Inventaram um sistema de universalizar alguma coisa. A internet é a mesma coisa. Uma maneira de as pessoas se comunicarem sem utilizar intermediários. Tem um valor civilizatório, mas também gera coisas horríveis, assim como o dinheiro”

“No livro, tento olhar tanto os defeitos dos republicanos quanto os dos democratas. Os republicanos têm um medo estruturador – de que tudo vai desabar. Já o grande defeito do democrata é que ele fala mais do que faz. O republicano é mais comprometido do que o democrata”

Nilton Bonder, rabino e escritor

 

Araxá – Esquerda ou direita? Já no início de seu novo livro, Alma & política (Rocco), o rabino Nilton Bonder, de 60 anos, afirma que a opinião do mundo se divide em duas tendências: republicana ou democrata. A partir de dois antigos conceitos da tradição judaica – mekil, o leniente, e machmir, o intransigente –, ele reflete sobre o sectarismo político da atualidade. Tais tendências pessoais são descritas como “tipos de alma”, marcas indeléveis de nossa identidade.

“Você pode brigar com a inclinação que tem. Em certos aspectos, modifica e vence. Mas sempre permanece uma linha mestra, um pano de fundo em sua relação com a vida”, disse Bonder em entrevista ao Estado de Minas durante sua passagem pela sétima edição do Fliaraxá.

Não há outro lugar possível hoje além da esquerda ou da direita?

Claro que há 50 tons de cinza, mas quando você tem uma polarização como a que temos agora, fica mais difícil ficar num arco-íris de posições. O outro já te identifica: ou você é de esquerda ou de direita. Não existe mais o ‘isentão’. Ele pode até jogar um monte de palavra fora tentando mostrar que é, mas ‘isentão’ é hoje alienado de direita. Estava lendo um material muito antigo, de mais de 2 mil anos, de clássicos da tradição judaica, e percebi que alguns sábios diziam que as pessoas pertencem a dois grupos: ou você é um rigoroso, um agravador, ou você é um leniente. Isso é uma construção da espécie humana. Fiquei pensando se é verdade e comecei a considerar que sim. Formação, nascimento, cultura, isso leva as pessoas para a esquerda ou direita.

Mas podemos mudar ao longo da vida, não?

A gente descobre em determinado momento que tem uma inclinação. É uma coisa de formação de cada pessoa, uma leitura do mundo, por onde cada um acha que as coisas vão dar certo. A estruturação de uma pessoa acaba virando sua marca de vida. Daí usei a palavra alma, que é uma espécie de identidade do indivíduo, que vai acompanhá-lo a encarnação inteira. São coisas que não se consegue mudar. Você pode fazer terapia, pensar, ter outras ideias, brigar com a inclinação que tem. Em certos aspectos, você modifica e vence. Mas sempre permanece uma linha mestra, um pano de fundo em sua relação com a vida.

Então, definitivamente, somos todos parciais.
Somos descendentes dos símios. Eles são tribais: ou você é do meu grupo, ou você não é. O comportamento do símio explica os medos, as inseguranças humanas. É muito com essa concentração do poder do macho que vem dos macacos que a gente está brigando hoje. As questões de feminismo, por exemplo, têm um valor evolutivo enorme para o ser humano. No livro, tento apresentar para as pessoas – quase uma brincadeira – a tipologia da alma. Começo o livro brincando sobre como seria a estruturação da alma mais republicana ou da alma mais democrata, com suas várias nuances.

Como falar de alma e política ao mesmo tempo?

Não sou um cientista político. Queria escrever um livro que desse uma dimensão política à esfera individual das pessoas. O que sempre está em jogo nesse lugar é a capacidade de ser um ser político com grandeza. Um ser político é alguém que briga por seus interesses, mas, ao mesmo tempo, é um ser que quer escutar o outro, quer acolher todo tipo de diversidade. Todos nós somos inclinados, seja pessoalmente, seja politicamente. E se você quer trabalhar num patamar mais sofisticado, individual ou coletivamente, você tem que ir para um lugar mais civilizado. Pois esse lugar mais polarizado é macacal, reativo, comportamental.

As redes sociais nos fizeram piores?
Elas não determinam valor, são um instrumento. Para mim, a internet é uma invenção similar ao dinheiro. Quando inventaram o dinheiro, foi um avanço civilizatório. Antes, era galinha para cá, trigo para lá. Inventaram um sistema de universalizar alguma coisa. A internet é a mesma coisa. Uma maneira de as pessoas se comunicarem sem utilizar intermediários. Tem um valor civilizatório, mas também gera coisas horríveis, assim como o dinheiro. “Na internet eu não humilhei ninguém, só falei que o cara é um babaca.” Hoje você entra na internet achando que está na sua casa, mas você está num hall, o maior auditório de todas as épocas. É de todo mundo. As pessoas vão usar aquela informação, fazer de um sussurro um trovão.

Ao se tornar escritor, você passou a ser um rabino que dialoga com cristãos, budistas, muçulmanos. Como falar com todo mundo?
Como não vou me identificar com uma pessoa, budista, cristã, se ela tem a mesma dimensão espiritual que eu? Falamos de coisas semelhantes. A minha alma é de formação leniente, então converso nesse lugar. As pessoas de alma mais rigorosa têm medo de que desconstruam seu discurso. No livro, tento olhar tanto os defeitos dos republicanos quanto os dos democratas. Os republicanos têm um medo estruturador – de que tudo vai desabar. Já o grande defeito do democrata é que ele fala mais do que faz. O republicano é mais comprometido do que o democrata.

Foi a sua leniência que o levou para a literatura?

Minha leniência me levou para um lugar universal. Por causa da figura do rabino, a pessoa que põe num quadrado. Mas a qualidade da minha escrita é pegar algo de um lugar muito particular e mostrar que ele é universal. A alma imoral é um livro ‘cabeça’, difícil, totalmente particular, no qual busco mitos bíblicos. As pessoas viram aquilo como um material transformador. “Por causa do seu livro me divorciei. Por causa do seu livro larguei meu emprego.” Engraçado, o normal seria “por causa do seu livro me casei”. É porque o livro tem essa coisa de tomar coragem, as pessoas se relacionaram com ele com muita dramaticidade. Não é o rabino quem está escrevendo, é o escritor. Mas é no lugar do rabino que escrevo essa literatura.

ALMA IMORAL VIRA SÉRIE
Depois de 400 mil exemplares vendidos, o livro A alma imoral, que está completando 20 anos, chega à TV na próxima semana. Estreia na quinta (5), às 22h30, no canal Curta!, o primeiro dos cinco episódios da série Alma imoral. Dirigida por Silvio Tendler, a série coloca o próprio Nilton Bonder na figura de  entrevistador. “Converso com indivíduos que estão tentando empurrar fronteiras. São pessoas dentro da minha tribo que têm falas diferentes”, diz. Entre eles estão o linguista Noam Chomsky, Steven Greenberg, o primeiro rabino ortodoxo abertamente gay, e o Lama Michel Rinpoche, que, nascido em uma família judaica, foi reconhecido como a reencarnação de um mestre budista tibetano. Matheus Solano, Letícia Sabatella e Júlia Lemmertz interpretam passagens do livro, que também gerou um campeão dos palcos. Em cartaz em São Paulo, o monólogo A alma imoral, com Clarice Niskier, já completou 12 anos em cartaz – e alcançou 650 mil espectadores.

FESTIVALEIRAS
>> Bruxo do Cosme Velho – A sétima edição do Fliaraxá só termina amanhã, mas a oitava já começa a ser delineada. O Fliaraxá 2019 será de 19 a 23 de junho, data escolhida porque, em 21 de junho, serão celebrados os 180 anos de nascimento de Machado de Assis, patrono do próximo festival.

>> Jetlag – “Gonçalo M. Tavares não tem o direito de escrever tão bem com apenas 35 anos”, disse certa vez José Saramago, referindo-se ao romance Jerusalém (2004), vencedor dos prêmios José Saramago e Portugal Telecom de Literatura. Hoje aos 47, Tavares é um dos autores portugueses mais conhecidos no mundo – seus livros já foram editados em 55 países. “Venho recebendo uma nova tradução por semana”, disse ele, que deixou o Fliaraxá diretamente para Toulouse, na França, onde participa do Marathon des Mots – Festival Internacional de Literatura.

>> Drummondianos – Lançado ontem no Fliaraxá, o livro Canto mineral: Carlos Drummond de Andrade ilustrado por Carlos Bracher terá hoje, a partir das 14h, tarde de autógrafos na livraria Quixote (Rua Fernandes Tourinho, 274, Savassi). O volume compila 54 poemas de Drummond. Bracher deixou a pintura de lado para se dedicar à ilustração em carvão. Em Araxá, o lançamento contou com debate com a presença de Bracher, do secretário de Estado de Cultura Angelo Oswaldo (que assina o posfácio da obra) e de Humberto Werneck, que prepara biografia de Drummond.

A repórter viajou a convite da organização do evento

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